Mad Max: Estrada da Fúria, em análise

 

Mad Max Estrada da Fúria (1)
  • Título Original: Mad Max: Fury Road
  • Realizador: George Miller
  • Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Hugh Keays-Byrne, Rosie Huntington-Whiteley, Zoë Kravitz
  • Género: Ação, Aventura, Sci-Fi
  • NOS Audiovisuais| 2015 | 120 min

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Alguém pergunta a Tom Hardy, na conferência de imprensa de apresentação de Mad Max: Estrada da Fúria no Festival de Cannes, se enquanto lia o guião de George Miller se tinha auto-questionado sobre a existência de tantas mulheres em seu redor ao longo de uma narrativa que supostamente deveria ser dominada por homens. A resposta seguiu-se com um “Não, nem por um minuto.” E na Croissette, alguns tímidos mas relevantes aplausos acompanharam a assertividade do ator.

Isto para dizer que é profundamente penoso analisar os rótulos retrógrados do cinema de ação, porque tudo parece ser medido com uma unidade exígua chamada testosterona – sim, aquela hormona que está patente nos bíceps do Schwarzenegger, na virilidade do Stallone, no fato Tom Ford do Daniel Craig e até na voz radiofónica do Vin Diesel. E não fosse a existência de uma exceção de nome Ellen Ripley (Sigourney Weaver), seríamos até levados a concluir que os estrogénios  estavam extintos neste lado tão sexista da indústria cinematográfica. Felizmente, George Miller vive na plenitude da sua saúde mental e é capaz de estabelecer o balanço natural das coisas nesta sua nova intrépida aventura. Não que o seu objetivo seja o de colocar a figura feminina num pedestal ou, como muitos dizem, fazer uma forte declaração política a favor da causa feminista – facto que, imagine-se, leva misoginistas com défice de inteligência a decretarem um inócuo boicote ao filme. O que Miller concretiza nesta sua obra-prima – e já lá vamos – é apenas o retrato da realidade evidente: homens e mulheres convivem no mesmo pedaço do planeta e ambos desafiam os seus instintos de sobrevivência na selvajaria que habitam.

Mad Max Estrada da Fúria (1)

É portanto neste contexto que surge em “Mad Max: Estrada da Fúria” a oportunidade de admirar o legado de Ripley na pele da irrepreensível Charlize Theron. Ela é a Imperator Furiosa, uma mulher que atravessa a Wasteland em fuga da Cidadela tiranizada por Immortan Joe (interpretado por Hugh Keays-Byrne, o mesmo vilão de Mad Max de 1979), e que leva na sua Máquina de Guerra os cinco maiores tesouros do vilão – cinco mulheres férteis tornadas escravas para engravidarem dele. Exasperado pela perda de cinco caprichosos objetos, o Senhor da Guerra inicia uma perseguição impiedosa aos rebeldes que se estende ao longo de toda a narrativa. É algures no caminho frenético pela estrada da fúria que Max (agora interpretado por Tom Hardy), perseguido pelo seu passado turbulento – ainda que esta obra seja um episódio na vida de Max, e não uma sequela declarada -, se junta a Furiosa na proteção destas mulheres.

E é esta a história por detrás do movimento constante de Mad Max: Estrada da Fúria, que chega agora aos cinemas precisamente trinta anos depois de Mad Max: Beyond Thunderdome, mas que é encarado como um upgrade direto de “The Road Warrior” (para muitos, o melhor filme do franchise). Se os temas basilares da trilogia pós-apocalíptica australiana estão bem enraizados neste “Estrada da Fúria” – a escassez de recursos naturais, a procura desenfreada pelo Éden perdido ou a esperança na salvação humana executada por um guerreiro da estrada -, a verdade é que George Miller consegue, na beleza dos seus 70 anos, adicionar ainda mais substância à sua criação. Aqui fala-se também da objetificação humana, da falácia da esperança ou dos traumas do passado como entrave à constatação do real.

Mad Max Estrada da Fúria (2)

São estes temas – apoiados muito mais na linguagem não verbal do eye contact do que nas raras linhas de diálogo – que trazem significado para as acrobacias insanas, os motores de guerra absurdos, as tempestades de areia multicolores, as guitarras cuspidoras de fogo, os tambores em constante sincronismo, as explosões incomensuráveis, o sangue que se mistura com o óleo no metal e nos trajes selvagens, os gritos ancestrais dos guerreiros a caminho de Valhalla. São também estes temas que fazem a ligação emocional entre os personagens – que sofrem, lutam, triunfam e eventualmente morrem – e o espectador. Vale a pena realçar que tudo isto decorre no meio de uma corrida furiosa, imparável e visceral, como se Mad Max: Estrada da Fúria fosse uma longa viagem de duas horas onde sentimos que visitamos uma imensidão de lugares sem sairmos da mesma cadeira.

