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Mr. Nobody Contra Putin, a Crítica

Estreou esta quinta-feira 5 de março nas salas de cinema nacionais o documentário “Mr. Nobody Contra Putin” (2025, David Borenstein, Pavel Talankin), com distribuição da Risi Film.

Nomeado ao Óscar de Melhor Documentário e já vencedor do BAFTA na mesma categoria, é um filme com um olhar pessoal e íntimo sobre a doutrinação do regime de Putin nas escolas russas e o impacto que a Guerra na Ucrânia tem nesta sociedade.

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Qual a narrativa de Mr. Nobody Contra Putin?

“Mr. Nobody Contra Putin” é um filme corajoso realizado em coautoria entre um professor russo e um realizador de cinema americano radicado na Dinamarca. No centro deste documentário está o professor Pavel “Pasha” Talankin que trabalha numa escola em Karabash – a sua cidade-natal – enquanto coordenador de eventos. Se, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, o seu trabalho era ‘leve’, tudo muda em fevereiro de 2022.

A partir desta data, Pavel tem de filmar com um olhar próximo a forma como a “educação patriótica” está a ser ensinada. Pavel, no entanto, anti-Guerra e anti-Putin, utiliza a sua ‘arma’ (ou seja, a câmara de filmar) para nos mostrar de que forma as escolas estão a mudar desde a Guerra na Ucrânia.

O cinema como ‘arma’

Mr. Nobody Contra Putin - melhor documentário nos BAFTA
© Risi Film

Estamos apenas no início de março. Contudo, já é para mim impossível não pensar neste ano de 2026 como o ano dos grandes documentários no cinema. E dos documentários que pretendem documentar no que o mundo se está a tornar, assumindo-se como armas de resistência. Se em janeiro estreou “Orwell: 2+2=5” (2025, Raoul Peck), em março estreiam “Riefenstahl” (2025, Andres Veiel) – a 19 de março – e este “Mr. Nobody Contra Putin”. O cinema documental está vivo e pretende falar!

Devo mesmo dizer que só com “Orwell: 2+2=5” e este filme que agora se estreia temos já dois filmes que certamente estarão na lista dos melhores de 2026 em Portugal. Atrevo-me ainda a acrescentar que, de todos os novos filmes que já vi em 2026 – e já vi alguns -, a ficção anda mesmo muito ‘frouxa’. Ainda não houve nenhum filme de ficção este ano que me tenha entusiasmado tanto quanto estes dois documentários.

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Neste caso, “Mr. Nobody Contra Putin” é um filme duro e preciso. E digo preciso nos dois sentidos da palavra, ou seja, direto ao assunto e necessário. A estreia portuguesa surge, além disso, poucos dias após estalar um conflito maior no Médio Oriente. Para que servem as guerras, questionamos…?

Entre “Orwell: 2+2=5” e “Mr. Nobody Contra Putin” há paralelos impressionantes e outras diferenças. Enquanto o primeiro mistura arquivos do século XX com imagens contemporâneas, o segundo traz (quase) apenas imagens contemporâneas. No entanto, são ambos documentários essenciais e urgentes para pensar o mundo de 2026. E, nesse sentido, tanto Raoul Peck como Pavel Talankin fizeram da sua câmara – Pavel de forma mais literal – uma arma para mostrar ao mundo de que forma o autoritarismo ‘funciona’.

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Amo o meu país, mas não consigo compactuar com isto

Mr. Nobody Contra Putin
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Não, Pavel Talankin não diz esta frase que dei como subtítulo a esta parte do texto. No entanto, podia muito bem tê-lo feito pois é esse o seu sentimento ao longo dos dois anos em que filma. “Mr. Nobody Contra Putin” é um filme que começa logo ‘condenado’ para Pavel Talankin. A partir do momento em que ele decide filmar a transformação das escolas russas através de uma doutrinação que apaga por completo o currículo ‘normal’ das aulas, ele sabe que assinou a sua sentença. Talvez mesmo por essa razão o filme começa logo nessa sentença mostrando um pouco da última noite do nosso protagonista em Karabash.

