Nos subúrbios de Little Rock, em Arkansas, duas raparigas passam a noite à janela, à espera de algo. Quando a câmara se depara com um grupo de rapazes, todos vestidos de preto e mascarados, a avançar sobre uma das suas casas, esperamos o pior. Mas não vem aí nenhuma violência. Somente o arremesso de rolos de papel higiénico sobre telhados e jardins. Acontece que isto é tradição na escola secundária local, com os finalistas a praxarem os seus sucessores em sinal de respeito. Por isso, estas amigas tanto querem ver os seus domicílios vandalizados, para grande consternação das mães. Só que há contrastes entre as duas.
Callie vive num casarão e é logo uma das primeiras a ser “atacada” nessa noite. Minnie, numa parte mais pobre da cidade e muito menos popular que a colega, tem que esperar até de madrugada para ver um rapazote infeliz desperdiçar um par de rolos na árvore em frente à sua casa. O ano é 2002 e o verão vem aí, estação de folias juvenis e também de transições inexoráveis para aqueles nessa idade em que, aos olhos da sociedade, uma pessoa passa de criança a adulto. Para Callie e Minnie, é um período de sonhos e privilégios desiguais, de incompreensões fomentadas entre as duas e de abismos que se abrem no âmago da sua amizade, sem que, no entanto, elas deixem de estar próximas, cheias de amor uma pela outra.
Assim começa “Mouse” de Kelly O’Sullivan e Alex Thompson, a mesma dupla responsável por “Saint Frances” e “Ghostlight”. Tal como esses dois triunfos do cinema independente americano, trata-se de um drama modesto com excelente olho para as nuances de relações interpessoais. São filmes que se sentem vividos, frutos de observação minuciosa, dramatizados com naturalismo absoluto e com uma forma que, apesar de não ser vistosa, transparece elegância audiovisual. Não admira que o seu trabalho mais recente tenha sido tão bem-recebido na Berlinale, onde celebrou a sua estreia mundial. Agora chega ao Queer Porto e integra a secção competitiva.
Durante os primeiros vinte minutos da fita, “Mouse” demonstra essa habilidade dos realizadores, insinuando as muitas dimensões desta amizade através de engenhos simples, principalmente o trabalho de ator e uma fotografia a puxar pela qualidade háptica das imagens. Chloe Coleman ilumina o ecrã com o carisma de Callie, convencendo-nos do magnetismo da rapariga e quanto ela ama a amiga sem, no entanto, entender o que vai na cabeça de Minnie. A câmara é mais atenta do que a moça e está sempre lá para documentar todos os desapontamentos da outra jovem, interpretada por Katherine Mallen Kupferer.
Não há uma forma “correta” de fazer o luto ou lidar com a perda.

Nas suas mãos, Minnie está sempre a engolir sapos, a esboçar uma expressão neutra que não consegue esconder quão dolorosa a exclusão social pode ser, especialmente quando se vive na sombra de uma estrela tão luminosa quanto Callie. Mas esses são os primeiros vinte minutos. Tudo muda quando a miúda mais popular, essa maravilha destinada a um futuro risonho, morre num acidente de carro, sem que ninguém sequer se lembre de avisar a melhor amiga. No funeral, os miúdos populares apresentam um vídeo que a excisa, deixando apenas a marca dos ombros ou perfis cortados na margem do enquadramento.
É um desrespeito abominável, e só uma pessoa, além de Minnie, parece perceber o que ocorreu – Helen, a mãe da defunta. O olhar que Sophie Okonedo lança a Kupferer é daquelas coisas que não se esquecem, tão recheado de significados implícitos. Há um tsunami de expectativa naqueles olhos marejados, uma dor indescritível, a necessidade de partilhar a perda com alguém que talvez entenda o vazio deixado num mundo sem Callie. Três meses depois, o mundo ainda parece congelado no rescaldo daquela morte, sem que Minnie ou Helen consigam se desapegar de um luto que se prolonga e as consome a ambas. A mãe ainda aparece em reuniões de pais, assombrando a escola como um espectro teimoso.
Pelo menos, a rapariga mais nova, já a começar o último ano do ensino secundário, parece fazer um esforço no sentido de se manter funcional. Há uma certa raiva nas bordas da dor, especialmente quando sua relação com Callie é menosprezada pelos colegas, incluindo as raparigas populares que querem fazer um cabaret musical em honra da defunta. Também há a possibilidade do primeiro amor no horizonte, depois de uma terrível interação entre Minnie e a operadora de caixa na Blockbuster, que a vai multar pelo atraso na devolução das videocassetes. Callie nunca terá a oportunidade de crescer e se descobrir, mas quem sobrevive, quem fica para trás, tem que encarar o futuro. E o futuro implica a mudança.
O oposto disso é a estagnação em que Helen se deixa afundar e para a qual começa a levar Minnie. Porque, na ausência da filha, esta senhora que já não pode ter mais progenia, que não tem emprego para lhe ocupar os dias, fixa-se naquela rapariga que, emocionalmente, era como a irmã de Callie. Pelo menos, é isso que uma espírita lhe diz em sessão gravada que a senhora insiste em partilhar com os adolescentes que se dizem amigos da rapariga que já cá não está. Ela até oferece o carro do acidente – já arranjado, é evidente – à Minnie, demonstrando a estranha perversão dos papéis. Talvez seja como se estivesse a adotar a miúda, roubando-a à verdadeira mãe, Barbara, que tudo testemunha com a sobrancelha franzida, quiçá com alguma suspeita.
