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MONSTRA ’22 | Flee – A Fuga, em análise

“Flee – A Fuga” estreia nos cinemas comerciais, em Portugal, no próximo dia 7 de abril, com distribuição assegurada pela Films4You. Vimos o filme aquando da sua passagem pela MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa, que acontece em Lisboa até dia 27 de março. 

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Filmado há vários anos, parcialmente recorrendo à técnica de tracing e reconstrução de cenários reais, conjugada com a animação tradicional e digital, “Flee – A Fuga”, é um projeto ambicioso da responsabilidade do realizador dinamarquês Jonas Poher Rasmussen. Esta história, que teve direito a uma sessão especial na MONSTRA, compete nos Óscares de 2022 por três estatuetas distintas – Melhor Filme Internacional, Melhor Filme de Animação e Melhor Documentário. É bem provável que vença no caso desta última. Aliás, a longa-metragem fez história, como o primeiro filme indicado às estatuetas da academia nestas três categorias em simultâneo.

E porque é que “Flee – A Fuga” é um filme tão singular? Porque escolhe a animação para traçar (literalmente e figurativamente) um retrato de cenários que não são recuperáveis. Esta é a história de Amin (pseudónimo), um afegão que chegou à Dinamarca nos anos 80 depois de fugir da guerra que assolava o Afeganistão. Sem a sua família, este jovem viveu durante décadas mantendo em absoluto segredo todos os pormenores acerca da sua vida, da sua família, e da sua jornada até ao Ocidente. Agora, aos 36 anos, e prestes a casar-se com o homem que ama, um dinamarquês, concilia-se finalmente com o seu passado e transmite a sua história. Os nomes e locais são alterados, pois o medo de represálias para a sua família é tristemente avassalador. Assim o garantem as cruéis políticas de imigração europeias, tudo menos humanitárias.

Amin é um académico bem sucedido com uma relação estável, mas esconde um segredo e oculta parte da sua identidade e herança há 20 anos. A animação é o veículo perfeito para a sua história ser contada, com o máximo de autenticidade possível, mas sem revelar demasiado. Por isso, os pormenores acerca da vida do nosso protagonista são pontuais, fugazes, sendo impossível compreender bem como ocupa sequer os seus dias. Todavia, mesmo esses pormenores, aprendemos muito acerca do seu conturbado passado, da sua passagem pela recém-caída União Soviética e acerca da sua fuga do Afeganistão.

O que nos é também dado a conhecer, bem mais importante que dados biográficos, é a sua interioridade. As suas ânsias, traumas, segredos e emoções mais complexas. O nosso “herói” é franco, não fosse aquele que o entrevista um amigo próximo de longa data. Esta cumplicidade entre entrevistador e entrevistado é um dos mais importantes fundamentos deste documentário, que ao recorrer ao formato da animação, não só permite recrear momentos não documentados como dá outra vida, luz e cor aos relatos. O tom documental vê-se frequentemente amaldiçoado por planos rotineiros, movimentos de câmara previsíveis e por registos repetitivos. Não aqui, nunca aqui.

“Flee – a Fuga” é pujante, tais como o são outros documentários animados e políticos que marcaram o século XXI. Sendo este registo pouco comum, é frequente que seja bem poderoso. O documentário animado já nos trouxe várias pérolas. Por exemplo, salta à vista o poderoso “A Imagem que Falta”, nomeado ao Óscar em 2014 na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, pelo Cambodja, nesta história que recupera um dos episódios mais negros da história do país recorrendo a figuras de barro para reconstruir imagens impensáveis e censuradas pela História. “A Valsa com Bashir” é outro documento político que nos vem à mente.

O que tem “Flee – a Fuga” em comum com esta linha narrativa? É também um documento que funciona tanto como reconstrução de uma vida e como testemunho de uma emergência sócio-política. Aliás, o Afeganistão continuou a sofrer invasões e tumultos internos desde então e, perante as escaladas em crises de refugiados, “Flee” tem a capacidade de não perder a sua actualidade ao mesmo tempo que se afirma como uma colecção de memórias de um passado próximo.