Após estas imagens, voltamos dois anos e meio atrás no tempo. Enquanto coordenador de eventos e videógrafo da Escola Primária de Karabash, Pavel Talankin filma um pouco do dia-a-dia e dos eventos da escola juntamente com alguns alunos. Nesse aspeto, estes primeiros minutos após o genérico são ‘felizes’ para o realizador-protagonista que ama a sua cidade, apesar de bastante poluída, e aquela escola onde também estudou. Pavel mostra-nos ainda a sua mãe que trabalha como bibliotecária da escola. No entanto, tudo muda em fevereiro de 2022. E aí entram os notícias da “operação militar especial” da Rússia na Ucrânia.

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A educação patriótica

Lentamente, as coisas começam a mudar. O primeiro indício são as imagens desta “operação militar especial” na televisão da escola. Mas isto era apenas o início. Entretanto, é introduzida uma nova política para uma “educação patriótica”. Nestas primeiras imagens, vemos a construção que a própria escola está a sofrer onde até os professores se perdem nos guiões que têm de ler. Tudo é encenado. Tudo se torna uma propaganda de reeducação.

De repente, não interessa que os alunos aprendam matemática, ciências ou História. Interessa sim que eles aprovem o comportamento de Putin e que sejam influenciados para que um dia lutem ao lado do país para a ‘desnazificação’ da Ucrânia e que culpem toda a União Europeia pela Guerra. O próprio documentário intervém, portanto, nesta realidade para construir uma ideia para o regime. Inicialmente, Pavel Talankin filma estas sessões de forma desinteressada e a sentir que está só a compactuar com o regime de Putin, enviando estas provas.

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Dessa forma, ele decide pedir a demissão. Contudo, ao responder a um anúncio online sobre como o seu trabalho estava a ser afetado pela “operação militar especial” e a receber uma resposta de um realizador de cinema, retira a demissão e começa a trabalhar de outra forma. Pavel Talankin sabe que acabou de assinar a sua sentença mas acredita que é um mal necessário para mostrar ao mundo no que a sua bela Rússia se está a transformar. Enquanto videógrafo da escola, tem o disfarce perfeito pois não vai dar nas vistas…

O início do fim para Pavel Talankin em Mr. Nobody Contra Putin

Mr. Nobody Contra Putin
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A lenta transformação da escola de Karabash num campo de reeducação em “Mr. Nobody Contra Putin” vai sendo cada vez mais constrangedora tanto para Pavel Talankin como para nós espectadores. Se, no início, eram ‘simples’ marchas e cantigas, cada vez vão sendo mais guiões pré-fabricados e até ensinam as crianças e jovens a usar armas. Onde está o verdadeiro ensino? A inocência das crianças é usada como forma de moldar a sua consciência à maneira do regime de Putin. Os seus cérebros são como esponjas e assimilam aquilo tudo para que não haja ninguém que “traia” o regime. E, para nada falhar, Putin até cria uma organização juvenil de cariz nacionalista: o Movimento dos Primeiros. Tudo parece um jogo para estas crianças mas, na verdade, é bem real…

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Pavel Talankin torna este filme também cada vez mais pessoal para ele. Ele sabe que, agora, tem o dever de mostrar ao mundo o horror que ali se está a passar. Ele adora a Rússia mas odeia esta “educação patriótica”. Assim, em casa, fala diretamente para a câmara (ou seja, para nós) e reflete sobre os seus sentimentos e a forma como a propaganda lhe afeta.

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A guerra e a morte

No entanto, para lá desta reeducação das crianças e jovens, há um problema maior e que é o motor de tudo isto: a Guerra na Ucrânia. Com alunos prestes a serem chamados para o serviço militar e alunas com irmãos na Guerra, tudo é muito ‘direto’ para Pavel Talankin. Todos os pequenos os pequenos atos são sagrados e até o simples gesto de rapar o cabelo dos rapazes é doloroso. E com esta Guerra vem, claro, a morte. A partir do momento que Masha fala do seu irmão na Guerra, ficamos constantemente do lado dela. Sofremos com ela. E já sabemos que, infelizmente, o desfecho da morte do seu irmão era cada vez mais provável… E com o irmão de Masha vão morrer outras centenas de jovens. Pavel Talankin foca-se, claro, nos seus antigos alunos. Tudo é pesado para ele e também nos pesa para nós espectadores.

