"Minari" | © A24

Minari, em análise | Made in USA

Contando a história de uma família coreano-americana, “Minari” é um dos mais belos filmes deste ano e um dos potenciais favoritos na corrida aos Óscares. A atriz Yuh-jung Youn tem sido particularmente celebrada pela sua prestação secundária como uma avó pouco convencional.

Muitos filmes foram já feitos sobre a mentira do sonho americano. Desde tragédias assinadas por George Stevens a comédias desbocadas de Gary Ross, o conceito já foi dissecado por uma infinidade de cineastas. Contudo, a prolífera quantidade de obras sobre esta temática não significa que o poço de inspiração tenha secado. Todos os anos, novos realizadores dos EUA encontram maneiras de confrontar os ideais sonhadores de sua nação, a promessa doirada que acaba por ser um presente envenenado. Lee Isaac Chung é o mais recente artista a tentar fazer isso mesmo. Com “Minari”, ele aborda este conflito ideológico no cerne da identidade nacional da perspetiva de uma família de imigrantes coreanos.

Partindo da memória pessoal e do seu passado familiar, Chung edificou um conto de perseverança, luta e derrota no Arkansas da década de 80. Aí, a família Yi tenta vingar, tenta encontrar fartura e boa fortuna, um futuro risonho para as gerações futuras. Jacob e Monica são pai e mãe, um sonhador e uma realista com pés bem assentes na terra. Qual Moisés a guiar o seu povo para terras desconhecidas, Jacob levou a família da cidade até ao campo, aliciado pela possibilidade de ter uma quinta e ganhar independência, ser patrão ao invés de empregado. Sua esposa não tem as mesmas ilusões que o marido e seu olhar sagaz consegue ver as falhas no plano muito antes da desgraça cair sobre as cabeças da família Yi.

minari critica
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Apesar da complexidade dos pais, “Minari” é uma história contada da perspetiva infantil. Anne e David são os filhos pequenos do casal e são eles, especialmente o menino, que definem a subjetividade do filme. Através dos seus olhos, experienciamos a ruína do matrimónio dos Yi mais velhos, testemunhamos o conflito cultural que se abate sobre aqueles que são demasiado americanos para se identificarem como coreanos e demasiado coreanos para serem aceites enquanto americanos. “Minari” não se interessa muito em explorar o racismo patente nas comunidades do interior dos EUA, mas o desconforto das personagens diz-nos tudo o que precisamos de saber.

A esta situação periclitante, onde o desapontamento e a desilusão reinam mesmo quando a esperança se tenta sobrepor, vem um novo elemento. Soonja é a mãe de Monica e, como os pais têm cada vez menos tempo para cuidar dos filhos, ela vem da Coreia para ajudar os Yi. Só que esta anciã está longe de ser uma avozinha tradicional, pelo menos segundo a opinião de David. Ela diz palavrões e rouba dinheiro à igreja, ri-se sem decoro e não sabe fazer doces para os netos. No entanto, sua presença faz desabrochar novos laços e novas dinâmicas no âmago da família e conjura comédia sentimental para adocicar a receita amarga deste drama.

Não admira que a atriz Yuh-jung Youn ande a conquistar tantos prémios pela sua performance enquanto Soonja. Só em termos de flexibilidade tonal, o seu trabalho merece montanhas de troféus doirados. De facto, podemos dizer o mesmo sobre todo o elenco. No papel de Jacob, por exemplo, Steven Yeun oferece uma subtil impressão de paternalismo em crise, uma pintura triste de um homem que quer o melhor para a sua família ao mesmo tempo que deixa que as suas ambições pessoais suplantem a razão. Os dois atores têm vindo a dar que falar nesta temporada dos prémios e todo o alarido é amplamente justificado.

Yeri Han, como a esposa, é como um balde de água fria que se precipita sobre “Minari”. Seu sofrimento silencioso, sua dúvida, seu ressentimento, funcionam como uma estalada, um grito que nos acorda de um sonho demasiado proveitoso para o nosso bem. Testemunhar as suas discussões com Yeun é sentir o coração quebrar. Como os meninos, Alan S. Kim e Noel Cho são igualmente primorosos, se bem que, como sempre se pensa em relação a atores infantis, é incerto se seus desempenhos são grande trabalho de ator ou fruto do esforço do realizador. Em todo o caso, o resultado é o mesmo e trata-se de algo glorioso.

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“Minari” encanta e assombra, sua beleza sempre entrecortada pela melancolia da memória que dói lembrar. O final é devastador, mas também é belo, um testamento ao virtuosismo dos cineastas, sua mistura de paradigmas emocionais antónimos, de intimidade narrativa e grandiosidade formal. Antes de concluirmos, há ainda que dar particular elogio à banda-sonora. O compositor Emile Mosseri concebeu música que negoceia brilhantemente o familiar e o metafórico, a pequenez do drama doméstico e a envergadura operática dos temas em jogo. O sonho americano é assim homenageado e chorado pelas imagens e sons de “Minari”. A esse ideal são dadas uma renovação linguística e uma refrescante nova identidade. Afinal, o filme mais americano de 2020 é falado em coreano.

Minari, em análise
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Movie title: Minari

Date published: 25 de February de 2021

Director(s): Lee Isaac Chung

Actor(s): Alan S. Kim, Steven Yeun, Yeri Han, Noel Cho, Yuh-jung Youn, Darryl Cox, Esther Moon, Ben Hall, Will Patton

Genre: Drama, 2020, 115 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Maggie Silva - 90
  • José Vieira Mendes - 80
85

CONCLUSÃO:

A história é familiar, mas o modo como é agora contada comove mesmo assim. “Minari” de Lee Isaac Chung é um drama americano que vale a pena ver e ponderar, um poema sobre as memórias de um menino que vê a família ruir e tentar sobreviver ao trauma da ambição e do fracasso. O elenco e a banda-sonora são estrondosos!

O MELHOR: A música de Mosseri, um close-up trágico da avó no rescaldo de um fogo, a dor das discussões parentais, a beleza do cenário bucólico.

O PIOR: Por muito moderna ou subversiva que esta visão do Sonho Americano possa ser, suas conclusões estão longe de ser originais. Além da perspetiva imigrante, “Minari” não tem muito de novo a oferecer. Não quer dizer que seja um mau trabalho de cinema, entenda-se. Afinal, a originalidade não é tudo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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