"Alien On Stage" | © MOTELX

MOTELX ’21 | Alien On Stage, em análise

O clássico “Alien – O 8º Passageiro” é reinventado como um espetáculo de teatro amador em “Alien On Stage”, um dos filmes mais prazerosos e divertidos desta edição do MOTELX. Antes de chegar a Lisboa, este filme passou por vários festivais internacionais, incluindo o Frightfest do Reino Unido e o South by Southwest Film Festival nos EUA.

Ver um filme num festival de cinema é uma experiência especial, influenciada pela comunhão dos fãs, dos cinéfilos, que se juntam para partilhar suas paixões. Neste panorama, filmes que reflitam esse sentimento de amor coletivo, de obsessão cinéfila, podem ganhar um poder que não teriam noutro contexto. Isso é especialmente verdade quando consideramos os méritos artísticos da reconstrução cinematográfica por parte de fãs. Há uns anos, um remake amador e infantil do primeiro “Indiana Jones” deleitou audiências no IndieLisboa, como que cristalizando a missão de fazer e amar cinema a qualquer custo que se reflete no âmago do evento e suas audiências.

No caso do MOTELX, esta dinâmica é ainda mais forte. Dificilmente encontraremos um festival de cinema português que tão bem interseta o mainstream e o arthouse, a cinefilia erudita e o fanatismo daqueles que só seguem terror. Visitar o festival, mesmo nestes tempos de pandemia, é sentir a conflagração de amor pelas carnificinas projetadas no ecrã, é sentir-se contagiado pelo frenesim de emoção, de adoração. Tudo isto para dizer que “Alien On Stage” não podia ter sido exibido em melhor cenário, com melhor audiência, que nesta 15ª edição do MOTELX. Afinal, é um filme para fãs do terror sobre fãs do terror.

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© MOTELX

Mas o que é este “Alien On Stage”? Seguindo os horrores que Ridley Scott consagrou no seu filme de 1979, um grupo de condutores de autocarros decidiu refazer o drama em palco. Aconteceu em 2013, quando tentaram orquestrar um espetáculo amador que copiava cada cena do filme, usando seu engenho e astúcia, orçamento zero e nenhum treino de ator. Os resultados foram risíveis e levaram ao fracasso do espetáculo na pequena localidade Britânica. Contudo, o passa palavra levantou interesse nessa celebração do “Alien” e a trupe conseguiu apresentar o trabalho no West End, em Londres. Trata-se de uma história em que a vitória vem pela derrota.

O filme realizado por Lucy Harvey e Danielle Kummer documenta essa viagem inusitada, esse milagre teatral que descobre a magia no amadorismo. Assim sabemos que a ideia começou como projeto para uma ação de beneficência. Normalmente, os condutores de autocarro, seus supervisores e engenheiros encenam pantomimas natalícias, como o conto de Robin Hood e tantas outras brincadeiras que divertem toda a família, dos mais miúdos aos graúdos. Tudo mudou quando um dos condutores, senhor com aspirações a argumentista de cinema, propôs algo completamente diferente. Passando do conto-de-fadas ao pesadelo do grande ecrã, ele lá convenceu os colegas a encenarem o seu filme preferido.

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Não só o espetáculo foi um projeto da família profissional, como se expandiu à família de sangue. O encenador foi o pai do argumentista, a protagonista sua mãe e os figurinos foram feitos pela namorada. Invenções de cartão e monstros feitos com sacos do lixo, papel e cola e muita convicção. Certamente os desenhos cénicos, por muito rudimentares que sejam, demonstram maior empenho que os atores. Ensaiando nas poucas horas livres, esta tripulação espacial improvisada raramente tem paciência para decorar as falas. A receita afigura desastre e assim acontece, quando só duas dezenas de gatos pingados aparecem na noite de estreia- Como sempre acontece nestes panoramas do teatro amador, são quase só amigos da gente em palco.

No fim, os cineastas não vieram filmar um acontecimento separado da sua arte. De facto, foi a dupla de realizadores que impulsionou o desenvolvimento tardio do projeto, achando – e com razão – que muitos fãs de “Alien” iriam adorar ver este esforço, por muito cómico e inepto que pudesse ser. Apontando a câmara aos condutores feitos atores, deixando-os contar a própria história, Harvey e Kummer constroem uma celebração babada dos seus sujeitos. Há o perigo de cair num registo trocista, mas nunca o filme nos pede para gozar com os atores. Pelo contrário, “Alien On Stage” pretende explodir o entusiasmo destes teatreiros e espalhá-lo para o espetador na sala de cinema.

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O retrato que daqui surge é um testamento à compaixão e à cooperação, ao modo como um sonho de cinema em palco pode nascer de escritórios pequenos e corredores apertados, espaços de ensaio sem condições e horários que não deixam tempo para nenhum refinamento. É um filme sobre entusiasmo, que o documenta e se deixa eletrificar por ele também. Quando a trupe chega a Londres ou quando um senhor mais velho descreve como resolveu os efeitos especiais, é difícil não sorrir. Até é difícil não conter a alegria e aplaudir esta companhia endoidecida. O registo que os cineastas conseguem encontrar é tão casualmente bonacheirão que quase sentimos amizade pelos entrevistados. Mais do que um interrogatório, sua relação com a câmara é uma de amistosa partilha.

Em cinema documental, tais cumplicidades são difíceis de encontrar e, quando ocorrem, são prova meritosa do talento atrás da câmara. É claro que essa tonalidade tem seus limites. A atmosfera benigna tende a ocultar dissecações mais profundas do que é que este projeto significa para os atores amadores e seus técnicos ainda mais inexperientes. Ouvimos sonhos de ingressar no mundo do espetáculo com a mesma regularidade que nos apercebemos quanto ninguém está a levar nada muito a sério. A inanidade da ação pode prejudicar quem busque conflito ou densidade concetual. Contudo, nos tempos que correm, esta homenagem à comunhão do cinema e do teatro, esta carta de amor àqueles que tentam entreter as massas e a si mesmos, não se apercebendo da sua real audácia– tudo isto nos parece vital. Por isso mesmo nos levantamos da cadeira e aplaudimos, o filme, seus atores e realizadores. Para quem desejar rir e sentir novo entusiasmo, “Alien On Stage” é cinema essencial.

Alien On Stage, em análise
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Movie title: Alien On Stage

Date published: 10 de September de 2021

Director(s): Lucy Harvey, Danielle Kummer

Genre: Documentário, 2020, 86 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Sem dramas forçados ou conflito adulterado, “Alien On Stage” é um filme feito para os fãs do “Alien” de Ridley Scott. Sobre teatro e cinema, sua interseção fanática e amadora, o filme torna-se num documento do entusiasmo daqueles que arriscaram tudo para cumprir um sonho doido. A exuberância do projeto compensa seu amadorismo e, no fim, todos merecem uma salva de palmas. Ovações de pé para este “Alien On Stage”!

O MELHOR: A felicidade jubilante que transborda cada composição, cada entrevista e reação das audiências londrinas. Além de tudo isso, o técnico dos efeitos especiais é a estrela secreta do filme. Podíamos ver horas do seu processo criativo, como reproduz os efeitos especiais de “Alien” com fios de lã, molas, e muita imaginação.

O PIOR: Há uma relutância em explorar o que o filme original significa, tanto a nível cultural como individual. Gostaríamos de ter melhor ideia sobre como cada um destes artistas amadores se sente em relação ao clássico de terror e ficção-científica.

CA

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