Durante mais de vinte anos, o nome “Razr” quis dizer uma coisa: uma concha que se abre e fecha, o telemóvel de “flip” mais icónico de sempre. Por isso, ver a Motorola pegar nesse nome e colá-lo a um dobrável em formato de livro — o tipo de aparelho que abre como um pequeno tablet — é, por si só, um acontecimento. O Razr Fold é a primeira incursão da marca no território dominado pelo Samsung Galaxy Z Fold e pelo Google Pixel Fold, e a pergunta que interessa é se, à primeira tentativa, a Motorola consegue jogar ao mesmo nível dos gigantes.
E a verdade é que depois de vários dias com ele, apenas encontrei um problema, mas vamos por partes!
Ficha técnica
- Ecrã interior: 8,1″ LTPO P-OLED, 2K (2232 × 2484), quase quadrado, 120 Hz, HDR10+/Dolby Vision, pico de 6200 nits
- Ecrã exterior: 6,6″ OLED, brilhante e com boa fidelidade de cor
- Processador: Qualcomm Snapdragon 8 Gen 5 · RAM: 16 GB · Armazenamento: até 1 TB
- Câmaras traseiras: triplas de 50 MP (principal com OIS, ultra-angular com macro, teleobjetiva periscópica 3x)
- Câmaras frontais: 32 MP (exterior) + 20 MP (interior)
- Bateria: 6000 mAh · carregamento de 80 W com fios, 50 W sem fios e 5 W reverso
- Construção: 243 g · Gorilla Glass Ceramic 3 (estreia mundial), dobradiça em aço inoxidável, traseira em pele vegan · resistência IP48/IP49
- Extras: caneta Moto Pen Ultra incluída na caixa · colunas simétricas Dolby Atmos afinadas pela Bose
- Software: Android 16, com 7 atualizações de sistema e 7 anos de segurança garantidos
- Preço: lançamento a 1.999 € (já a rondar os ~1.750 €)
Design e construção: premium, mas pesado
Ao pegar-lhe, o Razr Fold transmite qualidade a sério. A Motorola foi buscar a sua assinatura habitual — uma traseira em pele vegan, com acabamento texturado que agarra bem e foge das dedadas — e juntou-lhe a estreia mundial do Gorilla Glass Ceramic 3 à frente, que promete uma resistência a quedas muito superior à da geração anterior. A dobradiça em aço inoxidável e a estrutura interna reforçada fazem dele um dos dobráveis mais bem construídos do segmento.
Há, no entanto, um ponto importante: o peso. Com 243 gramas, é mais pesado do que o Galaxy Z Fold 7 (215 g), e há uma sensação de desequilíbrio entre a parte de cima e a de baixo que pode incomodar quem o segura muito tempo. É também um bocado escorregadio — pousa-o numa superfície ligeiramente inclinada e ele desliza devido ao seu design. Não são defeitos graves, mas num aparelho deste preço, notam-se. A favor, um detalhe que adoro: a caneta Moto Pen Ultra vem incluída na caixa, com sensibilidade à pressão e rejeição de palma — algo que a concorrência costuma cobrar à parte e que aqui torna toda a experiência muito melhor!
Os ecrãs: enormes e lindos (com uma ressalva)
É aqui que o Razr Fold brilha. O ecrã interior de 8,1 polegadas é um painel LTPO 2K quase quadrado, a 120 Hz, com suporte a Dolby Vision e um pico de brilho absurdo de 6200 nits (sim, leram bem) — imersivo para ler, trabalhar em duas apps lado a lado ou ver conteúdo. O ecrã exterior de 6,6 polegadas está fantástico, com um brilho e uma fidelidade de cor que o tornam perfeitamente utilizável com o telemóvel fechado, ao contrário das “janelinhas” de outros dobráveis.
No entanto, há um ponto a assinalar, que é o brilho manual (o que consegues definir tu, sem estar em modo automático ao sol) que fica aquém do esperado em ambos os ecrãs. Em pleno sol, o automático safa-se com os tais milhares de nits, mas quem gosta de controlar o brilho à mão pode achá-lo curto. Esta tendência é cada vez maior nos smarphones de topo e na maioria dos casos não é um problema, mas vale a pena identificar.
Desempenho e software: um dos pontos mais fortes
Com o Snapdragon 8 Gen 5, 16 GB de RAM e até 1 TB de armazenamento, potência é coisa que não falta — corre jogos exigentes e faz multitarefa pesada sem suar. Mas o que mais me agrada é o software. A Motorola mantém uma das camadas Android mais limpas e agradáveis do mercado, longe da confusão de algumas rivais, e enche-a de funções de IA úteis (o moto ai, o “Catch Me Up”, o “Next Move”, além do Gemini e da Perplexity). Junta a isso o compromisso de 7 atualizações de sistema e 7 anos de segurança, e tens um aparelho que se aguenta durante muitos anos — o que ajuda a justificar o investimento.
