Leffest Suspiria critica

LEFFEST ’18 | Suspiria, em análise

Suspiria” é um remake do clássico de terror italiano de Dario Argento, agora reinterpretado por Luca Guadagnino. Este filme encontra-se na Secção Oficial – Fora de Competição do Lisbon & Sintra Film Festival e já antes competiu na Bienal de Veneza.

O mundo é cinzento e húmido, é castanho e é frio. Cheira a terra molhada, a pele suada e por todo o lado, erguem-se massas cinzentas, brutalistas e feias. Betão e mármore descolorido traçam labirintos urbanos, jaulas sujas sem saída. Os mais velhos fogem ao passado e os mais novos querem rebentar com tudo. Na rádio e nas paredes grafitadas gritam-se protestos contra as gerações antigas que tentaram arrastar a humanidade ao inferno. Todos os que habitam aqui querem acreditar que o pior já passou. É mentira. Assim é Berlim no ano de 1977, o mundo enlouqueceu e está cheio de mentirosos. Assim é Berlim, o terror reina, o passado pesa sobre os ombros de todos e há bruxas à solta. Assim é também “Suspiria” de Luca Guadagnino.

Na sua obra-prima de terror pós-giallo, Dario Argento havia levado uma jovem americana ao horror de uma academia de ballet algures na cidade alemã de Freiburg. Essa era uma Alemanha de conto-de-fadas, irreal e etérea, essencialmente indefinida. Neste novo “Suspiria” não há nada de etéreo. Esta história revivida e transfigurada passa-se numa cidade visceralmente material, com uma presença física que consome o filme como uma besta faminta. Esta é a Berlim de Fassbinder drenada de cor, é imersiva e é lúgubre, específica e quase tátil. É tudo o que “Suspiria” de Argento não era. Isto não é um remake, mas uma mutação, um cancro parasítico que cresceu do esqueleto do original, consumiu o hóspede e agora se exibe em toda a sua ímpia glória nas salas de cinema.

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Tilda Swinton dá vida a três personagens, incluindo o trágico Dr. Josef Klemperer.

Para quem se agarre à simplicidade narrativa de Argento na esperança de entender as loucuras de Guadagnino, fica um aviso – tais esforços são inúteis. É certo que os ingredientes básicos são os mesmos de outrora. De novo temos uma bailarina americana a tentar vingar numa academia de dança alemã, cujas professoras são bruxas. Seu nome continua a ser Suzy (ou Susie) Bannion e sua instrutora rígida ainda se chama Madame Blanc. Novamente, a americana trava amizade com outra bailarina chamada Sara que está condenada à morte violenta. Patricia é outra aluna, já fugida e castigada. Porém, para lá de tais bases, esta reencarnação narrativa é irreconhecível, sendo um épico bizantino de considerações sociopolíticas em comunhão com um elogio apaixonado aos excessos do terror italiano.

Os mecanismos desse cinema de terror vindo de Itália são aqui filtrados pela dança contemporânea e por uma monstruosa celebração de feminilidade. A coreografia é o feitiço que permite que o corpo da mulher se torne no gerador de poder divino. É um poder que brota da repressão social, algo incompreensível para homens eternamente humilhados e afogados na culpa. Neste paradigma, o organismo feminino é também máquina do medo, cheio de potencial para sofrer, horrorizar e brutalizar. As próprias bruxas existem sempre neste caos de ambivalências morais e tonais. Seu quotidiano, por exemplo, é retratado por Guadagnino com casualidade e enaltecimento da irmandade. Por outro lado, o cineasta torna os seus rituais em alienantes circos de hedionda espetacularidade. Sob o signo de Guadagnino, estas matriarcas e pedagogas confundem e seduzem, protegem e dilaceram em igual medida.

