"Willy's Wonderland" | © MOTELX

MOTELX ’21 | Willy’s Wonderland, em análise

Nicolas Cage é a estrela de “Willy’s Wonderland”, um pesadelo de imagética infantil corrompida pela carnificina constante do cinema de terror. Esta obra passou na secção Serviço de Quarto do 15º MOTELX.

Há quem diga que a estrela de cinema é um conceito do passado. Hoje em dia, franchises são o principal ponto de interesse para uma audiência mainstream, enquanto atores tendem a ser respeitados consoante suas capacidades camaleónicas. O intérprete enquanto fenómeno fenomenológico que traz consigo uma carga concetual muito própria é bem capaz de ser um artefacto de outros tempos. Contudo, há certos indivíduos que, no contexto da indústria cinematográfica contemporânea, continuam a perpetuar essa efémera ideia da estrela. Nicolas Cage é um deles.

Nos anos 80, o ator construiu uma carreira à base de personagens idiossincráticas. Quer estivesse numa comédia romântica ou num drama sardónico, havia sempre uma intensidade invulgar na sua presença. Talvez por isso ele tenha atraído a atenção de autores tão díspares quanto Coppola e Lynch. Chegada a década de 90, essa criatura ressalvada da esfera independente ganhou estatuto enquanto promessa doirada, insuflado de prestígio e ambição. Isso culminou com a vitória do Óscar em 1996 pelo “Viver e Morrer em Las Vegas”. Em 2003, seguiu-se mais uma nomeação por “Inadaptado”.

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Só que, entre esses anos de glória e o tempo presente, muito aconteceu. A necessidade do dinheiro e uma atitude meio displicente para com a necessidade de prestígio crítico levaram a uma série de projetos de série B, desde o terror com pouco orçamento ao filme de super-heróis de segunda categoria. Uma constante que se manteve foi a intensidade de Cage, sua capacidade para injetar um tenor de loucura a todo o papel que arriscava fazer. Assim sendo, ele foi ganhando fama como um dos atores mais estranhos de Hollywood. Com a reputação veio o culto.

Ultimamente, este novo estatuto de Cage tem sido foco de um revisionismo crítico muito grande, à medida que a opinião institucional em relação ao ator dá uma cambalhota. Ao invés de ser repudiado pela sua estranheza intrínseca e estilo de atuação enlouquecida, o intérprete é agora celebrado por essas qualidades. De defeitos, passaram a bênçãos e de génio fracassado, Cage tornou-se numa espécie de estrela de cinema para uma era irónica. De novo, autores procuram o ator na esperança de capitalizar na sua peculiar presença.

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Só que Nicolas Cage jamais deixa de dizer que sim a tudo o que lhe aparece à frente. No mesmo ano em que o ator tem recebido críticas fenomenais por “Pig”, Cage apresenta um dos seus piores filmes em “Willy’s Wonderland”. O maior problema neste paradigma de contrastes é que o segundo filme parece ter sido criado especificamente para servir de montra ao ator. Por isso mesmo, o desastre do produto final sabe a ofensa, a um desentendimento essencial acerca do que faz de Nicolas Cage um ator favorito de tantos cinéfilos. Por outras palavras, o realizador Kevin Lewis tentou fazer um veículo de estrela de cinema sem entender o apelo do seu ator principal enquanto ídolo das massas.

Ao invés de explodir em trejeitos maníacos, Cage é aqui posicionado como uma âncora estoica no centro de um turbilhão de insanidades coloridas. Ele nunca fala, nunca mostra mais do que uma expressão facial. Em certa medida, o papel recorda sua tour de force em “Mandy”, mas nunca há um momento de variação tonal. Preso na figura de um homem sem nome, simplesmente conhecido como o contínuo, o ator interpreta uma linha contínua que jamais apresenta gradações de tom, jamais mostra a humanidade por detrás da máscara inexpressiva.

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Lewis parece pensar que só a imagem de Cage associado a alguma violência gratuita é suficiente, não explorando, de todo, as capacidades dele para encontrar nuance no maximalismo performativo. Mas isso não é suficiente. De facto, “Willy’s Wonderland” esmorece a luminosidade ofuscante de Cage, cobrindo o seu carisma com obstáculos de enredo insincero e humor sem piada, uma litania de personagens dispensáveis e imagéticas cansadas, sem graça nem impacto visceral. O pior de tudo é que o conceito básico da coisa é daquelas premissas que devia ser imbatível.

Testemunhar Cage a matar uma série de mascotes robóticas possuídas por espíritos psicopatas devia ser a receita para o sucesso imediato, sem mácula ou chance do fracasso. Contudo, “Willy’s Wonderland” é entediante, despejando toda a carga dramática numa série de personagens adolescentes que não passam de uma coleção de arquétipos vácuos e reciclando ideias sangrentas de outras fitas bem melhores. O texto ainda é pior e os efeitos visuais tresandam a desinteresse. Quando um dos robots não é mais que uma mulher com máscara de borracha, sem sequer um bodysuit para dar a impressão de carne sintética, sabemos que os cineastas se estão a borrifar para o espetador. Até o efeito mais básico é uma desilusão.

Willy's Wonderland, em análise
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Movie title: Willy's Wonderland

Date published: 13 de September de 2021

Director(s): Kevin Lewis

Actor(s): Nicolas Cage, Emily Tosta, Beth Grant, Ric Reitz, Chris Warner, Kai Kadlec, Caylee Cowan, Jonathan Mercedes, Terayle Hill, Christian Del Grosso, David Sheftell, Jiri Stanek

Genre: Ação, Comédia, Terror, 2021, 88 min

  • Cláudio Alves - 35
35

CONCLUSÃO:

Nicolas Cage é um fenómeno do cinema contemporâneo, um poço inesgotável de ambrósia enlouquecedora. Muitos são os realizadores que sabem aproveitar essa intensidade e daí extrair grandes projetos, experiências inesquecíveis para o espetador devoto. O realizador Kevin Lewis não é um desses cineastas. Se possível, ele é a antítese desses cineastas e “Willy’s Wonderland” é um crime contra os fãs de Cage, deixando o ator à deriva num filme que não o merece.

O MELHOR: Mesmo quando está preso num projeto medíocre e um papel ainda pior, Cage continua a projetar magnetismo. Sem ele, não haveria razão para sequer se pensar sobre “Willy’s Wonderland”.

O PIOR: Tudo o que está em cena e não é Nicolas Cage. Achamos especialmente pecaminoso quanto o filme desperdiça a grande atriz secundária Beth Grant, aqui reduzida a uma máquina vomitadora de diálogo expositivo e explicativo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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