Miles Ahead, em análise

O conhecido ator Don Cheadle (‘Capitão América: Guerra Civil’), escreveu, produziu, dirigiu e protagonizou este ‘Miles Ahead’, um excelente ‘biopic’ sobre uma das lendas do jazz e uma belíssima homenagem a um dos maiores talentos da história da música.

Miles Ahead

Estreou em fevereiro na Berlinale 2016 (fora da competição), o filme que Miles Davis merecia e que tantos esperavam. Chega agora às nossa salas, um pouco ‘fora de estação’, esta preciosidade intitulada Miles Ahead (título igualmente de um dos grandes discos do trompetista), pela mão do multi-facetado Don Cheadle, um grande actor negro, oriundo do Kansas, que começa por nos oferecer uma das melhores interpretações da sua carreira, embora numa história que se resume apenas uma parte da vida de Davis.

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Basta conhecer um pouco do percurso de Miles Davis para perceber, que é uma daquelas vidas que dava um filme. O grande trompetista norte-americano (nasceu em Illinois a 26 de maio de 1926, e faleceu a 28 de setembro de 1991 em Santa Mónica, Califórnia, EUA) está na história da música entre os grandes nomes do jazz, como Louis Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, John Coltrane, Bill Evans, entre outros. E por isso há muito que era esperado um filme sobre a sua vida, porque foi um artista que várias vezes mudou a história do jazz: marcou-a nos anos 40, quando passou do bop ao cooljazz; voltou a marcá-la em finais dos anos 50, dando-lhe forma ao jazz modal e criando essa obra-prima chamada Kind of Blue (uma maravilha saída do mítico estúdio A da Columbia em Nova Iorque, com Miles, Coltrane e Evans, todos juntos), para novamente nos finais dos anos 60, inaugurar um novo som, o jazz rock, com In A Silent Way, outro clássico da sua extensa e variada discografia.

Miles Davis

O trompetista foi ainda, um ícone da moda, desde um estilo cool vestindo fatos à Mad Men até às roupas e looks coloridos e psicodélicos da fase ‘jazzrockeira’, a seguir ao lançamento do famoso álbum Bitches Brew. Miles Davis foi tanto capa da Esquire ou GQ, revistas de moda masculina, como da revista de jazz Down Beat.

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Miles Ahead

Em meados dos anos 70, depois de chegar ao ponto mais alto do bebop, e ter aberto os limites do jazz para além da fusão, esse monstro que inventou outros mundos para a música, parou de repente e afastou-se do mundo. As drogas, e as memórias de um amor falhado (Francis Taylor) a lesão na anca, foram talvez os  motivos de um silêncio de anos. No inicio dos anos 80 Miles regressou e renasceu, e é nesse momento que começa o filme de Cheadle, revolvendo para trás momentos bons e maus, da vida do músico. 

Vê trailer de Miles Ahead

No entanto Miles Ahead acaba por no mostrar os anos mais duros de Miles Davies. Tratando-se de uma figura que passou metade da sua vida a aparecer e desaparecer do mundo, é óbvio que a sua biografia cinematográfica está cheia de elipses. Por isso, esta sua ‘cine-biografia’ tem uma narrativa irregular e muito diferente dos biopics mais convencionais como por exemplo Ray (2004), sobre Ray Charles. Cheadle preferiu escolher apenas determinados momentos da vida de Miles, traçando um relato algo improvisado, com imagens granulosas, uma música forte e abundante, num filme não isento de certas limitações, mas sempre muito interesante e arriscado. O filme descreve o caminho para a glória de Miles durante os anos 50, o casamento com Frances Taylor, uma bela bailarina de musicais, que renunciou à sua carreira a pedido de Miles e cuja a foto é capa do álbum Some Day My Prince Will Come, com a qual o músico partilhou uma relação bastante turbulenta, afectada pelas drogas e sucessivas infidelidades. Mais tarde, o filme recorre à retirada temporal de Miles na segunda metade dos anos 70, quando se fechou no seu apartamento de Nova Iorque, muito afectado pelas sequelas da doença degenerativa na anca. O encontro com um jornalista da Rolling Stone que aspira escrever um artigo sobre o seu regresso à música, interpretado por Ewan McGregor, propiciará igualmente uma história de roubo, com perseguições à boa maneira dos filmes da blaxpoitation.

Miles Ahead

Enquanto Miles e o jornalista (mais uma notável interpretação de Ewan McGregor, desta vez numa réplica secundária a Cheadle), tentam fazer uma arriscada e sincera entrevista, são assaltados por um produtor que cansado de esperar pela crise criativa do músico, acaba por lhe roubar uma bobine com gravações, onde parece estarem as suas novas criações. A bobine roubada torna-se no centro de uma história paralela que navega entre realidade, memória, ilusão e sonho do passado. Por alguns momentos, o filme torna-se violento e frenético, com tiros e perseguições de carros. Devido ao carácter impulsivo de Miles e do apatetado repórter interpretado por McGregor, e até chega a ganhar contornos de uma farsa extravagante e anárquica. No entanto, tem um lado intimista e onde está sempre em fundo a melancolia do tema Sketches of Spain, além de um discurso intenso marcado pela provocatória sinceridade, que é aliás uma das grandes marcas do músico: Don’t call it jazz, it’s “social music” 

Miles Ahead

E depois um grande final no genérico, com o próprio Cheadle a tocar trompete em palco acompanhado de um grupo de estrelas do jazz actual: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Esperanza Spalding e Gary Clark Jr., que quiseram participar nesta singela homenagem a Miles Davies. Miles Ahead é um filme errático, algo imprevísivel, muito diferente dos biopic tradicionais, mas é fascinante e quente, como a música de Davis. E depois Don Cheadle ‘reinventou’ a figura de Miles Davis, conseguindo um retrato tão livre como a sua música e por isso Miles Ahead é um filme feito no tom correcto e verossímil quanto baste, mesmo que por detrás da realidade haja alguma ficção.

O MELHOR: a interpretação de Don Chadle e a brilhante reinvenção da figura de Miles Davies;

O PIOR: O tom errante e anárquico adequa-se bem à música e à figura de Miles mas foge demasiado ao biopic convencional.


Título Original: Miles Ahead
Realizador:  Don Cheadle
Elenco: Don Cheadle, Ewan McGregor, Emayatzy Corinealdi 
NOS | Drama | 2016 | 100 min

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JVM

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One thought on “Miles Ahead, em análise

  • Assisti só agora em 02.11.2016 a cinebiografia “Miles Ahead”, que ainda não estreiou no Brasil. Espero que o filme não denigra a trajetória de Miles Davis, pois Creadle preferiu fazer um filme policialesco e não jazzístico. O que aconteceu com Miles Davis, tenho certeza, não teve a intensidade suspensiva que o filme procura caracterizar. EU gostaria de ver o Miles Davis criativo, gênio, e não a construção de um homem derrotado. Acho que a família e o cineasta estavam focando apenas a grana que poderiam ganhar. Poderiam honrar a trajetória de um gênio. Quando li sua autobiografia não enxerguei este homem estupido e derrotado. Um homem assim não teria deixando o legado que está aí disposto para todos. Não teria contribuído para mudança dos rumos da música é para a ascensão de tantos nomes, muitos deles ainda na ativa. Em Momento algum o filme não mostra se é Wayne Shorter ou Herbie Hancock que entram na história. Se Creadle deseja dar uma improvisação ao filme ele não corresponde ao Miles Davis construtivo e a música verberante de um astro de iluminação eterna.

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