Moonlight | As razões porque a sua vitória é histórica

Moonlight, um filme sobre três fases na vida de um jovem afro-americano homossexual a crescer nos bairros mais pobres de Miami, ganhou o Óscar de Melhor Filme e, pelo caminho, tornou-se uma das obras mais importantes a alguma vez ter recebido o galardão.

Com o advento da maior bronca na história dos prémios da Academia, já apelidada de envelopegate, dois filmes ficaram destinados a viver na sombra um do outro. Eles são La La Land, vencedor de seis galardões, incluindo melhor Realizador e Atriz, e, é claro, Moonlight, que ganhou três estatuetas, incluindo Melhor Filme. Considerando os detalhes caóticos da falsa vitória de La La Land e subsequente retificação de que foi realmente Moonlight a ganhar a honra de ser consagrado como o Melhor Filme de 2016, há pena e comiseração a serem distribuídos por todos os envolvidos. A equipa de La La Land sofreu a humilhação de devolver os Óscares ao vencedor legítimo, enquanto os criadores de Moonlight tiveram o seu momento ofuscado pelo escândalo. Basta vermos as redes sociais e principais publicações de cinema para nos apercebermos da diferença esmagadora entre o que se fala do envelopegate e o que se fala do filme que efetivamente triunfou no final.

 

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O momento em que se fez História.

 

Esclarecemos já que, apesar do tom do primeiro parágrafo, não estamos aqui para declarar La La Land como um poço de mediocridade cinematográfica a roubar o holofote a uma obra injustiçada. O filme de Damien Chazelle é uma gloriosa celebração de escapismo clássico, uma explosão de colorida nostalgia com rasgos de melancólica maturidade. No entanto, Moonlight é também uma obra fantástica e, enquanto a vitória de La La Land seria apenas mais um grande musical e celebração do cinema a triunfar no Dolby Theatre, a vitória do filme de Barry Jenkins é um marco histórico, um triunfo imenso, que merece ser celebrado como aquele que é, talvez, o mais importante Óscar de Melhor Filme que a Academia já entregou.

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Mas o que é que torna a vitória de Moonlight tão importante? A começar por trivialidades referentes à História da Academia de Hollywood, esta é a produção com o orçamento mais pequeno de sempre a ganhar o Óscar de Melhor Filme. Se ajustarmos a inflação de todos os vencedores, aquele que fica mais próximo de Moonlight é Marty (1955). Mesmo assim, o orçamento de 3,2 milhões de dólares do outro filme é mais do dobro dos 1,5 milhões do vencedor mais recente e, sendo esta a primeira produção da A24, estamos perante uma conflagração de fatores perfeitamente inédita na História de Hollywood. Isto pode parecer uma mera trivialidade, mas, tal como, em 1968, a vitória de No Calor da Noite representou o último prego no caixão do sistema de estúdios da era dourada de Hollywood, o triunfo de Moonlight abre as portas a uma nova era em que filmes independentes com orçamentos relativamente microscópicos não são apenas curiosidades de festivais de cinema, mas sim legítimos candidatos ao maior selo de aprovação do cinema norte-americano.

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Mahershala Ali tornou-se o primeiro ator muçulmano a ganhar um Óscar, por MOONLIGHT.

 

Continuando essa linha de pensamento, Moonlight pode muito bem ser o nomeado para o prémio de Melhor Filme com o orçamento mais baixo de sempre e isso reflete-se na sua abordagem estética. Comparado com o classicismo prestigiado da maior parte dos vencedores deste prémio, o filme de Barry Jenkins é um objeto artístico de estética revolucionária. Já muito se falou de como Jenkins foi buscar algumas das suas mais distintas ideias visuais ao cinema de Wong Kar-Wai, mas, sob a luz destes recentes desenvolvimentos, tal referência deixa de ser um delicioso piscar de olho apenas apanhado por cinéfilos e críticos para passar a ser algo verdadeiramente radical. Voltamos a sublinhar: este tipo de abordagem estética é comum num contexto de festival mas nunca foi visto num filme agraciado com o prémio mais importante de Hollywood.

