Alice Guy Blache Lois weber

Pioneiras da 7ª Arte | Alice Guy-Blaché e Lois Weber

Neste Dia Internacional da Mulher, a Magazine.HD apresenta uma nova rubrica sobre mulheres realizadoras, suas filmografias, legados e importância histórica e artística.

O cinema nasceu ainda no século XIX graças aos avanços tecnológicos dos irmãos Lumière em França e de Thomas Edison nos EUA e, chegada a segunda década do século XX, já desabrochavam as primeiras tentativas de explorar a teoria subjacente a esta nova forma de expressão artística e de entretenimento comercial. Ao mesmo tempo, começaram também as primeiras reflexões sobre a História do cinema, algo que se veio a desenvolver lentamente até à década de 40 quando, em França, uma série de intelectuais, críticos e teóricos realmente propulsionaram uma exponencial legitimação do estudo académico e sério desta nova arte ainda na sua infância. Chegados os anos 50 e consigo o advento da equipa de jovens críticos da Cahiers du Cinéma, surgiu também uma das teorias mais importantes e revolucionárias na apreciação cinematográfica: a teoria do autor, que defendia o realizador como autor singular do objeto artístico final e valorizava assim o trabalho de realizadores como Alfred Hitchcock e Jean Renoir acima da obra de outros fazedores de cinema.

Alice Guy-Blaché, a primeira mulher realizadora
Alice Guy-Blaché, a primeira mulher realizadora

Toda esta introdução é necessária para o efeito deste artigo, pois os realizadores valorizados pelos jovens críticos da Cahiers eram homens e foi neste ponto fulcral da história do cinema que o público cinéfilo teve, pela primeira vez, validação teórica para celebrar o realizador individualmente. Nas décadas que se seguiram a este importante marco, inúmeras considerações críticas e históricas foram feitas sobre uma infinidade de “autores” mas, pelo caminho, a História do cinema foi-se mostrando sexista, para não dizer racista e xenófoba. Esses preconceitos não se manifestaram pela agressão direta, boicotes ou violência estapafúrdia, mas sim pela omissão. No que diz respeito às mulheres, o revisionismo histórico que se tem vindo a tornar standard no estudo da evolução da sétima arte tem mostrado uma venenosa tendência em apagar a contribuição feminina desde os primórdios do cinema.

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Por essa e outras razões, mais ligadas ao sexismo institucional que ainda hoje permeia pelo mundo, a figura da mulher realizadora tornou-se numa espécie de curiosidade trivial, uma anomalia facilmente desprezada em prol de uma história somente focada nos avanços e inovações de criação masculina. Como já dissemos, mesmo na atualidade isto ocorre e o veneno sexista faz com que seja incomensuravelmente difícil para mulheres alcançarem, no cinema, o mesmo tipo de sucesso dos seus colegas homens, independentemente de talento ou virtuosismo. Por isso mesmo, a Magazine.HD propõe aqui uma nova rubrica, focada na celebração de realizadoras e seus filmes, pois nem as cineastas nem as suas obras merecem ser esquecidas ou ignoradas.

Seguindo a introdução histórica com que iniciámos o nosso texto, chamamos a atenção para os primeiros dois sujeitos desta exumação do legado das mulheres realizadoras. Como não podia deixar de ser, uma destas duas cineastas é Alice Guy-Blaché (1873-1968), aquela que foi a primeira mulher a realizar filmes de que se tem registo. Ela é também uma das mais importantes pioneiras da sétima arte, sendo uma das primeiras pessoas a desenvolver cinema narrativo. Há quem dispute que L’Arroseur Arrosé dos irmãos Lumière é o primeiro filme narrativo de sempre, mas, com datação inconsistente, é impossível dizer ao certo se este marco histórico lhes pertence ou a Guy-Blaché pela sua curta-metragem La Fée aux Choux. Algo quase garantido é que este micro filme de 60 segundos foi a primeira obra cinematográfica para a qual foi um escrito um guião, neste caso inspirado por uma expressão popular na França da época.