O grande desafio de Miller era tornar esta viagem caótica pela estrada da fúria numa experiência livre de exaustão, e que ao mesmo tempo fosse capaz de difundir a sua narrativa para outros territórios que fossem além das imagens e dos sons. Mas quanto a isso podíamos ficar descansados.

Mad Max FURY ROAD

Estrada da Fúria” foi uma história pensada por George Miller há doze anos atrás enquanto fazia uma viagem de avião. Certamente que Miller não pensou no detalhe do swing dos seus duplos que se movimentam numa espécie de canas de salto em altura enquanto tentam fazer explodir carros, não idealizou ao pormenor a gloriosa queda de um camião que teria de ser feita a um só take, não projetou os silêncios ensurdecedores quando Furiosa se entrega de joelhos às areias cáusticas daquele deserto e, por certo, muito menos imaginou o quase nonsense do inebriante Nux (Nicholas Hoult) com o seu célebre “What a lovely day!” Miller concebeu a história como suporte para o delírio visual e sonoro. Ainda que ela pareça simples e linear, é um erro desconsiderá-la quando esta se junta ao admirável espetáculo de cores e sons.

Claro que sendo Miller um realizador da era pré-digital, é um alívio constatar que o que vemos diante dos nossos olhos são atores reais em cenários reais. Aqui, os chamados ‘pratical effects’ da velha guarda (desde a maquilhagem às explosões em grande escala) contrapõem a moda do CGI dos blockbusters modernos, e as paisagens de cortar a respiração não são fruto de um conjunto de equações matemáticas que regem um software de modelação da realidade. Diz até Charlize Theron numa entrevista, que descobriu recentemente que deserto da Namíbia – local onde decorreram grande parte das filmagens – é a terra que Deus criou quando estava com raiva. E, de facto, é impossível imaginar “Estrada da Fúria” a localizar-se num canto diferente deste mundo.

Mad Max Estrada da Fúria (4)

As batidas alucinantes da banda sonora de Junkie XL, a cinematografia prodigiosa de John Seale (vencedor de um Óscar por “O Paciente Inglês”), ou a montagem supervisionada pela esposa do realizador, Margaret Sixel, são contributos decisivos para que o novo “Mad Max” seja uma das melhores experiências cinematográficas dos últimos anos.

Contudo, para lá das sinestesias provocadas pelos atributos técnicos – incrível como as pipocas funcionam aqui quase como cogumelos alucinógenos – há atores. Se Tom Hardy, na expressividade dos seus silêncios, é um digno sucessor de Mel Gibson, o que dizer da camaleónica Charlize Theron? A sua Furiosa é uma mulher abalada, desiludida e frustrada que carrega nela uma raiva tremenda. Uma anti-heroína, que não se propôs a ser mais do que aquilo que é: uma mulher que inicia uma viagem – a derradeira história de vingança – estimulada pelas mais puras falhas humanas. E se ser feminista é acreditar num mundo onde possam existir mulheres como Furiosa na mesma proporção que existem homens, então sejamos todos feministas.

FURY ROAD

Ainda hoje, e dezenas de horas depois de ter atravessado aquele deserto, é incrível pensar que Mad Max: Estrada da Fúria é um filme que existe.

E face a tudo isto, os hipotéticos deuses que regulamentam a duração das coisas, podem já deliberar, a título excecional, que o ano cinematográfico encerra aqui e agora. Não vale a pena esperar para ver algo melhor. Até porque, tal como diz Max, ter esperança é um erro.

DR

 

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Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

3 thoughts on “Mad Max: Estrada da Fúria, em análise

  • Foram a Cannes?! Viram o “Sea of Trees”? Como foi?!

  • Boa tarde David,

    Infelizmente não, não fomos a Cannes, mas estamos ruídos de inveja de quem lá está neste momento. Vimos a conferência de imprensa em live stream.

    Quanto ao Sea of Trees, já soubemos que foi fortemente apupado mas numa outra sessão até foi aplaudido. Um filme que certamente vai dividir o público.

    Cumprimentos,
    Daniel Rodrigues – Magazine.HD

  • Mad Max: Estrada da Fúria: 4*

    O filme tem efeitos visuais bastante bons e competentes, mas peca por ser grande demais.

    Cumprimentos.

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