"Silent Night" | © MOTELX

MOTELX’ 22 | Silent Night, em análise

Entre desesperos festivos e boa-educação posta de parte, “Silent Night” de Camille Griffin apresenta um conto de Natal com traços apocalípticos. O filme estreou no Festival de Toronto do ano passado, antes de chegar a cinemas britânicos a tempo das festas. Agora, graças ao MOTELX, este estranho exercício de terror chegou a Portugal, onde integrou a secção Serviço de Quarto do festival. Keira Knightley, Matthew Goode e Roman Griffin Davis, famoso pelo seu trabalho em “Jojo Rabbit,” protagonizam a fita.

Grandes festas de família e amigos, especialmente esses jantares para celebrar o Natal e outros festejos que tais, podem ser aparatos definidos pelo desconforto. A necessidade febril pelo prazer coletivo leva à expetativa que asfixia, ao stress e à ansiedade corrosiva. Não admira que essas situações sejam predispostas a tensões interpessoais e discussões acesas, desentendimentos intervalados por sorrisos forçados e mais um gole para ver se o álcool atenua os nervos. Por isso mesmo, é difícil percecionar se o mal-estar sentido nos primeiros atos de “Silent Night” é mais uma banalidade sem importância ou sinal de algo sinistro.

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A primeira longa-metragem da realizadora Camille Griffin passa-se em terras rurais algures em Inglaterra. Os tempos são festivos e assistimos a como um casal se prepara para receber vários amigos numa casa enorme que, havemos de descobrir, nem sequer lhes pertence. Há algo de estranho no ar, mas é difícil especificar o quê. Nell anda de um lado para o outro como uma barata tonta, enquanto Simon parece meio extasiado. Os miúdos estão em revelia, especialmente Art que vai denotando uma irritação precoce. O maior choque vem com o vomitar de palavrões sem que nenhum dos pais se queixe.

E então começam a chegar os convidados, todos eles vestidos a rigor para o que deveria ser uma festa de amigos. Os homens vestem fato preto com laços ao pescoço e as mulheres parecem prontas a ir a uma gala. Sandra está coberta de lantejoulas dos pés à cabeça, uma visão espampanante que ofusca Tony, seu marido, mas não destoa da filha. Kitty parece uma boneca em pelo e tule, tratando todos em seu redor como uma déspota birrenta. Alex e Bella são um casal meio desconexo – a primeira mulher parece atordoada por traumas silenciosos e a outra é um espetáculo de abrasão social. Restam o bem-parecido James e sua namorada Americana, Sophie, que há pouco descobriu estar grávida.

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Gradualmente, Griffin vai revelando a realidade da situação, culminando num jantar dos diabos em que só há uma batata para cada convidado e conspirarias russas saem da boca da miudagem. Numa versão ecológica do fim dos dias, a Terra manifestou uma nuvem misteriosa que tem vindo a ceifar vidas por todo o planeta. Não há forma de parar a catástrofe e toda a vida tocada pela névoa morre em grande sofrimento. Por isso mesmo, o governo britânico deu um comprimido a todos os seus cidadãos – excluindo imigrantes e sem-abrigos – para que possam ingerir o veneno e morrer sem dor antes que a nuvem chegue.

O apocalipse está previsto para as primeiras horas do dia 26 de Dezembro, daí esta festa fatalista em estilo natalício. Muito se fala sobre esta imparável tragédia, enquanto cada um tenta manter a calma perante o fim de tudo e todos. A premissa é intrigante, sem dúvida, mas algo fraqueja na execução deste drama humano. Os atores bem tentam dar tridimensionalidade às personagens, mas todas elas têm a profundidade de um charco, sabotando os seus intérpretes. Também não ajuda quanto estas figuras caricaturadas são forçadas a comportar-se em modos contraintuitivos para fazer vingar as surpresas da trama. Parece que as pessoas agem consoante os ditames mecânicos do plot twist ao invés de serem pessoas.

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Tudo isto leva a um grande sarilho para Griffin e companhia – “Silent Night” depende dos sentimentos de mágoa gerados pelo seu clímax, mas é difícil preocuparmo-nos com o elenco quando todos eles se afiguram tão falsos. O jogo social de manter a calma perante o horror é interessante, mas demasiado decoroso para realmente servir enquanto estudo de uma sociedade em confronto com o apocalipse. A passividade extrema também parece desonesto quando se afirma tão transversal ao coletivo. Só Art consegue dar algum fôlego humano à fita, fazendo do jovem Roman Griffin Davis na salvação da fita apesar de contracenar com tantos pesos pesados do cinema inglês. Há algo de gozão no modo como o melhor papel de “Silent Night” pertence ao filho da realizadora – mais uma vitória para o nepotismo em Hollywood.

Silent Night, em análise
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Movie title: Silent Night

Date published: 13 de September de 2022

Director(s): Camille Griffin

Actor(s): Keira Knightley, Matthew Goode, Roman Griffin Davis, Annabelle Wallis, Lily-Rose Depp, Sope Dirisu, Kirby Howell-Baptiste, Lucy Punch, Rufus Jones, Davida McKenzie

Genre: Comédia, Drama, Terror, 2021, 92 min

  • Cláudio Alves - 45
45

CONCLUSÃO:

“Silent Night” parte de uma premissa fascinante, mas resvala para o superficialismo sem sentido ou propósito. Uma crítica social sem nada a dizer, este cocktail de géneros antagónicos aponta para o terror existencial, mas não acerta no alvo. É tudo um grande desperdício de bons atores e conceitos promissores. A comédia irrita mais do que diverte e a tragédia soa oca, vazia, sem substância.

O MELHOR: Roman Griffin Davis e a personagem de Art. Dispensávamos o plano final, mas, em muitas cenas, este menino parece ser a única personagem de carne e osso num espetáculo de robots em roupa formal.

O PIOR: A falta de humanidade no argumento, a natureza afetada na direção e as incapacidades do elenco adulto para superarem estes percalços.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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