"Drive My Car" | © LEFFEST

LEFFEST ’21 | Drive My Car, em análise

Adaptando um conto de Haruki Murakami, Ryusuke Hamaguchi criou um dos melhores filmes de 2021. “Drive My Car” foi primeiro exibido no Festival de Cannes onde ganhou o Prémio para Melhor Argumento. Além disso, também foi a obra escolhida para representar o Japão na corrida para os Óscares. Agora chega a Portugal, em antestreia nacional no Lisbon & Sintra Film Festival.

Três horas de filme é uma proposta capaz de amedrontar muitos, até aqueles que se consideram cinéfilos. Quando se trata de um drama parado, feito quase só à base de diálogos e sentimento reprimido, o medo é ainda maior. Quem gosta daquele tipo de produção a que se chama “slow cinema” talvez até corra para ir ver a obra, mas a audiência restante manterá a distância. Se alguém rejeitar “Drive My Car” por essas razões, mesmo antes de o ver, então será uma tragédia imensa. É que, não obstante a duração, o filme é uma narrativa fluida que jamais desperdiça um único segundo, articulando as suas muitas ideias de modo a fazer com que três horas passem num abrir e fechar de olhos.

Considerando as dimensões épicas que a fita acaba por tomar, é surpreendente ponderar o texto a que lhe deu origem. “Drive My Car” de Haruki Murakami é muito breve e sucinto, tendo pouco mais que quatro dezenas de páginas mesmo com as variações da tradução. Os elementos da história são simples até certo ponto. Existe um casal infeliz cuja vida matrimonial sofre sob o peso da perda, o espectro de uma filha que morreu ainda na meninice. Depois, mais morte se abate e um tipo diferente de luto emerge. Os anos passam, fazem-se viagens na santidade de um reluzente carro vermelho – prateado nas descrições do texto original, mas aqui metamorfoseado numa antiguidade escarlate.

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O dono dessa viatura é Yusuke Kafuku, um encenador famoso pelo seu trabalho com elencos de nacionalidades e idiomas díspares. Depois dessas perdas palimpsésticas do passado –expressas em gigante prólogo – ele é convidado a participar num festival em Hiroxima. Lá, os ditames da seguradora levam os organizadores a insistirem que Kafuku seja conduzido e nunca ande ele ao volante. Um glaucoma degenerativo dificulta qualquer argumento contranitente do senhor, mas a perda da privacidade é sentida. Era no carro, na sua solidão transitória, que Kafuku ouvia gravações das peças, que decorava suas falas e seus ritmos. Ou seja, o ato de conduzir é parte integral do seu método artístico.

Comungar com outra pessoa nesse momento é um gesto de incomensurável intimidade. Infelizmente, não há volta a dar. No fim, é essa partilha do tempo e do espaço na companhia da condutora taciturna que provoca a reflexão, o entendimento mútuo e, eventualmente, uma epifania. O processo que levou tal criação a crescer até se tornar neste filme monumental é multifacetado. Por um lado, Hamaguchi acrescentou muito material que reflete a sua própria metodologia enquanto diretor de atores, explorando os ensaios de uma companhia multilingue que trabalha sobre o “Tio Vânia” de Tchekhov. Nesse sentido, houve alguma reflexão do próprio autor na personagem, convertendo a história num comentário sobre a sua própria feitura.

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Tal como o realizador, também o encenador do filme começa por uma leitura obsessiva do texto, pedindo os intérpretes que declamem sem inflexão até terem interiorizado cada palavra. Há santidade no que está escrito e só depois do seu estudo exaustivo se pode dar vida à ideia no papel. Mesmo assim, a chave da extensão está no modo como Hamaguchi repudia o erro mais comum da adaptação literária. Ele rejeita a narração, a voz-off. Além disso, ao invés de forçar as personagens a exteriorizar ideias internas como modo de passar a prosa para cinema, o artista deixa que tudo se expresse por ações e um gradual revelar de vulnerabilidades escondidas.

Existem articulações muito verbosas, mas sua vocalização jamais cheira a mecanismo do autor. Por conseguinte, o ritmo da vida instala-se no templo do celuloide, e vamos descobrindo as personagens como se conhecêssemos um ser humano presente em carne e osso. Não há atalhos dramatúrgicos, e também não há indulgência penosa. O que resta é um tesouro de humanismo paciente, desenrolando a alma, descascando as muitas camadas de fachadas e ofuscações em busca de um âmago tenro. A precisão dos diálogos transparece o trabalho com o elenco, essa reflexão da encenação dentro do filme. A leitura intensiva e enterramento da palavra no subconsciente, permitem uma microscópica atenção dada ao gesto naturalista, ao pormenor.

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As mais pequenas coisas revelam galáxias de significado pessoal e é o singelo movimento que mais nos diz sobre cada pessoa. O fumar em silêncio torna-se numa ação de especial convívio e simbolismo, evidenciando a proximidade crescente entre o artista e sua condutora. Tal como cada pessoa partilha suas mágoas com o companheiro, também o tabaco e o lume são parte da comunhão. A imagem mais comovente da fita assim se afigura como um simples plano de mãos erguidas através do tejadilho. Nos seus dedos se seguram cigarros acesos, plumas de fumo puxadas pelo vento noturno. É uma visão quase religiosa, quiçá ritualista que emula o incenso fúnebre que se avista no capítulo primeiro de “Drive My Car”.

Trata-se de uma abordagem generosa que concede empatia até para com as figuras mais marginais da história, assim como aquelas cujas ações mais dificilmente se desculpam. Neste mundo, todos caminhamos sozinhos, mas nessa solidão coletiva encontramo-nos uns aos outros. O isolamento total de todos é o que paradoxalmente nos une e nos permite encontrar catarse nos olhos de um amigo. Apesar da sua densidade intelectual, “Drive My Car” é um trabalho rico em sentimento forte, em verdades universais e filosofia visceral. Através do seu conto de perda e ciúme, vingança e intransigência, confusão, culpa, Ryusuke Hamaguchi cristaliza a condição humana numa obra-prima do grande ecrã.

Drive My Car, em análise
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Movie title: Doraibu mai kâ

Date published: 27 de November de 2021

Director(s): Ryusuke Hamaguchi

Actor(s): Hidetoshi Nishijima, Tôko Miura, Reiki Kirishima, Yoo-rim Park, Dae-Young Jin, Sonia Yuan, Satoko Abe, Masaki Okada, Perry Dizon, Ann Fite

Genre: Drama, 2021, 179 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Observando os ritmos e ciclos da conversa, do convívio transitório, o realizador japonês Ryusuke Hamaguchi encontra uma vertente emocional que arrebata o espetador e o leva ao limite. Quando chegamos ao fim de “Drive My Car,” sentimo-nos esgotados, mas felizes. A autópsia da mágoa permite a sua superação, um tipo de catarse gélida que aquece o coração com seus paradoxos teatrais.

O MELHOR: O modo como Hamaguchi e companhia invocam aquele limbo do luto, quando a vida é só meio-vivida e o espírito estagna, demasiado exausto para procurar salvação. Os atores são especialmente sublimes na interpretação de tais realidades, com especial destaque para Hidetoshi Nishijima no papel principal.

O PIOR: Nada a apontar, se bem que a obra demanda muito do espetador. Há quem não se interesse por trabalhos que exigem tanto da audiência, desde conhecimento sobre os temas de “Tio Vânia” até à paciência para render a consciência plena por três horas no quarto escuro do cinema.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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