"Lesson in Murder" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | Lesson in Murder, em análise

O cinema japonês continua a sua presença assídua no MOTELX, mostrando todos os anos como alguns dos melhores filmes de terror são feitos em terras nipónicas. “Lesson in Murder” de Kazuya Shiraishi é uma de várias obras dessa nacionalidade na secção Serviço de Quarto. Este drama com traços de “Silêncio dos Inocentes” conta com Sadao Abe e Kenshi Okada nos papéis principais.

Tudo começa às margens de um riacho, perto de um dique velho que serve para alagar os arrozais vizinhos. Um homem vestido de preto, calado e sereno, estende a mão para o céu e deixa cair o que parecem ser pétalas. Sendo este um filme japonês, é fácil assumir que são flores de cerejeira espalhadas sobre a água, pontos cor-de-rosa boiando à superfície vítrea. O trabalho de som, uns toques na velocidade da imagem ajudam a vender essa ideia floral. Contudo, um grande plano pontua a sequência com uma nota de incerteza, quiçá de nojo. Não são pétalas esses pontos rosa, mas sim unhas inteiras. Arrancadas à força, algumas ainda estão pintalgadas com sangue.

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Ao longo de “Lesson in Murder,” o realizador Kazuya Shiraishi muito trabalha nesta dimensão do engodo – manipulando o espetador para depois lhe mostrar como cada um vê o que quer e que, só muito raramente, queremos ver a verdade. Já voltaremos às estratégias visuais do cineasta, mas, primeiro, é melhor esclarecer os detalhes bases da narrativa. Adaptado a partir de um romance de Ryû Kushiki, “Lesson in Murder” está sempre a perder-se em flashbacks, memórias e mentiras, teorias materializadas no ecrã e outros devaneios que tais. Contudo, a ação principal centra-se em volta de Masaya Kakei, um jovem que conhecemos no dia em que honra o funeral da avó.

No velório, as tensões são altas, denunciando uma família disfuncional – a mãe é submissa ao ponto da servidão, enquanto o patriarca é um autocrata doméstico que pelo filho só tem desdém. Nesta ânsia pela aprovação paterna que nunca é concedida, Masaya depressa se vai embora. Antes de esquecer a terra natal por completo, regressando ao dia-a-dia numa universidade de segunda categoria, o rapaz descobre uma carta misteriosa. O endereço remete para a prisão local e a assinatura provém de figura sinistra – Yamato Haimura, um serial killer condenado à morte por 24 homicídios, rapto e tortura.

Acontece que, anos antes, Masaya havia conhecido o assassino, tendo frequentado a sua pastelaria. Haimura era cara conhecida da comunidade, um homem agradável e sempre sorridente cuja crueldade todos surpreendeu. Convocado pelo carniceiro sádico, o estudante lá visita a prisão, onde é incumbido com uma missão especial. Apesar de aceitar responsabilidade pela maioria dos homicídios, o homem condenado nega ser autor do último crime. Apelando à sede de valorização, de importância, de propósito, lá Haimura convence Masaya, despoletando uma investigação traiçoeira ao longo da qual muitos segredos serão revelados.

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Muito o drama revolve em torno da manipulação psicológica, afundando-se nas águas turvas de uma mente assassina ao mesmo passo que o protagonista. Se o argumento vacila na sua medida de mistério, compensa o desequilíbrio com um assombroso estudo de personagens cujas conclusões provocam verdadeiros calafrios. Até os mecanismos mais forçados, a coincidência e a convoluta reviravolta, se justificam graças à figura de Haimura. Há nele uma densidade maligna, um oceano de desumanidade mascarado de empatia, tanto que nós mesmos somos iludidos até ao momento em que os seus olhos perdem o brilho e lhe vemos um vazio interior.

A mestria de Shiraisi na cadeira de realizador é inegável, fazendo dos diálogos entre herói e antagonista um espetáculo de reflexos sobrepostos e ligações que rompem com a realidade material. Todo o trabalho de câmara assim é, casando a experiência do espetador à subjetividade de Masaya até que as duas são inseparáveis. Esta elegância formalista também serve como veículo e ocasional esconderijo para o veneno da história, como que uma cobertura de açúcar para arsénico em cápsula. A composição primorosa faz com que a atrocidade seja mais aceite pelo olho, a violência gráfica polida como um diamante. Só que, no mesmo gesto, ela torna-se mais perturbadora para o pensamento. Note-se a obsessão da câmara com mãos e unhas, o modo como uma cremação improvisada tanto transmite luto como asco.

Também ao nível de tom se regista a habilidade de um grande cineasta. Pensamos nos laivos de comédia ou no modo como temas novelísticos se sobrepõem em autênticos palimpsestos. Gradualmente, vamos entendendo o que vai além da narrativa, registando a subversão de preceitos japoneses, desde o apreço dado ao conformismo até uma conceção dos filhos enquanto extensão dos pais, sua propriedade e fonte de prestígio. A certa altura, quando o filme parece cair na telenovela, o preconceito pseudo-eugénico mostra a cara, distorcendo o modo como o indivíduo pensa sobre si mesmo. Desenrolando-se a trama bizantina, o mistério assume a forma de um círculo fechado e os níveis de crueldade em evidência transcendem a imaginação. Para sustentar este estudo sobre o mal humano, não é só necessário um bom realizador.

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O trabalho dos atores é essencial também e, felizmente, o elenco de “Lesson in Murder” é exemplar. Muito elogiamos os atores secundários, alguns dos quais têm que negociar paradigmas arquetípicos com especificidades contraditórias. Dito isso, o filme vive ou morre consoante os seus intérpretes principais. Como Masaya, Kenshi Okada é uma sólida presença, moldável o suficiente para fazer vingar sua insólita evolução. Por outro lado, Sadao Abe é um milagre ímpio no papel do serial killer sorridente, conjugando conceitos antagónicos numa só caracterização. Muito depois de sairmos do cinema, ainda essa criação nos assombra, qual fantasma ou demónio para quem a gentileza é só mais uma componente no jogo do sofrimento alheio.

Lesson in Murder, em análise
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Movie title: Lesson in Murder

Date published: 10 de September de 2022

Director(s): Kazuya Shiraishi

Actor(s): Kenshi Okada, Sadao Abe, Miho Nakayama, Tajuki Suzuki, Takanori Iwata, Eiji Takigawa

Genre: Mistério, 2022, 128 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

“Lesson in Murder” é uma lição em suspense cinematográfico, criando atmosferas insidiosas que forçam o espetador a considerar o potencial para a maldade que vive dentro de cada um. O apelo a lugares-comuns do género e subsequentes indulgências nem sempre resulta, sendo que o argumento fraqueja no enredo. No entanto, as personagens e a realização elevam a obra – especialmente os diálogos na prisão, onde um painel de vidro separa o assassino e o estudante.

O MELHOR: O uso de reflexos na mise-en-scène.

O PIOR: O uso e abuso de coincidências como forma de propulsionar a narrativa e justificar os comportamentos mais inusitados do jovem protagonista.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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