"O Poder do Cão" é o filme mais nomeado aos Óscares 2022 e um dos favoritos | © Netflix

LEFFEST ’21 | O Poder do Cão, em análise

Em Veneza, “O Poder do Cão”, também conhecido como “The Power of the Dog”, arrecadou o prémio para Melhor Realização dado pelo júri de Bong Joon-Ho. A nona longa-metragem de Jane Campion é um western revisionista adaptado do romance homónimo de Thomas Savage com estreia marcada para a Netflix no final deste ano. Entretanto, a obra passou na secção não competitiva do Lisbon & Sintra Film Festival como parte de uma grande homenagem à realizadora neozelandesa.

O que é ser homem? O que é a masculinidade? Na cultura hegemónica, existe uma forte ligação entre a agressividade e o que é ser homem. O exemplo masculino há que ser isento de sentimento forte, tem que ser racional e protetor, estoico e forte. Sendo que a força é muitas vezes definida e confirmada pela propensão para a violência, essa agressividade tão vista como extensão da testosterona. Tanto assim é que existe o conceito de masculinidade tóxica, uma ideia derivada desses preceitos a que o homem é levado a seguir numa conjetura cultural tradicionalista e cronicamente heteronormativa. Em “O Poder do Cão”, a masculinidade é certamente tóxica, um autêntico veneno. Também é uma prisão.

Para Phil Burbank, ser-se homem é ser-se rude e poderoso, um cowboy em modelo clássico que se afiguraria a John Wayne se a estrela de cinema já fosse famosa durante os anos 20. É nessa década que decorre a ação do filme, mas o panorama está muito distante desse passado sonhado cheio de jazz e flappers. Ao invés, o cenário é austero e hostil, as paisagens do Montana servindo como pano de fundo a um drama humano cheio de crueldades intoleráveis. Em tal mundo, o ídolo a que Phil se desenhou foi um homem da sua juventude, um tal “Bronco” Henry que lhe foi figura paternal, amigo, mentor e mais. Por esses ensinamentos não passou uma lição de compaixão, pelo que Phil é um brutamontes feroz.

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Encontramo-lo em peregrinação pelo terreno esquálido na companhia do irmão, o gentil George, e uma enorme manada de bovinos. O par está a levar os animais para o seu rancho numa altura em que as estações estão a virar e o calor de nova fertilidade paira no ar. Pelo caminho, eles param para descanso na estalagem de Rose Gordon, uma viúva que vive somente com a companhia de Peter, seu filho adolescente que sonha em estudar medicina e ajuda a mãe servindo à mesa. No dia em que Phil, George e seus homens lhes entram de rompante na vida, o rapaz até se deu ao trabalho de criar flores de papel para ornamentar as mesas do pobre estabelecimento.

A câmara de Campion e da diretora de fotografia Ari Wegner estudaram a criação do arranjo floral com apreço, detalhando a delicadeza artesanal pela qual jornais velhos se convertem em botões de rosa. Tanto é esse enfoque na arte de papel cortado que quase nos para o coração quando Phil troça dos bouquets, usando uma flor para acender o cigarro num claro gesto de desdém. Ele não faz só isso como também incita os seus homens a troçarem de Peter e seus jeitos efeminados, com pulsos delicados e a elegância de um dançarino sifilítico. Para Phil, confirmar que é um homem de respeito passa pela humilhação daqueles que fogem à norma, daqueles que ameaçam a sua mesma performance de normalidade.

O rapaz destroçado e a mãe abalada pela afronta, a estalagem é deixada num estado de caos internalizado. Vendo a aflição da senhora, George tenta consolar Rose e o afeto depressa desabrocha entre os dois. Assim se lançam os dados para um jogo trágico e lacerante, um conto de vis ódios e desejos proibidos. Ao som das cordas assobiantes de Jonny Greenwood, a montagem de Peter Sciberras faz o tempo passar em soluços violentos. Num abrir e fechar de olhos, Rose e George casaram-se e estão de regresso ao rancho, prontos a começar um novo capítulo nas suas vidas. O único problema é Phil, sempre o mesmo Phil que vê nesta nova mulher uma ameaça ao equilíbrio do seu domínio.

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Convencido que Rose só se casou com George pelo dinheiro, ele decide destruir a esposa do irmão. Outras histórias explorariam esta estratégia de guerrilha doméstica de forma bombástica, cheio de gritos e violências expressas à letra. A abordagem de Campion é mais selvagem e insidiosa, focando-se no modo como o cowboy dos infernos fecha o punho metafórico sobre a sua nova cunhada. Ela, qual boneca de porcelana, vai-se deixando rachar e, antes de sabermos o que se passa, já o chão está cheio de loiça estilhaçada e as mãos cobertas de sangue. Assombrada pelos erros do passado e a humilhação sistemática, Rose cai na depressão e no alcoolismo.