Apesar de ter começado como uma secretária de Léon Gaumont, Guy-Blaché depressa se afirmou como uma realizadora de talento, tendo assinado cerca de 600 filmes e coordenado a produção de mais umas quantas centenas pois, durante vários anos, Guy-Blaché foi a diretora de produção dos estúdios Gaumont e, mais tarde, fundou a sua própria companhia que eventualmente foi sediada nos EUA. Nestes anos, Guy-Blaché tornou-se uma das mais impetuosas e inovadoras mentes na História do cinema, experimentando com todas as técnicas que conseguia, desde a colorização primitiva, à montagem e até os efeitos especiais pelos quais a realizadora tinha particular apreço. Pode parecer insólito pensar nisto num contexto tão antigo, mas Alice Guy-Blaché era uma das melhores realizadoras de filmes de ação do seu tempo e, pela sua insistência, estas narrativas eram normalmente protagonizadas por corajosas heroínas e não salvadores masculinos.

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Como acontecia regularmente nestes primórdios do cinema, os estúdios de Guy-Blaché acabaram por ir à falência no espaço de poucos anos, mas isso não impediu a realizadora de continuar a fazer cinema para outras produtoras. Antes de abandonar de vez a cadeira de realizadora, Alice Guy-Blaché chegou a assinar várias longas-metragens mas, infelizmente, quase todas se perderam juntamente com a maioria dos filmes dessa época. Depois do seu último filme conhecido, em 1920, Guy-Blaché saiu dos EUA e voltou a França, onde passou o resto dos seus dias a ensinar cinema e a escrever. Em 1968, ela morreu em Nova Jérsia, onde os seus estúdios se tinham em tempos situado, e o seu legado foi-se perdendo na mesma medida em que os nomes de alguns dos seus colegas, como Georges Meliés e os irmãos Lumiére, se tornaram partes inexoráveis da História do Cinema.

lois weber
Lois Weber durante as filmagens

O segundo caso a examinar hoje é o de Lois Weber (1879-1939), uma das mais importantes e populares cineastas da primeira década de Hollywood. Apesar de ter entrado no mundo do cinema ao lado do seu marido como uma equipa de realizadores, Lois Weber rapidamente se afirmou como a força criativa do duo e começou por escrever todos os guiões filmados pelo casal, antes de se tornar numa realizadora a solo e eventualmente, na chefe do seu próprio estúdio. Weber via o cinema como uma arte e não simplesmente como entretenimento e, na sua opinião, a capacidade da sétima arte para sensibilizar pessoas e difundir ideias não era menosprezável. Aliás, ao longo da sua longa carreira, que encapsulou mais de uma centena de projetos desde curtas mudas em 1911 a épicos sonoros dos anos 30, Weber assinou obras com temas ainda hoje polémicos como o direito das mulheres ao aborto e à contraceção, ofereceu argumentos contra a pena de morte, falou de toxicodependência e explorou inúmeras desigualdades socioeconómicas.

Reduzir uma pessoa a uma lista de feitos e estreias pode ser um pouco ofensivo mas Lois Weber foi uma mulher de estreias importantíssimas na História do cinema e de Hollywood. Ela foi a primeira mulher americana a realizar uma longa-metragem, a primeira mulher americana a ser dona de um estúdio, a primeira pessoa a incluir nudez feminina recorrente num filme americano (Hypocrites de 1915), a primeira mulher a ser membro da Motion Pictures Directors Association, a primeira governadora da Universal City na Califórnia, uma das pioneiras no uso do split screen e a aparente inventora do cross-cutting. Esta última técnica é a montagem entre várias ações que estão a acontecer em simultâneo, muitas vezes empregue para criar tensão dramática. Em 1913, Weber inventou essa técnica com a sua curta Suspense, mas, um ano depois, D.W. Griffiths usou o mesmo mecanismo em O Nascimento de Uma Nação e, em parte graças às palavras pomposas do realizador, a História do Cinema marcou esse filme como o primeiro exemplo de cross-cutting de sempre e Griffiths como seu criador. Injustiçada pelos próprios historiadores responsáveis por preservarem o legado da sua arte, Lois Weber, que na altura era considerada com a mesma reverência que Griffiths e DeMille, foi esquecida, mesmo pelos cinéfilos e cineastas que devem tanto à sua mente inovadora.

(ESTE ARTIGO FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO HÁ DOIS ANOS, SENDO QUE O REPUBLICAMOS PARA CELEBRAR O DIA DA MULHER DE 2019)

Para a semana, continuaremos com esta exploração das mulheres realizadoras que a História do Cinema esqueceu apesar dos seus contributos para a sua evolução. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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