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A gravação sonora que ele faz de um funeral de um amigo seu é devastadora. E o pior é que o regime mascara estas mortes como algo bom para a pátria.

O desfecho de Mr. Nobody Contra Putin

Mr. Nobody Contra Putin
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À medida que Pavel Talankin se sente cada vez mais preso e a escola se torna cada vez mais militarizada, ele sabe que já não está seguro ali. Com a polícia à sua porta, ele deixou de ser um zé-ninguém, o “Mr. Nobody”. Agora, ele é um traidor da pátria.

A cerimónia de formatura é, assim, a última ação de Pavel Talankin em Karabash. Ele sabe que vai embora. Os seus alunos também se despedem dele mas sem imaginar que ele iria desertar da Rússia. Um último ato de felicidade.

Em suma, “Mr. Nobody Contra Putin” é um documentário que é filmado de forma ‘caseira’, sem grande preocupação por fazer planos bonitos. No entanto, o que é que é bonito nesta Rússia? O importante neste filme é o próprio olhar íntimo e pessoal de Pavel Talankin. E isso ele conseguiu. É um olhar subjetivo sobre Karabash e sobre a realidade russa. É o seu diário que pega numa construção para nos dar a sua preocupação. Sim, é impossível reproduzir a realidade num documentário. Todo o cinema é um ato de construção, de escolha de um olhar. Não conseguimos saber o que é efetivamente toda a realidade de Karabash e da Rússia mas estamos bem perto disso.

É devastador ver como tudo se está a tornar ‘natural’ e comum pela reeducação escolar. Se Putin é, a título singular, o principal culpado da Guerra, está a criar discípulos para ter a certeza que mais se seguirão. Já são 4 anos de Guerra e o que este filme nos mostra é que não será assim tão fácil chegar a um fim. Já estivemos mais longe de uma III Guerra Mundial…

Algumas notas dos realizadores

Numa nota sobre o filme, o realizador David Borenstein é claro sobre este projeto e a forma como a construção que vemos à frente dos nossos olhos foi, de facto, a forma como tudo ia acontecendo em ‘direto’: “Um colega russo apresentou-me ao Pavel ‘Pasha’ Talankin, um professor da pequena cidade de Karabash, na Rússia. Ele (…) era ousado e apaixonado, com muito a dizer sobre a situação atual da Rússia, em particular sobre a militarização do sistema escolar promovida por Putin. Semanas depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, eu e o Pasha estabelecemos uma linha de comunicação encriptada e uma forma segura de transferir ficheiros de vídeo. Os nossos papéis criativos desenvolveram-se de forma natural: o Pasha filmava tudo (…) enquanto eu editava o material numa narrativa moldada pela sua visão e experiência.

Borenstein conclui ainda: “O Pasha, enquanto denunciante, está a mostrar-nos algo verdadeiramente importante. Está a dar-nos uma visão interna sem precedentes da militarização em larga escala da Rússia desde 2022.”

Para Pavel Talankin, “Mr. Nobody Contra Putin” “É sobre propaganda, espalhada pelas escolas, pelas cidades, pelo país inteiro. É sobre como as pessoas [aceitam] o absurdo como verdade.” O realizador-protagonista continuou: “Uma noite, depois de filmar outra aula de propaganda para o Ministério da Educação, perguntei a mim mesmo: ‘Tenho o direito moral de apagar estas imagens?’ E decidi que não. Esta ditadura, com todas as suas mentiras e absurdos, não vai durar para sempre. Um dia, as pessoas precisarão de saber como tudo aconteceu.”

Mr. Nobody Contra Putin

Conclusão

  • “Mr. Nobody Contra Putin” é um documentário corajoso e íntimo de um professor russo sobre os seus sentimentos perante o regime de Putin e que demonstra como a sua escola se está a transformar num autêntico campo de doutrinação para a Guerra.
  • É um olhar pessoal mas que nos dá uma perspetiva alargada do contexto atual da Rússia.
  • Não sendo um filme feito com toda a qualidade técnica, isso compreende-se pelo risco que foi filmar este documentário.
  • Um filme contemporâneo que ficará para o futuro como um marco de análise próxima da Guerra da Ucrânia e do regime doutrinário de Putin.
Overall
8.5/10
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