Câmaras: das melhores num dobrável
A Motorola não foi tímida aqui. São três sensores de 50 MP na traseira — principal com estabilização, ultra-angular com macro e uma teleobjetiva periscópica de 3x —, um conjunto que chegou a ser distinguido como um dos melhores sistemas de câmara em dobráveis pelos testes da DXOMARK. Na prática, as análises destacam a fidelidade de cor da principal e da teleobjetiva como um ponto forte face à concorrência. O senão surge no zoom mais extremo: a qualidade cai mais depressa do que nos rivais que apostam em zooms de 100x. E as câmaras frontais — 32 MP à frente e 20 MP no interior — são apenas competentes, sem entusiasmar.
Bateria, carregamento e áudio
A bateria de 6000 mAh é das maiores do segmento e traduz-se em grande autonomia, sobretudo a ver vídeo no ecrã exterior. O carregamento é um argumento de venda: 80 W com fios que deixam para trás muitos dobráveis rivais, mais 50 W sem fios e até 5 W reverso para carregar acessórios. EStes valores são fantásticos! Fica um reparo curioso dos testes: navegar na web parece gastar bateria mais depressa do que seria de esperar, o que destoa da resistência que mostra noutras tarefas. Isto é algo, acredito, que seja melhorado com atualizações ao longo do tempo.
No áudio, há colunas simétricas com Dolby Atmos afinadas pela Bose, que soam cheias e claras. A experiência é mesmo muito boa. O reparo mais sério nesta secção é o microfone, que fica abaixo do que se espera de um smartphone deste preço — algo a ter em conta para quem faz muitas chamadas ou grava vídeo com frequência.
O preço: o grande senão
E chegamos ao elefante na sala. O Razr Fold chegou a Portugal a 13 de abril por 1.999 €, tendo entretanto descido para a casa dos 1.750 €. É muito dinheiro para a nossa realidade, mas a verdade é que olhando para tudo o que está aqui dentro, e vendo os valores da concorrência, não me choca. Aliás, quanto mais o usava, mas facilmente aceito o preço, apesar de saber que para Portugal, não será fácil este topo de gama ser um grande best seller.
A concorrência
E é aqui que ao Motorola Razr Fold tem de vender, porque o mercado dos dobráveis em livro está fantástico. O rival óbvio é o Samsung Galaxy Z Fold 7, mais fino, mais leve e mais barato, com uma experiência semelhante em quase tudo — perde sobretudo na bateria. Há ainda o Oppo Find N6, o Honor Magic V6 e o Google Pixel Fold a oferecerem experiências igualmente excelentes. Contudo, e apesar de gostar bastante do Samsung e do Pixel, vou aqui ser muito claro: não há um dobrável que seja claramente melhor do que o Razr Fold, mas o Razr Fold também não paira acima dos outros. Estes três, principalmente, são tão bons que a escolha acaba por descer ao gosto pessoal. E aqui, o Motorola tem um ponto a favor: o sei design premium é fantástico. O Razr Fold só precisa de uns segundos à frente dos nossos olhos para mostrar uma elegância invejável. Os outros pontos a favor, como o carregamento e o ecrã são pontos importantes, tal como o excelente desempenho, e perde noutros pontos para os dois concorrentes, sendo talvez a camera o aspeto em que perde de forma mais notória. Mas não é possível olhar para os três e dizer que um é melhor, globalmente, do que os outros, e isso é fantástico para o consumidor.
Veredito: para quem é
O Motorola Razr Fold é uma estreia impressionante, muito melhor do que o esperado. Para um primeiro dobrável em formato livro, a Motorola entregou um aparelho que “tem tudo”: construção premium, ecrãs soberbos, desempenho de sobra, câmaras de topo, bateria enorme e um dos softwares mais limpos e bem suportados do mercado. Como demonstração de que a marca joga na primeira divisão dos dobráveis, é um sucesso incrível e, certamente, estará na lista dos melhores produtos tech deste ano aqui na MagazineHD. E, não esquecer uma coisa: é mais caro, mas traz a caneta.
Recomendo-o a quem quer um dobrável de topo e valoriza a bateria, a caneta incluída, o software limpo e o suporte de longo prazo — sobretudo se conseguir apanhá-lo já com desconto. No fim, o Razr Fold não falha praticamente em nada e sofre do mal dos dobrável topo de de gama: é caro para Portugal. A Motorola está bem lançada para ganhar mercado em Portugal, para que a marca, na cabeça dos consumidores, também tenha o peso suficiente para ser a escolha de muitos. Parabéns à Motoroal, porque à primeira, fez algo incrível.