Amin, o protagonista, é muito mais do que um símbolo da opressão do povo do Afeganistão, ele é um sujeito captado em toda a sua singularidade, não sendo (apenas) definido nem pelo seu estatuto de refugiado nem pela sua identidade queer, explorada no filme com uma sensibilidade notável. Isto porque crescer no Afeganistão como um jovem homossexual é naturalmente um tabu, hoje e há 30 anos e, por isso, as camadas de secretismo e auto-censura sempre atravessaram a experiência de Amin.

É poderoso observar o momento em que começa a libertar-se de alguns destes condicionamentos, pronto para iniciar uma nova fase da sua vida, junto a uma alma gémea e com menos medo. Mas medo e terror são sentimentos que atravessam também o espectador desta bela obra. Como testemunhas dos horrores por que Amin passou na infância, “Flee – A Fuga” corta-nos a respiração, faz-nos sentir um peso horrível no peito, suscita a lágrima, esmaga-nos de forma inegável, sem qualquer recurso ao melodrama fácil.

Um inegável sucesso, “Flee” não acumulou apenas nomeações aos Óscares, tendo vencido um dos prémios principais no conceituado Festival de Animação Annecy e ainda o Prémio do Júri em Sundance. Consensual e marcante, capaz de nos assombrar como apenas os melhores filmes o fazem, “A Fuga” é também um trabalho minucioso no que toca à animação: a rotoscopia, que envolve desenhar por cima de imagens reais, plano a plano, é utilizada há muito no cinema de animação como técnica capaz de acrescentar realismo. Está presente em “Flee”, como um mecanismo com valor tanto do ponto de vista narrativo como estético.

Como avançado em entrevista ao Indie Wire, a equipa criativa do filme teve de aprender a desenhar o anonimato. Com recurso a imagens reais de Amin e da sua família, os desenhadores Kenneth Ladekjær, Jess Nicholls e Mikkel Sommer tiveram a importante tarefa de manter um equilíbrio entre preservação da privacidade e reconhecimento da verosimilhança entre o desenho e os seus intervenientes reais.

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Isto porque inicialmente a intenção do realizador Jonas Poher Rasmussen passaria por usar a animação apenas para “preencher” os espaços vazios da história. Ou seja, a imagem real seria empregue para representar o presente. Todavia, o desejo de Amin no sentido de se manter anónimo fez com que toda a obra fosse animada. Quiçá esta opção tenha até enriquecido o filme, coeso na sua estética.
Para a equipa, era fulcral preservar a independência da voz de Amin, deixando que esta liderasse a narrativa. Nunca a entrevista parece forçada, manipulada ou controladora. Amin transporta-nos e é senhor da sua palavra e da sua história, que nos engole e faz sentir pequenos e emocionalmente afligidos. Que poderoso objecto de Cinema!

TRAILER | FLEE – A FUGA NOS CINEMAS NACIONAIS A 7 DE ABRIL 

Flee - a Fuga , em análise
Poster Flee - A Fuga na MONSTRA

Movie title: Flee - a Fuga

Movie description: Amin era menor quando chegou à Dinamarca sozinho, vindo do Afeganistão. Hoje, com 36 anos, é um académico de sucesso e está noivo do seu namorado de longa data. Mas esconde um segredo há mais de 20 anos, que começa a ameaçar arruinar a vida que construiu para si. Amin, pela primeira vez, partilha a sua história com um amigo chegado.

Date published: 25 de March de 2022

Country: Dinamarca, França, Suécia, Noruega, EUA, Eslovénia, Estónia, Espanha, Itália, Finlândia

Duration: 83'

Director(s): Jonas Poher Rasmussen

Actor(s): (voz) Rashid Aitouganov

Genre: Animação , Drama , Documentário

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  • Maggie Silva - 90
  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO

“Flee – A Fuga” é um documentário íntimo, poderoso, animado com atenção ao detalhe. Emocionalmente complexo, é também um documento histórico para lá de valoroso.

Pros

  • A imagem do Afeganistão do início dos anos 80 e a alegre apresentação de um Amin antes do trauma;
  • A representação do particular e do colectivo com igual pertinência;
  • O belíssimo final e o breve vislumbre da imagem real e do tracing utilizado;
  • A emotividade contida que dispensa o melodramático para efeitos de comoção fácil;

Cons

  • Nada a apontar…
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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