A Luz Entre Oceanos, em análise

Alicia Vikander e Michael Fassbender trazem lacerante poder emocional à trágica narrativa de A Luz Entre Oceanos, o mais recente filme de Derek Cianfrance.

a luz entre oceanos

Apesar de a sua estreia enquanto realizador ter ocorrido em 1998, a carreira de Derek Cianfrance apenas ganhou aclamação da crítica aquando da estreia da sua segunda longa-metragem em 2010, Blue Valentine. A seguir a esse anti-romance naturalista, Cianfrance voltou a captar a atenção internacional com o tríptico Como Um Trovão, mas, desde 2012, que temos estado à espera de outro projeto deste promissor cineasta. Agora, em 2016, a obra com que nos deparamos é estranhamente distante das suas outras, sendo um trágico romance de época adaptado de um livro de sucesso. Nas palavras do próprio Cianfrance, A Luz Entre Oceanos, por muito convencional que possa parecer, foi uma experiência onde o cineasta tentou criar algo entre a grandiosidade romântica de David Lean e a intimidade cáustica de John Cassavetes.

Apesar do projeto, no seu todo, lembrar mais a solenidade entediante d’A Filha de Ryan, é certo que, nos seus primeiros momentos, é fácil perceber a leve influência de Cassavetes. Em termos mais específicos, referimo-nos ao plano singular, quase claustrofóbico, com que Cianfrance nos apresenta a Tom Sherbourne, o nosso protagonista. Ele é um veterano da Primeira Guerra Mundial a tentar assegurar o posto de faroleiro numa remota ilha da Tasmânia e, através da comedida e psicologicamente sagaz prestação de Michael Fassbender, conseguimos vislumbrar as cicatrizes espirituais que ele ainda carrega consigo. É mesmo nessa interioridade que o ator mostra os seus maiores talentos, trazendo ao filme aquilo que se poderia perder nas entrelinhas e construindo, na sua presença, uma âncora na qual o espetador pode encontrar uma precária estabilidade, especialmente quando a narrativa se precipita em epítetos melodramáticos no terceiro ato.

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Seguindo essa introdução focada no trabalho de ator e umas breves cenas sociais, em que vislumbramos a luminosa Alicia Vikander pela primeira vez, acompanhamos Tom na sua nova vida, completamente sozinho numa ilha deserta chamada Janos e cuja única marca de presença humana é o farol. Nestas passagens, Cianfrance conjura a opulência estética de David Lean, filmando os céus pintados com as chamas do pôr-do-sol e a violência cinzenta do oceano com o olho de um poeta a escrever uma canção ora sobre solidão humana, ora sobre a majestade do mundo natural. Muito crédito há que ser dado ao primoroso trabalho da equipa responsável pelos visuais, com especial destaque para Adam Arkapaw, que, nos últimos anos, se tem vindo a afirmar como um dos melhores diretores de fotografia a trabalhar em cinema e televisão. Se há um grande passo em falso aqui, é a banda-sonora de Alexandre Desplat, cujas melodias parecem sempre forçosas e enfaticamente desnecessárias.

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Por muito belo que seja este poema cantado sobre a vida de Tom no seu farol, A Luz Entre Oceanos não se trata de um retrato de um homem isolado do resto do mundo. É aí que volta a aparecer a figura magnética de Alicia Vikander como Isabel Graysmark, uma jovem que se vai aproximando de Tom durante as suas raras visitas à comunidade local. Sem muitos rodeios ou reviravoltas, os dois apaixonam-se, trocam cartas e depressa se casam e vão viver para Janos, onde, completamente sozinhos durante os primeiros meses de paixão, a sua alegria romântica quase vibra da tela. Por momentos, a solenidade de Lean é substituída pelo lirismo de Terrence Malick na mesma medida que a música de Desplat é abandonada em prol de peças pré-existentes e desprovidas da qualidade melosa das suas composições originais.

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No entanto, tal idilismo é, como seria de esperar, condenado a ter um final abrupto que, aqui, toma a forma de uma série de abortos espontâneos. Tais desenvolvimentos ocupam um espaço temporal minúsculo na duração do filme mas nunca parecem apressados ou desprovidos de impacto emocional, graças à química inquestionável dos dois atores que iniciarem um genuíno envolvimento romântico durante as filmagens. Vikander, em particular, tem aqui a sua melhor prestação em cinema anglófono e consegue modular e tornar visceralmente compreensíveis os comportamentos mais erráticos e exagerados da sua personagem. Com a sua prestação, sentimos o júbilo que acompanha o florescer do seu romance com Tom; somos dilacerados pela visceralidade da sua dor, especialmente durante uma sufocante sequência em que um recital doméstico se torna num pesadelo de body horror; e, acima de tudo, simpatizamos com o seu estado mental quando Isabel faz certas escolhas que agoiram inevitável tragédia.

Se os trailers de A Luz Entre Oceanos não tivessem já revelado o evento que propele os dilemas da segunda metade do filme, seríamos mais cautelosos com spoilers, mas, sendo assim, não temos qualquer problema em revelar que um barco chega a Janos e, no seu interior, Isabel e Tom encontram o cadáver de um homem e uma bebé de poucos meses ainda viva. No seu desespero depressivo, a mulher do faroleiro vê aqui uma dádiva divina e acaba por convencer o marido a não reportar nada às autoridades e consequentemente criar a menina como se ela fosse sua.

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Anos passam e a família, agora completada com a pequena Lucy, fica cada vez mais chegada, mas há uma sombra que atormenta o patriarca. Ela é Hannah, a mãe biológica de Lucy, que Tom vislumbrou durante o batizado da pequena e cuja dor é uma venenosa infeção de culpa na mente do antigo soldado. De romance melancólico o filme passa a ser uma complicada trama moral e, escusado será dizer, neste turbilhão de amor, auto-martirização e dor, o final não é propriamente feliz para qualquer uma das personagens.

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Paradoxalmente, A Luz Entre Oceanos vai perdendo energia à medida que o seu enredo se vai desdobrando com cada vez mais violência. De forma geral, os atores, com exceção de Rachel Weisz como Hannah, fazem um bom trabalho nesta parte atribulada da narrativa sendo que a culpa não é deles, mas nem mesmo Vikander consegue energizar o filme moribundo. Parte do problema deve-se ao modo como Cianfrance deixa para trás o lirismo da primeira metade em nome de uma mais convencional adaptação literária apoiada em diálogos e no seguimento de ações, mas até a montagem parece perder o fôlego e se torna inerte. O pior de tudo é que o filme termina na sua pior cena, uma passagem completamente desnecessária que parece ter sido aqui posta simplesmente para fechar em absoluto a narrativa e não enfurecer os fãs mais emocionais do livro original que já devem estar furiosos pela ausência de qualquer sotaque australiano numa narrativa explicitamente situada nesse país.

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O MELHOR: A espetacular e surpreendentemente complicada prestação de Vikander, que é aqui mil vezes melhor do que no papel que lhe valeu o seu Óscar no início do ano.

O PIOR: A sacarina banda-sonora de Alexandre Desplat.



Título Original:
 The Light Between Oceans
Realizador: Derek Cianfrance
Elenco:
Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz,  Florence Clery

NOS | Drama, Romance | 2016 | 133 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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