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De Supergirl a Captain Marvel | A História de super-heroínas no cinema

Depois do triunfo de “Mulher Maravilha” e com a recente estreia de “Captain Marvel”, vale a pena explorar a história do cinema de super-heróis protagonizado por personagens femininas.

wonder woman 1984 gal gadot
Mal podemos esperar por “Wonder Woman 1984”

“Captain Marvel” é famosamente o primeiro filme do Marvel Cinematic Universe a ser protagonizado por uma mulher, vindo depois da DC já ter alcançado sucesso com semelhante modelo narrativo com o projeto que tornou Gal Gadot numa estrela. Convém, contudo, dizer que, apesar de todo o furor mediático em volta da estreia de “Mulher Maravilha“, o filme de Patty Jenkins não se trata da primeira história de super-heróis do grande ecrã com uma protagonista feminina. Nem se trata sequer do primeiro destes projetos a ser assinado por uma mulher na cadeira de realização, mas é talvez a única destas obras que pode ser justamente caracterizada como um grande filme.

Com isso dito, é notório quão poucos filmes deste tipo existem, especialmente se considerarmos como a própria figura da “Mulher Maravilha”, criada na Idade de Ouro da banda-desenhada americana e uma das personagens mais populares da DC Comics, demorou até 2017 para ter um filme só para si. Até quando uma personagem já provou ser um sucesso com a crítica e o público, como é o caso da Viúva Negra de Scarlett Johansson nos filmes do MCU, os grandes estúdios têm-se mantido firmes na sua recusa de mulheres no protagonismo de grandes blockbusters sobre justiceiros superpoderosos.

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No caso de Johansson a situação é ainda mais absurda pois, descontando os lucros dos filmes da Marvel, a atriz é o elemento mais lucrativo e comercialmente viável no elenco dos Avengers. Com todos estes factos em conta, é impossível negar como o sexismo institucional e cultural são os grandes culpados para esta razia de super-heroínas a encabeçarem aventuras no grande ecrã. Afinal, nem sequer podemos apontar para conservadorismo financeiro pela parte dos estúdios pois os desastres críticos e populares de obras como os dois filmes centrados no Incrível Hulk, todas as incursões cinematográficas do Quarteto Fantástico ou alguns dos títulos dos X-Men impediram esses mesmos estúdios de continuarem a apostar milhões em projetos semelhantes ou sequelas.

Enfim, talvez o sucesso estrondo de “Mulher Maravilha”, de um ponto de vista crítico, qualitativo, cultural, popular e comercial venha a mudar este panorama deprimente. De qualquer modo, em honra desta grande feito do cinema blockbuster de super-heróis, a Magazine.HD decidiu relembrar os antecessores do filme no que diz respeito a filmes protagonizados por heroínas, ou anti-heroínas, superpoderosas que originalmente foram criadas para as páginas de livros de banda-desenhada.

Segue as setas para descobrir estes filmes sobre mulheres super-poderosas.




SUPERGIRL (1984) de Jeannot Szwarc

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Super Girl

Depois do estrondoso sucesso de “Super-Homem” em 1978 e o triunfo comercial da sua sequela filmada ao mesmo tempo que o filme original, o produtor Ilya Salkind fez o que aparentemente todos os grandes senhores dos estúdios de Hollywood têm feito desde tempos ancestrais: decidiu repetir a mesma fórmula ad nauseum sem qualquer consideração dada a assuntos criativos ou artísticos.

O resultado imediato disto foi “Super-Homem III” que foi uma relativa desilusão de bilheteiras ao que se seguiu o projeto de que estamos aqui a falar, “Supergirl, estreado em 1984. Mais do que qualquer outro filme nesta lista, este projeto é um poço de incompetência e mediocridade tão desesperantes que, mais do que ser uma catástrofe tão má que é divertida, o filme é simplesmente aborrecido e incoerente.

Houve uma série de fatores que contribuíram para isto, inclusive a saída de Christopher Reeves do projeto depois do argumento ter sido completado, mas o resultado final é tão mau que não há desculpas no mundo capazes de atenuar a sua podridão cinematográfica. Pior ainda é o sexismo virulento que infeta toda a narrativa, onde o conflito principal parece ser a luta entre a protagonista e a vilã pela atenção amorosa de um jardineiro insuspeito.