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Tal é o potencial alienante dos maiores extremos a que o realizador leva “Suspiria”, que até para grandes veteranos do terror, terá momentos que farão revirar estômagos. Uma sequência em particular, bem cedo na narrativa, parece ter resultado de uma tentativa de Guadagnino superar a crueldade de Pasolini em “Sálo”, a perversidade dos demónios de Ken Russell e o horror corporal de Cronenberg. Trata-se de uma dança entre dois corpos separados no espaço. Um deles é Dakota Johnson, a encarnar a nova Susie Bannion, que aqui se contorce numa coreografia que parece ser a filha bastarda de Mary Wigman e Satanás. O outro é uma bailarina apóstata, cujo físico é contorcido e partido, violado, torturado e castigado até só sobrar uma massa de carne ensanguentada no lugar onde antes estava uma mulher. O mais obsceno de tudo é a beleza dessa agonia.

A montagem é precisa e tão poderosa como um murro na cara. O trabalho de som é expressivo, tanto na imersividade do ruído da chuva que bombardeia janelas distantes como no som do quebrar de ossos e rasgar de músculos. As músicas de Thom Yorke hipnotizam-nos com melodias desfeitas que estão sempre no limiar da reconstrução antes de tombarem novamente. Espelhos desfragmentam o espaço cenográfico e os figurinos tanto acentuam como escondem os corpos em movimento. Queremos afastar os olhos, mas não conseguimos. Sentimos o vómito no fundo da garganta, mas quando a nossa boca se abre é numa expressão de espanto. Tal beleza floresce do feio, do grotesco, do mal e é em si uma perversão do belo, uma contradição que nos desafia. Assim é com a beleza formal como é com as bruxas, com o retrato de feminilidade e com os registos tonais desta obra cheia de jubilantes contradições.

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Avé Mater Suspiriorum!

Este “Suspiria” dado à luz no annus horribilis de 2018 é um filme que confunde, que provoca e que choca. Este é um filme que, numa orgia de sangue, encontra espaço para melancolia e vê lugar para brutalidade num gesto de misericórdia. Este é um filme em que a Morte e uma matriarca menonista são a mesma pessoa, onde Tilda Swinton interpreta três papéis e até tem direito a um pénis falso, em que Luca Guadagnino perde a cabeça e contorce-se no chão a meio de um orgasmo cinematográfico. Ver o filme é dançar com um parceiro relutante que a cada gesto troca o passo e a coreografia. Quando pensamos que já entrámos no seu ritmo, um movimento repentino deixa-nos de novo perdidos enquanto ele se regozija no triunfo de nos ter escapado, uma e outra vez. Em seis atos e um epílogo, este “Suspiria” será para muitos um exercício em frustração e indecifrável pretensiosismo, mas ninguém o pode acusar de ser previsível ou pouco ambicioso.

Suspiria, em análise
Suspiria

Movie title: Suspiria

Date published: 2018-11-17

Director(s): Luca Guadagnino

Actor(s): Dakota Johnson, Tilda Swinton, Mia Goth, Chloë Grace Moretz, Angela Winkler, Ingrid Caven, Sylvie Testud, Elena Fokina, Alek Wek, Malgorzata Bela, Mikael Olsson, Fred Kelemen, Jessica Harper

Genre: Mistério, Fantasia, Terror, 2018, 152 min

  • Cláudio Alves - 95
  • Ângela Costa - 90
  • Rui Ribeiro - 90
  • João Fernandes - 90
  • Inês Serra - 90
  • José Vieira Mendes - 60
  • Daniel Rodrigues - 63
83

CONCLUSÃO

Nesta “Suspiria” ressuscitada, os males do século XX estão vivos e à procura de novas vítimas. Em jogos formais magníficos, os pesadelos desta viagem ao inferno são todos baseados na transgressão de sacralidades primordiais do ser humano, nomeadamente o corpo e sua autonomia. Estas são histórias de terror escritas na carne com uma faca. Esta é uma dança macabra e complicada, mas vale a pena ser dançada. Atreves-te a dançá-la?

O MELHOR: A pura ambição dos cineastas, tanto ao nível temático como no que diz respeito à procura pela provocação e choque. Tal é a magnitude que nem tudo resulta, mas mesmo os instantes de fracasso são interessantes.

O PIOR: A integração temática do Outono Alemão nos procedimentos narrativos. De facto, tirando as cicatrizes do nazismo na figura trágica do Dr. Klemperer, a componente mais histórica do filme tende a ser o seu maior ponto fraco.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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