"A Lenda do Cavaleiro Verde" | © NOS Audiovisuais

MOTELX ’21 | A Lenda do Cavaleiro Verde, em análise

“A Lenda do Cavaleiro Verde”, também chamado “The Green Knight”, foi o filme de abertura do MOTELX 2021. Esta aventura mística de David Lowery adapta um poema Arturiano ao grande ecrã, acabando por originar um dos filmes mais estranhos e hipnóticos deste ano cinematográfico.

“Sir Gawain and the Green Knight” é um poema inglês que terá tido origem no século XIV. Estudiosos da Idade Média e amantes do mito Arturiano tendem a celebrar o texto, tornando-o num dos trabalhos mais famosos da literatura inglesa medieval. É fácil perceber tal popularidade, especialmente quando examinamos as propriedades críticas do verso, o modo como a canção de Gawain e sua odisseia servem como exploração do conceito de honra, um dos valores basilares da cultura cavaleiresca. Nesse sentido, não só temos aqui um exemplo de fantasia lírica, como um objeto de comentário social. A ideia central que muitos encontram no poema é quanto o ideal, o valor, a mera convenção da honra é antitética à natureza humana.

Trata-se, portanto, de uma subversão filosoficamente opaca que requer conhecimentos sobre o contexto histórico para ter efeito enquanto objeto transgressivo. Em termos sumários, a história começa no Natal, quando um ser estranho chega à Corte do Rei Artur. Um hominídeo verde, meio pessoa meio planta, oferece sua magnífica arma a quem quer que participe no seu jogo. Esse Cavaleiro Verde oferece-se para receber o golpe de um cavaleiro. Em troca, o bravo homem ficará com a arma e terá um ano para disfrutar a vitória. No Natal seguinte, terá que viajar até Capela Verde onde o Cavaleiro lhe desferirá o mesmo golpe – uma troca direta.

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Julgando-se mais esperto e valeroso que todos os outros, Gawain, sobrinho do rei e filho da feiticeira Morguse, decapita o monstro. O problema é que o ser não morre. Ao invés, cavalga de novo para seus reinos misteriosos, com a promessa feita que, num ano, será a vez do jovem mortal perder a cabeça. A narrativa dess’“A Lenda do Cavaleiro Verde” foca-se na viagem invernal de Gawain ao encontro do carrasco sobrenatural. Pelo caminho, levantam-se várias tentações, provações à virtuosidade do Cavaleiro da Távola Redonda, sua coragem e, acima de tudo, sua honra. O auxílio de um casal nobre prova ser especialmente tenebroso, pois leva o cavaleiro Arturiano ao limite da vontade. No fim, contudo, lá ele vai receber o golpe – sem saber se morrerá ou não.

O golpe efetivamente se desfere, mas a lâmina não separa cabeça do pescoço. Magias incertas e uma desonrosa traição ao seu bondoso anfitrião salvam a vida de Gawain. Fica a dúvida se a honra se suplanta à vida, se o final é feliz ou vergonhoso, se o protagonista é herói ou patife. Estas questões, muitos simbolismos e jogos numéricos, noções de moralismo face à sedução, não têm resposta certa. O poema, tal como o filme, pretende suscitar o pensamento sem oferecer tese fechada. Por isso mesmo, conceber uma proposta revisionista deste poema não nos parece má ideia. Durante o pós-guerra, muitos cineastas japoneses fizeram semelhante proeza com o filme de época, com a história antiga e literatura passada.

Reconfigurando o jidaigeki, foi possível para o cinema nipónico traçar afiadas considerações sobre a contemporaneidade através do prisma historicista, quiçá até folclórico. Num paradigma mais ocidental, o western tem servido de arma revisionista desde os anos 30. O realizador David Lowery parece seguir o ímpeto desses artistas que vieram antes dele, retorcendo o conto ancestral até lhe dar nova forma, usando o antigo para comentar o moderno. Problemas emergem quando, na transfiguração narrativa, o cineasta aparenta ter perdido o fio à meada, escapando de tal forma ao contexto do poema que o seu significado deixa de existir.

O maior crime do realizador será a intrusão de psicologia contemporânea numa história que necessita de valores antigos para funcionar. Ao invés da aventura picaresca que vai iluminando um questionamento da sociedade medieval, sua cultura, “A Lenda do Cavaleiro Verde” tenta ter a forma de um estudo de personagem muito atual. Gawain, longe de parecer alguém moldado por arcaísmos intrínsecos, tanto à sua mentalidade como ao modo de viver do passado, afigura-se como um homem para quem a honra não é mais que uma abstração distraída. Seus vícios manifestam-se em avareza e covardia, o machismo manipulador de um amante egoísta, a negligência de um filho desrespeitador, um soldado sem vitórias, um súbdito sem respeito.

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No papel do protagonista, o belíssimo Dev Patel parece o anti-herói de algum filme nova-iorquino dos anos 70 – não, de todo, o Gawain do poema. Esta traição textual não significa o desastre da obra, nem necessariamente o seu fracasso enquanto revisão cinematográfica. O problema é que, apesar de alterar temas e caracterizações sem piedade ou disciplina, Lowery mantém o esqueleto do poema. O resultado é um filme onde dois gestos narrativos incompatíveis colidem ferozmente um contra o outro. Ao invés da fricção originar algo produtivo, simplesmente deteriora o corpo do filme, seu coração, e o apego do espetador à história. Não querendo afundarem demasiados spoilers, este conflito jamais é mais óbvio que no final.

