Mica Levi | Compositora em Ascensão

Depois dos triunfos de Debaixo da Pele e Jackie, assim como uma nomeação para o Óscar, Mica Levi é uma das mais interessantes compositoras do cinema atual.

Independentemente de tendências musicais em voga, o mundo das bandas-sonoras cinematográficas é, pelo menos dentro do mainstream, estranhamente preso a noções meio ossificadas de classicismo. Veja-se, por exemplo, a popularidade e contínua presença da música de Ennio Morricone e John Williams no cinema atual, apesar de nenhum dos dois homens ter evoluído muito o seu estilo desde o auge doirado das suas filmografias. Nada disso é necessariamente mau, mas revela uma certa relutância em celebrar a novidade que não tem melhor ou mais evidente expressão que o grupo anual de nomeados ao Óscar de Melhor Banda-Sonora Original.

Nas passadas décadas, a Academia de Hollywood tem vindo a mostrar-se incrivelmente reticente no que diz respeito ao reconhecimento do trabalho de compositores em início de carreira ou composições que saiam fora da “norma” vigente no produto dos grandes estúdios. É por isso que, não obstante a aclamação crítica, a maior parte das vezes, a Academia nomeia, no máximo, um compositor que nunca tinha sido antes indicado ao galardão. Este ano, contudo, essa venenosa regra foi violada e temos seis compositores nomeados para o Óscar e apenas um deles é um veterano deste mundo. Uma das nomeadas mais surpreendentes é Mica Levi que conquistou o ramo musical da Academia com as suas tenebrosas composições para Jackie.

Apesar de toda esta conversa da tirania cinematográfica do classicismo musical, Levi começou o seu percurso musical bem longe de quaisquer noções de avant-garde. Filha de dois músicos e nascida em 1987, a futura compositora inglesa dominou o violino logo na infância. Podemos mesmo dizer que Mica Levi foi um prodígio pois, com apenas quatro anos, ela já tocava e começava a compor as suas próprias músicas. Essa veia criativa levou-a, mais tarde, a ganhar bolsas de estudo, primeiro para a Escola Purcell, onde foi treinada classicamente, e depois para a Escola de Música e Teatro de Guildhall em Londres, onde estudou música eletrónica e composição musical. Durante os seus estudos, Levi chegou mesmo ser abordada pela Orquestra Filarmónica de Londres, para quem a jovem escreveu uma peça orquestral. Este seu trabalho foi posteriormente apresentado no Royal Festival Hall em 2008.

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Por 2009, contudo, Mica Levi já tinha abandonado os estudos e, ao mesmo tempo que trabalhava como DJ e continuava a divulgar composições originais nas redes sociais e clubes londrinos, ela estava a lançar o álbum de estreia da sua banda Micachu and the Shapes. Com um estilo originalmente encontrado algures entre a música eletrónica e a experimental, esta banda alternativa foi continuamente evoluindo a sua abordagem criativa. Em 2015, eles lançaram o seu terceiro álbum intitulado Good Sad Happy Bad, já depois de Levi se ter envolvido no mundo do cinema.

Tal aventura pelo mundo da sétima arte começou com uma proposta de Jonathan Glazzer que, depois de ter ouvido algum do trabalho de Mica Levi, a convidou a escrever a banda-sonora original para a sua terceira longa-metragem. O filme em questão, Debaixo da Pele, foi um estonteante sucesso crítico e a aclamação estendeu-se também ao trabalho de Levi. As suas composições bizarras, ocasionalmente repetitivas e caracterizadas por uma constante atmosfera de desconforto e amorfismo, eram a perfeita ilustração musical para a insana proposta do realizador e a sua história de uma alienígena que deambula pela Escócia sob um disfarce humano.

O número mais memorável dessa banda-sonora, Death, chegou mesmo a servir de base para a banda-sonora da quarta temporada de American Horror Story. Essa pode parecer uma honra pequena, se não considerarmos que as fontes de inspiração musical para o resto dessa banda-sonora incluíam, por exemplo, o trabalho de John Carpenter e Dario Argento. Por muito nova, inexperiente ou estranha que Mica Levi fosse entre o mundo da composição musical para cinema, o seu trabalho já estava a ganhar uma notoriedade quase icónica.

Mesmo assim, e apesar de inúmeras honras de associações de críticos, a banda-sonora de Debaixo da Pele foi completamente ignorada pelos Óscares. Os especialistas ficaram pouco admirados na altura pois, afinal, seria demasiado ingénuo pressupor que a Academia se dignasse a celebrar uma proposta musical tão avant-garde e de um nome tão desconhecido como Mica Levi. Como já dissemos no início do artigo, este ano, a compositora finalmente foi reconhecida por essa faustosa instituição e está indicada para o prémio mais cobiçado de Hollywood devido ao seu trabalho em Jackie, a bizarra biografia de Jacqueline Kennedy assinada por Pablo Larraín.

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Uma coisa é certa, não obstante algumas más-línguas: esta não se trata de uma honra de consolação, como acontece tantas vezes quando a Academia ignora os melhores trabalhos de certos artistas, mas sim um justo reconhecimento de uma das melhores bandas-sonoras do ano. É a partir dos esforços de Mica Levi que a natureza desconcertante de Jackie ganha máxima expressão. A música, mais ameaçadora que inspiradora, nunca deixa que a audiência caia no conforto da displicência. Não se tratam de melodias particularmente belas, mas a sua dissonância e uso enfático de cordas trémulas, mergulha a audiência na psique conturbada do seu sujeito de análise. Normalmente, a música nos filmes serve o propósito de indicar à audiência o que sentir, mas aqui, longe de assumir a posição de uma máquina criadora de emoção, a música em si parece ser a manifestação sinfónica da mente conturbada da protagonista. Do usual barómetro sentimental, Mica Levi elevou o seu trabalho até ao patamar de sofrimento em forma sinfónica.


Os realizadores que trabalham com Levi parecem bem cientes do poder da sua música, sendo que, tanto Glazzer como Larraín, dão prioridade à banda-sonora nas suas sonoplastias expressionistas. Pelo que lhe compete, Mica Levi já tem mais dois projetos cinematográficos em gestação, o primeiro, Marjorie Prime de Michael Almereyda, com estreia marcada para 2017, e o segundo, Vox Lux de Brady Corbet, em 2018. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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