Para quem ama a arte de atuar, este é um filme essencial.

Será que Barbara vê mais do que ambas as protagonistas? Será que entende o estranho luto que as une melhor do que elas próprias? Tara Mallen nunca rouba o holofote neste papel secundário, mas enriquece o texto com a intimação de verdades duras que ficam por dizer, inarticuladas, mas sempre subentendidas. Também há a dor de se ver substituída por uma mulher que a filha provavelmente preferia ter como mãe, ora por razões socioeconómicas, ora porque, aos olhos de Helen, Minnie é equivalente a Callie. Provavelmente mais ninguém no mundo acha isso. Mas há excessos e há limites. Ver estas personagens, inclusive a Barbara, transgredi-los é de partir o coração.
No caso de Minnie, a descoberta da sexualidade é complicada por estas projeções de um fantasma sobre a sua pessoa, quer sejam feitas por Helen ou por outros. De repente, o namorado da amiga perdida parece demonstrar interesse por ela, por exemplo. É confuso e é difícil discernir se o desejo por ele é genuíno e recíproco, o mesmo que ela sente pela rapariga do Blockbuster, ou mais uma obscena justaposição entre os vivos e os mortos. No caso de Helen, qualquer distanciamento por parte de Minnie parece uma rejeição vinda da própria filha. Até quando são rejeições imaginadas, desprezos de jovens que não sabem esconder o quão estranha lhes parece a ideia de sacrificar a carreira de pianista profissional para ser dona de casa e mãe a tempo inteiro.
Não há regras ou formas corretas de fazer o luto de quem mais amamos, tal como não há instruções sobre como se torna adulto e como viver. Cada um cresce à sua maneira. Cada um chora do seu jeito. Cada um se descobre por suas próprias vias e soluções e caminhos incertos. De vez em quando, todos estes processos são algo que se estende pela vida inteira, tal como aquela busca que tantos de nós fazemos pela resposta à impossível questão do nosso propósito ou à razão dos desejos que dentro de nós nascem, florescem, ardem fogosos. Ver “Mouse” no contexto de um festival de cinema queer sublinha estas qualidades e a necessidade de aceitar o desamparo universal.
Muito ajuda que a fita é de uma imensa generosidade humanista, mesmo que, ocasionalmente, possa ser um pouco unidimensional, porventura cliché, na caricatura do ecossistema social de uma escola secundária americana. Já elogiei Mallen em força, mas tenho que redobrar os aplausos a Okonedo e Kupferer, ambas geniais de formas distintas. Se a atriz mais experiente retrata a implosão da mãe perdida num mundo sem seus filhos, recorrendo sempre ao grande plano para jorrar emoção e ao corpo expressivo de uma veterana do teatro, a intérprete jovem é um diamante em bruto. Não está tão polida, mas isso adequa-se à caracterização, cada vez mais transparente e aberta à medida que o drama avança e esta gente finalmente confronta o que tem ficado por dizer, por confrontar, por aceitar e, quiçá um dia, superar.
Mouse
Conclusão:
- O cinema de Kelly O’Sullivan e Alex Thompson não é arrojado nem inovador. Está muito bem inserido nos paradigmas do drama independente norte-americano, com todos os preceitos do naturalismo na atuação e em idiomas audiovisuais modestos. A história é subalterna ao estudo da personagem e o princípio humanista fica acima de tudo o mais. É um cinema que vê no comportamento humano o suprassumo sujeito cinematográfico. Com outros realizadores, esta falta de ambição plástica poderia ser um problema, mas esta parelha sabe o que está a fazer e como tirar o máximo proveito do modelo de produção a que se têm dedicado.
- “Mouse” junta-se a “Saint Frances” e “Ghostlight” como um astuto trabalho de observação, aqui fitando, quase em jeito de memória, o dilema de duas mulheres unidas pelo luto da mesma jovem. Porventura, chamar-lhes a ambas mulheres é erróneo, pois Minnie ainda é só uma rapariga adolescente, naqueles anos de transição da meninice para a idade adulta. Sua melhor amiga era a filha de Helen cujo luto passa pelo apagamento do seu ser e a imposição de um fantasma sobre a rapariga que ainda tem ao seu alcance. A dinâmica é um tanto ou quanto perversa, mas não há malvadezes aqui metidas, apenas o desamparo da perda.
- Testemunhar Minnie crescer e Helen entender o seu novo lugar no mundo como uma mulher a quem o futuro como mãe foi roubado, é extraordinário. Em parte, porque O’Sullivan e Thompson são bons escritores e ainda melhores em direção de atores. Nos papéis principais, Sophie Okonedo e Katherine Mallen Kupferer são sublimes, não que qualquer membro do elenco alguma vez erre na abordagem. Este é um grupo de atores bem merecedor de uma salva de palmas, com ovação de pé. Especialmente para Chloe Coleman e Tara Mallen, que têm que fazer tanto com tão pouca ênfase na estrutura do argumento.
- Algumas questões ficam meio inexploradas, contudo. Noções de como a hierarquia financeira pode infiltrar-se no modo como nos relacionamos uns com os outros é bem estudado em “Mouse,” mas há realidades e vicissitudes sugeridas pelo texto das quais os autores parecem desviar-se. A componente racial, com Helen a única pessoa preta numa comunidade uniformemente branca, nunca é bem analisada, empobrecendo um filme que, de resto, está sempre pronto a pôr o dedo na ferida e a investigar o isolamento das personagens no seu luto, no seu solipsismo, na prisão do “eu” – quem queremos ser e quem realmente somos.