TANK GIRL (1995) de Rachel Talalay

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Tirando o filme de Patty Jenkins e “Captain Marvel”, “Tank Girl é, sem sombra de dúvida, o melhor filme nesta triste seleção de fracassos cinematográficos. Talvez por coincidência é também o único outro filme a ser realizado por uma mulher nesta lista e a ingenuidade criativa de Rachael Talalay é uma das grandes mais-valias do projeto, cuja mistura de visuais insanos, escolhas musicais bizarras e passagens de animação avivam uma narrativa muito problemática.

Baseado na série de banda-desenhada britânica de Alan Martin e Jamie Hewlett, esta é a história pós-apocalíptica da personagem titular e sua luta contra uma rede de tráfico humano e prostituição infantil. As escolhas estilísticas do filme, apesar de serem uma apta tradução da banda-desenhada em que se baseia, foram muito criticadas aquando da sua estreia em 1995.

Mas, na verdade, o grande problema do filme é uma questão de modulação tonal e desenvolvimento de personagem. Mais especificamente, “Tank Girl” é uma protagonista de tal modo invulnerável e unidimensional que se torna alienante e a sua trajetória heroica deixa assim de ser uma narrativa minimamente gratificante para a audiência.




BARB WIRE: BELA E PERIGOSA (1996) de David Hogan

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Barb Wire” é adaptado de uma popular série da Dark Horse Comics, mas é também o filme mais misógino e idiótico desta lista. Protagonizado por Pamela Anderson, num desempenho tão incompetente que um manequim inanimado poderia ter feito um melhor trabalho, e filmado por David Hogan, esta é a uma aventura que vai buscar a maior parte dos seus pontos narrativos ao clássico cinematográfico “Casablanca” mas apresenta-os num contexto meio pós-apocalíptico e com os géneros dos protagonistas invertidos.

Se porventura os cineastas por detrás deste estafermo fílmico tivessem considerado injetar algum humor ou ironia no seu projeto, “Barb Wire” ainda se poderia salvar, mas a seriedade reina aqui assim como a erotização obsessiva do corpo de Anderson que se veste como uma prostituta/dominatrix mas mata qualquer homem que ouse referir-se à sua pessoa por “babe”(os argumentistas parecem considerar isto uma manifestação de feminismo no filme).

Contraditório, sexista e estúpido, este filme é um desastre incontestável, mas pelo menos não é tão aborrecido ou incoerente como “Supergirl”.




CATWOMAN (2004) de Pitof

catwoman

Catwoman, enquanto antagonista de Batman, é uma das melhores figuras no cânone da DC Comics e suas adaptações ao pequeno e grande ecrã. Julie Newmar, Lee Meriwether, Eartha Kitt e Michelle Pfeiffer já todas tinham dado vida à personagem quando, em 2004, Halle Berry se decidiu juntar à ilustre coleção de atrizes, mas os seus esforços foram muito menos bem-sucedidos.

Parte do problema devém da completa descontextualização da personagem do universo Batman e suas tonalidades sombrias, mas infinitamente mais nocivo é o argumento ridículo, irracional, sexista e parvo, assim como os esforços do realizador francês Pitof. O cineasta filmou a obra com caótica indisciplina que resultou num filme onde praticamente nada resulta, desde a montagem arrítmica e sem continuidade aos efeitos digitais risíveis.

Pior que tudo é a já mencionada prestação de Berry e sua tentativa de sexualizar a anti-heroína titular sem nenhum do carisma ou ironia sedutora das atrizes que anteriormente encarnaram o papel. No entanto, mais do que qualquer um dos outros filmes nesta lista, “Catwoman” é um desastre tão grande que se torna divertido, sendo uma formidável peça de entretenimento – uma comédia acidental de incompetência cinematográfica!



ELEKTRA (2005) de Rob Bowman

super-heroinas elektra

Há poucas pessoas capazes de defender o Daredevil de Ben Affleck, mas o filme fez dinheiro e, como seria de esperar, os produtores por detrás do projeto tinham já pronta uma possível continuação do seu universo quando o filme chegou ás salas de cinema. Felizmente para todos nós, este spin-off não se centra no enfadonho justiceiro de Affleck, mas sim na presença mais enigmática do filme anterior, Elektra interpretada por Jennifer Garner.

Não que “Elektra” seja tão mau como o seu antecessor, mas é igualmente difícil encontrar cinéfilos prontos a defender os méritos desta aventura cinematográfica de Rob Bowman que, para além de muitos outros problemas, é incrivelmente aborrecida e repetitiva. Pior ainda é o tom funéreo de todo o projeto que contradiz em absoluto os visuais estilizados que a equipa criativa do projeto conseguiu magicar de modo a conferir algum interesse ao seu produto.

