"Sportin' Life" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | Sportin’ Life, em análise

Abel Ferrara é um convidado regular do Lisbon & Sintra Film Festival. Este ano, o cineasta americano apresenta o autorretrato documental “Sportin’ Life” na secção competitiva. Willem Dafoe também figura como uma testemunha essencial.

Quando é lançado um documentário em jeito de perfil do cineasta, é raro tratar-se de uma autobiografia. Normalmente, o artista é observado através de uma perspetiva exterior que, ora bajuladora ou crítica, nos convida a reexaminar a arte e a vida do indivíduo no centro do filme. Por um lado, raro é o criativo que sabe dissecar o seu próprio trabalho sem se perder em insularidades mentais. Isso faz com que o observador de fora seja um elemento essencial para o filme com mérito de pensamento, jornalismo e primor analítico.

Por outro lado, documentários sobre vanguardistas da arte tendem a desapontar pelo modo como representam imaginações arrojadas através de mecanismos perfuntórios. Não seria bom que um filme sobre arte respirasse o mesmo fulgor que move essa mesma arte? Recentemente, Agnès Varda terminou suas lendárias carreira e vida com um trabalho de jubilosa autorreflexão. A “Varda por Agnès” é um bicho raro e a ele se junta mais um tremendo animal cinematográfico na forma do novo projeto de Abel Ferrara.

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Financiado pela Saint Laurent, o provocador americano construiu aqui uma amorfa memória sobre os seus últimos anos enquanto realizador, enquanto marido, amigo e toxicodependente no caminho da sobriedade. Mais especificamente, Ferrara fala sobre os últimos anos e o fruto do seu lavoro manifesta-se na forma de clips de fitas como “Tommaso”, “Pasolini” e “Siberia”. No entanto, esta lembrança é necessariamente fixada em 2020, nos meses de Fevereiro a Agosto. Desde a Berlinale à Bienal de Veneza, desde o início do pânico pandémico até a sua estagnação miserável.

Nesse sentido, “Sportin’ Life” é mais diário divagante que astuta autorreflexão, o que não é necessariamente algo ruim. Ver o filme é como examinar a matéria cerebral que fica presa a uma bala que atravessou a cabeça de Ferrara. Memória pegajosa aparece esbatida em sangue, coagulada em sentimento incoerente e queimada pelo calor da música e da celebridade. Trata-se de algo tão pessoal como visceral, cambaleante em estrutura, mas seguro em tom. Essa tonalidade é uma neblina de deslocação, de desespero e otimismo doloroso.

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Como realizador de produções internacionais, esse filho mal-amado de Nova Iorque vive como uma existência monádica entre a América e a Europa. Em tempos de COVID-19, o movimento errante de Ferrara é limitado, seu lavoro encarcerado por uma praga que ceifa cada vez mais vidas. À medida que o cheiro da morte sufoca a Grande Maçã e seus habitantes, a voz de um Presidente incompetente ribomba das televisões. Fala de embustes e da culpa chinesa, de que tudo vai ficar bem e outras mentiras que tais. Notícias e discurso presidencial rimam num poema deprimente e desesperante.

Ao mesmo tempo, esses rasgos de puro terror são como uma infeção na periferia do filme, uma maladia que de vez em quando explode em picos de dor, mas não ocupa sempre o pensamento. “Sportin’ Life” assim se desenrola como um diário sobre arte por onde os horrores de 2020 vão ocasionalmente mostrando a cara, destabilizando a obra. Dramaticamente, é um exercício meio disperso e sem forma, errático e desprovido de aparente propósito além da indulgência criativa. É claro que, para quem está já habituado a apreciar a personalidade abrasiva e o cinema de Ferrara, este cocktail sabe a verdade profunda.

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Assim se vê o espírito do realizador materializado em filme digital, sem os subterfúgios da performance ou da ficção a toldarem a vista do espetador. Além disso, os devaneios que incluem conversas com Willem Dafoe são deliciosos interlúdios, uma janela aberta para amizade profissional dos dois cineastas que nos dá novo ímpeto para revisitar os seus muitos filmes feitos em conjunto. Ver “Sportin’ Life” nesses momentos de conversa amistosa é constar a afirmação do duo como um dos grandes pares de realizador e ator-musa da contemporaneidade.

Por outras palavras, se és fã de Ferrara e/ou Dafoe, este documentário é visionamento essencial. Se não, podes, mesmo assim, encontrar nestes devaneios um honesto testemunho do que tem sido viver neste annus horribilis de 2020. Sinceramente caótico e convictamente honesto, “Sportin’ Life” é a confissão de um homem diretamente para a câmara de cinema, diretamente para o espetador.

Sportin' Life, em análise
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Movie title: Sportin' Life

Date published: 21 de November de 2020

Director(s): Abel Ferrara

Genre: Documentário, 2020, 65 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Montado como um furacão dissociativo, cheio de energia e ardor, “Sportin’ Life” é um autorretrato cinematográfico que peca pelo caos, mas fascina pela sinceridade. Não esperaríamos tal coisa do abrasivo Ferrara, pelo que se trata de uma surpresa agradável.

O MELHOR: A conversa casual entre Ferrara e Dafoe, sua abertura e vontade de partilharem o momento de amigos com o espetador atento.

O PIOR: Os clips dos filmes de Ferrara desiludem pela sua desinspiração.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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