Para um filme tão languidamente ritmado, “O Poder do Cão” tem uma estrutura muito bem definida em três atos, sendo o primeiro um jeito de introdução e o segundo se dedica à destruição de Rose. A tensão vai-se acumulando como uma corda retorcida que se vira uma e outra vez, até às fibras estarem tão apertadas ao ponto de rebentar. A resolução do projeto odioso de Phil é complicada com a chegada de Peter e pelo início pleno do terceiro e último ato da narrativa. Subitamente, os paradigmas de antagonismo são invertidos e, longe de recriminar a natureza do rapaz, Phil afigura-se atraído pela sua figura.

Querendo assumir o papel que Bronco em tempos teve na sua formação, ele começa a ser mentor do novo membro da família. Contudo, não estamos a testemunhar nenhuma revelação de dever patriarcal, mas algo mais retorcido e vulnerável. Chegado o nono filme na sua prestigiada carreira, Jane Campion criou a sua obra mais queer de sempre. Algum do simbolismo fálico e penetrativo que a realizadora emprega é tão descarado que daria a Freud um ataque cardíaco. O que mais surpreende, contudo, é quanto as personagens parecem cientes dos seus papeis neste jogo de desejo retorcido. Se o “First Cow” de Kelly Reichardt nos mostrou um neo western orientado em torno de ideias homossociais e o princípio da clemência, “O Poder do Cão” assume-se como o gémeo mau da irmandade.

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Este é um filme sobre as profundezas obscuras da alma humana e os nossos impulsos mais animalescos, um mundo de predadores e presas em que a taxonomia de cada um é uma mentira melíflua. Está tudo nas texturas e nos cheiros sugeridos pelo formalismo audiovisual – o suor e o couro molhado, licor ilícito e sexo inflamado, um beijo dado pelo cigarro partilhado. Um beijo que sabe a tabaco e saliva, que serve como máxima mercê de um carrasco de olhos vítreos. Mais de uma década depois da estreia de “Bright Star – Estrela Cintilante”, Jane Campion prova que não perdeu nenhuma da genica, do virtuosismo ou criatividade assombrosa.

Suas imagens, os sons que conjura na sala de cinema, são como marcas a ferro e fogo que ela nos crava na mente. Além disso, o seu talento com atores continua sublime. No papel de Phil, Benedict Cumberbatch alcança um píncaro profissional outrora inconcebível, fazendo-nos entender um monstro antes de o desmantelar, de o desconstruir em camadas de performance masculina e insegurança apaixonada. Kirsten Dunst é essa boneca de porcelana despedaçada enquanto Kodi Smit-McPhee é um espectro vivo que concede ao filme a sua personagem mais magnética com Peter. Ver este tipo de cinema dói, mas vale a pena. Como sempre com esta realizadora, estamos perante uma obra-prima do cinema moderno.

O Poder do Cão, em análise

Movie title: The Power of the Dog

Date published: 16 de November de 2021

Director(s): Jane Campion

Actor(s): Benedict Cumberbatch, Kodi Smit-McPhee, Kirsten Dunst, Jesse Plemons, Thomasin McKenzie, Frances Conroy, Peter Carroll, Allison Bruce, Keith Carradine

Genre: Drama, Western, Romance, 2021, 126 min

  • Cláudio Alves - 95
  • Virgílio Jesus - 100
  • Manuel São Bento - 75
  • Rui Ribeiro - 80
88

CONCLUSÃO:

Um filme árido e queimado, que cheira a couro húmido e sangue coagulado, putrefação e sexo, “O Poder do Cão” é um feito assombroso no que se refere à experiência sensorial. Num paradigma narrativo é ainda mais impressionante, confirmando o estatuto de Jane Campion enquanto mestra do cinema.

O MELHOR: O beijo do cigarro, o toque venenoso de uma corda entrançada com amor esperançoso, um piano que atormenta e a flor de papel em chamas. O cinema de Jane Campion é sempre muito material e cheio de texturas, sendo que “O Poder do Cão” é um dos melhores exemplos desse seu talento.

O PIOR: A presença de Cumberbatch no papel principal sente-se um pouco forçosa, talvez até pouco convincente. Contudo, diríamos que quão mais laborioso o seu sotaque é, quão mais falseados são os trejeitos do cowboy machão, mais a figura de Phil é desconstruída e a máscara masculina se desvenda enquanto mentira mal contada.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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2 Comments

  1. Nelson 17 de Novembro de 2021
  2. 17 de Novembro de 2021

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