A Lua de Júpiter

A Lua de Júpiter, em análise

Em “A Lua de Júpiter” um refugiado sírio numa Europa inóspita torna-se super-herói, torna-se anjo e torna-se em presença divina a lembrar-nos da nossa pequenez humana. O filme do húngaro Kornél Mundruczó foi um dos títulos em Competição no Festival de Cannes do ano passado, onde foi o filme preferido de Will Smith, então membro do júri oficial do festival.

Nas cidades modernas ninguém olha para cima. Tão focados estamos na pequenez cósmica das nossas vidas, que a grandeza da abóbada celeste por cima das nossas cabeças nunca merece atenção. Como tal, nunca confrontamos a nossa insignificância, nunca ponderamos o julgamento de algo maior que o nosso presente imediato. Se alguém existisse acima de todos nós, não saberíamos que lá estavam, e, para eles, talvez não fôssemos mais que formigas inócuas, seres com uma visão tão limitada do mundo que pouco diferentes são de uma criança a brincar às escondidas, mãos a tapar os olhos e contagem em voz alta a abafar o som envolvente. No universo edificado por Kornél Mundruczó em “A Lua de Júpiter”, todos somos essa criança cega e surda para o mundo.

Antes de elaborar tais ponderações sobre o estado da humanidade, “A Lua de Júpiter” começa com uma explicação de como uma das luas de Júpiter, devido a específicas condições geográficas e atmosféricas, poderá ser um dos melhores lugares para o ser humano existir fora da Terra. Essa lua chama-se Europa e, depois de tal mensagem textual desaparecer do ecrã, o espectador é mergulhado no caos sensorial de um grupo de refugiados sírios a tentar entrar na Hungria através da fronteira sérvia. De ponderações de um êxodo planetário, vemos um êxodo terreno onde as autoridades disparam contra inocentes em desespero. Quem sabe se, um dia, essas autoridades hostis não serão também refugiados num ambiente hostil?

a lua de jupiter critica
“(…)não é um filme que brilhe pela subtileza(…)”

Algo é certo, nenhuma das pessoas em cena tem oportunidade de pausar e pensar sobre tais questões, enquanto correm desenfreadamente pelas suas vidas, por uma fugaz esperança de serem livres e a salvo do inferno terreno em que a sua antiga pátria se tornou. Já muitos foram os críticos a comparar esta sequência inicial de “A Lua de Júpiter” à abertura de “O Resgate do Soldado Ryan” e é fácil perceber o porquê de tais analogias. Com uma sonoplastia tão violenta quão imersiva, uma panóplia de efeitos especiais que exacerbam o caos e um trabalho e câmara flutuante que parece desafiar as leis da física, sentimos quase que, enquanto espectadores, estamos próximos dos homens e mulheres em aflição, mesmo a nível psicológico.

No meio deste espetáculo de visceralidade cinematográfica, seguimos um jovem chamado Aryan e seu pai. Os dois separam-se durante a travessia e, antes de se conseguirem reencontrar, Aryan é alvejado por um polícia. Apesar do impacto direto das balas ao longo do seu torso, o refugiado juvenil não morre de imediato. Aliás, gotículas de sangue começam a flutuar do seu corpo como se a gravidade deixasse de ter efeito e, qual feito de graça divina, Aryan começa a voar. A câmara, como que se separando de vez das leis da física, vai com ele pelo ar, desenhando espirais descontroladas numa montanha russa coreográfica que põe qualquer espectador de boca aberta em simples admiração pelas visões do outro mundo diante dos seus olhos.

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Tal deslumbramento faz destes momentos de fantasia inesperados gestos de graça e algo próximo de paz no caos de degredo humano que o filme passa o resto do seu tempo a retratar. Pelo menos, assim o é até Aryan cair nas garras de Gabor Stern, um médico que vê como um castigo o seu trabalho num campo de refugiados e encontra neste rapaz super-poderoso uma potencial fonte de lucro. Com a presença corrupta de Stern, as façanhas de Aryan começam a ganhar uma faceta mais ameaçadora que celestial, especialmente quando ele parece rodar o centro de gravidade de um apartamento para o horror do seu inquilino. Enfim, no final, não é Aryan que é corrompido pela influência do médico ganancioso, sendo Stern quem é transformado pela presença deste homem milagreiro, um anjo descido à terra para nos fazer olhar para cima.

A esta altura, convém dizer que “A Lua de Júpiter” não é um filme que brilhe pela subtileza dos seus temas ou sofisticação do seu discurso ideológico. Se há uma oportunidade para Mundruczó e a co-argumentista Kata Wéber martelarem os temas na cabeça da audiência, eles fazem-no com descarada energia, obliterando qualquer tipo de nuance. Esta abordagem é tão pervasiva que sacrifica quase todos os outros elementos do texto, desde o enredo que fica reduzido a uma série de clichés do cinema de ação e neo noir, até às personagens que são pouco mais que recetáculos para os significados simbólicos que o par de argumentistas quer explorar. Aryan, em particular, é uma completa cifra, o que torna o investimento emocional no filme uma impossibilidade quase certa.

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“Nas cidades modernas ninguém olha para cima.”

O facto de todo o diálogo ter sido dobrado em pós-produção só exacerba a alienação do espectador. Esse, contudo, é o único elemento técnico em falha, pois, desde efeitos sonoros a música, efeitos visuais e, é claro, a louca fotografia rica em coreografias dementes e planos sequência fisicamente impossíveis, “A Lua de Júpiter” é um espetáculo do mais alto nível. É como se Mikhail Kalatozov e Sergey Urusevsky tivessem transposto o seu estilo de câmara voadora de “Eu Sou Cuba” para uma história de origem de um super-herói com subtexto religioso no meio da crise dos refugiados na Europa. Ou seja, apesar dos seus defeitos, o filme é imperdível de um ponto de vista formal, mesmo quando as suas soluções levam a audiência a uma exaustão sensorial. Afinal, quando confrontados com tal história de sofrimento e desespero, há algum sentido na exaustão do espectador.

A Lua de Júpiter, em análise
A Lua de Júpiter

Movie title: Jupiter holdja

Date published: 2018-06-07

Director(s): Kornél Mundruczó

Actor(s): Zsombor Jéger, Merab Ninidze, György Cserhalmi, Mónika Balsai, Ákos Birkás, András Bálint,

Genre: Drama, Ficção-Científica, 2017, 129 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO

Com um discurso ideológico meio confuso e cheio de simbolismo gritado, “A Lua de Júpiter” é uma fantasia política com graves problemas. No entanto, a sua construção formal é de uma espetacularidade capaz de aliviar tais defeitos, mesmo quando os seus devaneios estilísticos provam ser exaustantes a longo prazo.

O MELHOR: A conjugação da fotografia, efeitos especiais e banda-sonora conjuram um ambiente opressivo, tão apocalíptico como angélico. Há que ver para crer.

O PIOR: A abismal opacidade das figuras humanas em cena para quem a designação de personagem é inapropriada tal é a sua indefinição. Quando o projeto tem temas tão proto humanistas como este, que literalmente vê um refugiado maltratado por uma Hungria fascista ser visto como uma presença divina e como caminho para a redenção, é imperdoável tal desumanidade textual.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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