A cenografia de Graeme Murray e a fotografia de Bill Rowe são particularmente louváveis, mas não conseguem compensar o péssimo texto de “Elektra”, a encenação medíocre e a prestação estoica e pouco cativante de Garner.



MULHER MARAVILHA (2017) de Patty Jenkins

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Depois de todos esses desastres já mencionados, o mundo voltou a ver em 2017 uma super-heroína a protagonizar um grande blockbuster de Hollywood mas desta vez os resultados não são, de todo, medíocres. Pelo contrário, “Mulher Maravilha” é um maravilhoso triunfo de cinema de entretenimento que nos mostra a importância de representação diversificada no grande ecrã, nunca traindo a personagem edificada na banda-desenhada nem se deixando limitar pelo seu material de origem.

Patty Jenkins, uma fã de longa data da super-heroína titular traz ainda uma mestria tonal a todo o projeto, rejeitando a seriedade sem modulação dos filmes da DC e a ironia cómica da Marvel em igual medida, de modo a construir um filme profundamente sincero na sua representação de heroísmo, superioridade moral e divina justiça personificada.

Sequências como a passagem da Mulher Maravilha pela Terra de Ninguém entre as trincheiras da 1ª Guerra Mundial vão ficar na história do cinema de super-heróis como alguns dos melhores momentos de cinema alguma vez produzidos pelo género e Gal Gadot, que já tinha sido a melhor parte de “Batman v Super-Homem”, mostra aqui carisma, afirma-se aqui como uma das novas estrelas de cinema de Hollywood.




CAPTAIN MARVEL (2019) de Anna Boden e Ryan Fleck

Captain Marvel

Tal como já havíamos dito na nossa crítica do filme:

Nick Fury nunca teve tanto tempo de ecrã em mais nenhum filme do MCU e Jackson faz bom proveito da expansão do papel. Ele traz humor e carisma em doses industriais à narrativa e seu contraste com a prestação surpreendentemente introspetiva de Brie Larson não resulta em fricção tonal, mas sim numa perfeita harmonia de estrelas. Testemunhar a química amistosa dos dois atores em cena quase dá vontade de ver uma comédia ligeira sobre colegas da polícia com Larson e Jackson nos papéis principais.(…) Brie Larson que tanto transmite a vulnerabilidade de uma mulher à procura da identidade como a determinação estoica e meio enraivecida de uma guerreira perdida numa batalha confusa e frustrante.
(…) enquanto objeto de entretenimento, há que se felicitar e celebrar “Captain Marvel”. Um dos maiores ingredientes para o sucesso do MCU tem vindo a ser a sua primorosa construção de personagens coloridas, complexas e cómicas com a qual o espectador gosta de passar tempo. O elenco de atores e personagens da obra são de primeira categoria, sendo que até os antagonistas e as personagens mais secundárias têm direito a momentos de destaque e um certo individualismo humanista. De destacar, temos Ben Mendelsohn que, apesar de estar enterrado numa maquilhagem desfiguradora e grotesca, consegue edificar uma figura que tanto trespassa a arrogância de um vilão clássico como o peso dramático que esperaríamos do protagonista de um choroso drama familiar
Tudo isso e um gato! Não podemos, de modo algum, acabar esta análise sem mencionar a maior estrela de “Captain Marvel”. Com a graciosidade predatória de um rei da selva, talentos de comédia física que dariam inveja a Buster Keaton, uma pelagem cor-de-laranja lustrosa e um olhar que tanto brilha com o típico desprezo felino pela pequenez humana como com uma sede insaciável por festinhas, Goose é uma estrela em ascensão. Os piscares de olho que o filme faz às outras obras do mesmo franchise são muito infelizes, mas Goose quase redime esta fragilidade com seu inigualável carisma e capacidade para surpreender o espectador com umas quantas reviravoltas horroríficas. Tal como Nick Fury espantamo-nos com os talentos fantasiosos deste ator de quatro patas ao mesmo tempo que o queremos mimar. Graças a Goose, diríamos mesmo que “Captain Marvel” se eleva bem acima de qualquer outro dos filmes do MCU. Afinal, mais nenhum deles tem um gatinho adorável.

 

Será que no futuro, vamos ver mais filmes de super-heróis protagonizados por personagens femininas? Pelo menos, temos “Mulher Maravilha 1984” já agendado.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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