Isto quererá dizer que, nos próximos anos, vamos ver uma série de sucessos críticos de formalismo severo a ganhar o Óscar de Melhor Filme? Provavelmente não, mas essa ideia já deixou de ser uma impossibilidade absurda. Na mesma medida, a crença de que o prémio de Melhor Realizador está sempre colado ao de Melhor Filme deixou de ser válida, pois Moonlight é o quarto filme em cinco anos a fazer a proeza de ganhar a maior honra da noite sem receber o prémio de realização. Isto já não acontecia com tanta regularidade desde os anos 30 e 40, e, ao contrário desses exemplos passados, agora são os filmes mais pequenos e socialmente importantes a serem recompensados com o prémio principal, enquanto as grandes produções mais vistosas são relegados ao outro galardão.

 

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Tarell Alvin McCraney e Barry Jenkins ganharam o Óscar de Melhor Argumento Adaptado.

 

E é aqui que temos de voltar a falar de La La Land. Nos recantos mais amargos das redes sociais, e não só, já muitas pessoas dizem que Moonlight ganhou somente por razões políticas e que deveria ter sido La La Land a receber o Óscar de Melhor Filme pois, no que diz respeito à comemoração de feitos artísticos, a política não tem lugar. Há tanto errado com essa ideia venenosa que seriam precisas 20 páginas de texto ininterrupto para as explorar por completo. Aqui, restringimo-nos a dizer que, a nível estético, formal, estrutural, narrativo e humano, Moonlight é uma obra discutivelmente superior a La La Land. Mas, não obstante essa apreciação qualitativa, separar a arte da política é uma proposta absurda pois toda arte é política. Mesmo quando vemos uma obra intencionalmente apolítica, essa mesma qualidade e escolha têm uma dimensão política subjacente à recusa da mesma.

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Tendo já esclarecido que não há nada de errado em valorizar um filme pela sua ideologia e dimensão política, há que salientar os grandes marcos de Moonlight. Esta é a primeira narrativa LGBT a vencer o Óscar de Melhor Filme (Midnight Cowboy está bem longe de ser cinema queer); é o primeiro vencedor a ser realizado por um cineasta afro-americano; o primeiro filme vencedor focado em pessoas pretas onde o racismo não é o tema da obra e onde não se fala nunca de servos, escravos ou crimes de ódio; a primeira produção com um elenco composto exclusivamente por atores pretos a ganhar este prémio; entre outros marcos. Para alguém que tenha uma ideia geral das políticas internas de Hollywood, é ainda difícil acreditar que Moonlight ganhou o Óscar de Melhor Filme. Lembrem-se que estamos a falar de uma indústria que, quase todos os anos, vê filmes centrados em afro-americanos na lista das produções mais lucrativas a nível nacional, mas depois tem a ousadia de afirmar que não produz mais obras assim por razões comerciais.

 

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O discurso da vitória no palco do Dolby Theatre.

 

A conjuntura política e social que vivemos atualmente torna este tipo de filme numa obra de particular urgência, mas, independentemente desses fatores, a representação diversificada nunca devia ser algo desprezado. Parafraseando a teórica e crítica Anjelica Jade Bastién, alguém nunca ver imagens parecidas consigo mesmo nos media (incluindo entretenimento e arte) constitui uma forma de subtil agressão. Se acreditarmos em Roger Ebert e pensarmos no cinema como a maior máquina de empatia da cultura moderna, então a falta de representação de minorias no centro de narrativas é uma dolorosa prova de como a nossa sociedade tende a desvalorizar, ou mesmo desumanizar, a experiência e existência dessas pessoas. Acima de tudo o resto, é por isso que Moonlight ter ganho o Óscar é tão importante, urgente, necessário e histórico. E, para quem ainda não consegue acreditar, voltamos a lembrar que Moonlight ganhou mesmo o Óscar de Melhor Filme. Viva!

 

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Não deixes de consultar as nossas análises dos vários filmes indicados e vencedores de óscares na edição deste ano, incluindo Moonlight, La La Land e Manchester by the Sea.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Moonlight | As razões porque a sua vitória é histórica

  • Nossa, parabéns pelo artigo, está sendo de grande valia para o meu trabalho da faculdade. Obrigada!

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