Entenda-se algo: Lowery concebeu uma conclusão de inebriante expressividade audiovisual. Rejeitando o diálogo, o realizador fez o seu próprio poema, usando a imagem e a montagem ao invés da palavra como sua matéria-prima. Podemos apontar para esse instante como a maior e melhor divergência do original. Tomando a construção de um epílogo imaginado, um ponto final hipotético, essa sequência delineia os temas que Lowery se dignou a abordar (mais ou menos). Nomeadamente, há uma confusão entre honra de cavaleiro e um sentido mais presente de responsabilidade. Mais do que isso, existe o conflito entre o caminho da Humanidade e o caminho da Natureza e seu reflexo na luta entre a Cristandade nova e o Paganismo primordial.

Assim se levanta a necessidade de se aceitar que o ser humano pertence a um mundo maior que a sua conceção míope e que a morte, longe de ser algo a que fugir, deve ser encarada de frente, sem rodeios ou negações. Só através desse gesto pode a pessoa viver na plenitude. Nos extremos, Lowery e seu herói chegam à epifania que mais vale viver um segundo na plenitude que décadas falsas, anos roubados e esvaziados de valor. Só que, como o arcaísmo central às dúvidas de Gawain foram apagadas do filme, a escolha deixa de ter o peso devido. A glória do final não é assim sustentada pelo que veio antes. Isto frustra, pois é uma sequência mesmo gloriosa, como, na verdade, muito do filme consegue ser.

A atmosfera que Lowery e sua equipa evocam é um milagre inebriante, com sabor a vinho velho e cheiro de musgo húmido. Quando não esmorece as luzes em demasia, o diretor de fotografia Andrew Droz Palermo captura um mundo ancestral, mas já envelhecido, prematuramente degradado. Todo o edifício humano é tão belo quanto sinistro, labirintos secretos, onde engenhos anacrónicos antecipam um futuro longínquo. O design vai pela mesma linha do sonho historicista, usando texturas marcadas, cores reluzentes, para pintar quadros vivos de luxuriante beleza. Quando esperma decora uma faixa de verde bordado, nem sabemos se estamos a ver o píncaro da poesia se a pornografia mais abstrata e imersiva já feita.

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Maquilhagens e efeitos continuam a materialidade peculiar que tanto vinga em “A Lenda do Cavaleiro Verde”. O ser titular é especialmente cativante, sua carne feita de madeira mutada em molde antropomorfizado. Os sons são mais radicais na estilização, usando amorfias eletrónicas e a voz humana para invocar a fantasia ominosa de um cosmos primitivo. A conceção de Camelot fascina em particular. Longe do reino doirado, o reino cinematográfico está velho e cansado, prematuramente putrefacto, como se a vida há muito tivesse sido abafada – uma chama sumida. Só resta uma pluma de fumo cinzento, os cabelos grisalhos de rei e rainha e vozes secas que ecoam como fantasmas pelos corredores despidos.

“A Lenda do Cavaleiro Verde” vale pelo formalismo, pela sensualidade com que apela ao espetador, o feitiço visceral que lhe prega. Só a montagem tende a pecar pela ornamentação exagerada, ritmos estilhaçados até se tornaram caleidoscópio de caos. Mesmo aí, há tanta afinação técnica, que ficamos embasbacados com a execução primorosa da má ideia. Oxalá o argumento fosse tão bom. Certamente é um filme cheio de conceitos, muitos deles subsumidos ao elemento cénico, ao matiz da cor, ao pormenor do penteado, o toque mais singelo. Por isso mesmo, atrevemo-nos a dizer que esta opinião mais ou menos ambivalente poderá ser minoria. É fácil imaginar quem ame “A Lenda do Cavaleiro Verde”. Nós mesmos queremos partilhar esse amor, mas não nos conseguimos render por completo à fita.

A Lenda do Cavaleiro Verde, em análise
lenda do cavaleiro verde critica motelx

Movie title: The Green Knight

Date published: 8 de September de 2021

Director(s): David Lowery

Actor(s): Dev Patel, Alicia Vikander, Joel Edgerton, Sarita Choudhury, Sean Harris, Kate Dickie, Ralph Ineson, Barry Keoghan

Genre: Aventura, Drama, Fantasia, 2021, 130 min

  • Cláudio Alves - 65
65

CONCLUSÃO:

Um conto antigo é projetado pela mente moderna, moldado até atingir forma orgânica que não se adequa ao esqueleto subjacente. Crispações de texto e tema traem “A Lenda do Cavaleiro Verde”, mas David Lowery sabe como suscitar reações viscerais e conjurar uma atmosfera intoxicante.

O MELHOR: Patel é um sublime herói melancólico, um anjo caído coberto por veludo amarelo. A fotografia consegue ser belíssima e os figurinos também. Além disso, a sonoplastia do diálogo assombra e deleita.

O PIOR: A adaptação textual. Isso e a inclusão de intertítulos sobrepostos à imagem. Parece-nos um gesto desnecessário que distrai o olho ao invés de complementar o filme. Além disso, diríamos que Alicia Vikander só se aplica a um dos dois papéis que interpreta em “A Lenda do Cavaleiro Verde”.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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