Na Fronteira critica

Na Fronteira, em análise

Na Fronteira” é um bizarro cocktail escandinavo de géneros e tons que, há uns meses, surpreendeu muitas pessoas ao conquistar uma muito merecida nomeação para o Óscar de Melhor Maquilhagem.

Por vezes, todos nós nos sentimos sozinhos, excluídos, como estranhos num mundo de desconhecidos, separados de tudo aquilo e daqueles que nos rodeiam. Para os sortudos, tal realidade é passageira e rapidamente se esfuma. Para Tina, a protagonista de “Na Fronteira”, não há nada de efémero nessa condição, uma constante da sua vida desde a infância. Com um físico corpulento, olhos pequenos enterrados numa cara que parece esculpida na rocha, com uma sobrancelha proeminente e dentes de aparência mais animal que humana, ela é sempre uma figura meio grotesca em qualquer situação social em que se encontre.

Somente quando está sozinha na quietude do mundo natural, entre árvores e riachos, insetos e terra húmida, é que esta peculiar mulher consegue encontrar alguma paz. Contudo, seu aspeto e amor pela natureza não são os únicos fatores que a tornam numa criatura tão especial e distinta. Tina possui um sentido de olfato altamente apurado, capaz de até registar o nervosismo das pessoas, sua ansiedade e angústia. Essas mesmas capacidades levaram-na a seguir carreira enquanto agente fronteiriça, sempre pronta a usar o nariz para esmiuçar quem esconde intenções criminais por entre as multidões que chegam à Suécia. A certa altura, chegamos a ver como Tina é capaz de usar estas habilidades em conjunto com a sagacidade de uma detetive para encontrar um cartão de memória cheio de pornografia infantil dentro de um telemóvel.

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Um cocktail tonal muito estranho.

Pode ser uma pária infeliz, que sofre ainda com um pai hospitalizado e um namorado mais atento aos cães que a ela, mas Tina conseguiu definir para si mesma um lugar na sociedade, onde seus afazeres lhe dão propósito e orgulho. Assim é até ao dia em que um homem com uma desconcertante semelhança física com Tina aparece e ela não consegue “ler” o seu odor. Enervada, a agente fronteiriça exige que ele seja revistado, uma situação desconfortável para todos menos a misteriosa figura que dá pelo nome de Vore. Depois de se cruzarem múltiplas vezes, é óbvio que uma certa obsessão curiosa começa a germinar no coração de Tina que se oferece para alojar Vore no quarto de hóspedes da sua casa.

Ela vê semelhanças entre os dois que transcendem a morfologia facial e, depois de uma vida a sentir-se patologicamente sozinha, isso ganha a qualidade de um milagre que a vem maravilhar e assustar em igual medida. Há a alegria do encontro, do reconhecimento e do entendimento, há o prazer de uma união ditada por instintos primordiais. Só que, vendo-se espelhada e complementada por Vore, Tina vai-se descobrindo a si mesma e o que encontra não é uma verdade identitária confortável, mas sim uma herança de tragédia e marginalização, de ódio e dor.

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Também o espectador é convidado pelo cineasta Ali Abbasi a deixar-se levar pela confusão destes sentimentos entrelaçados. O realizador tanto oferece instantes de êxtase sensorial, por vezes até roçando o erotismo, como os contrasta com imagens grotescas e perturbadoras. Tais variações de tom e sentimento são espectáveis, até necessárias, quando consideramos todos os géneros cinematográficos que Abbasi tenta integrar nesta sua manta de retalhos, desde uma tradição de mitologia folclórica, passando pelo estudo de personagem, até chegar ao romance em comunhão com o mistério policial e fantasia alegórica. Não há melhor prova dos talentos deste autor que o modo como “Na Fronteira” jamais parece um filme desequilibrado ou indulgente.

Há uma disciplina absoluta a orientar a negociação de todos estes elementos díspares. A escolha de uma estética realista em fricção com as facetas fantasiosas, por exemplo, ajuda a ancorar a narrativa, mesmo nas suas passagens mais aterradoras e estrambólicas. Por seu lado, Eva Melander centra todas as variações tonais do filme na psicologia de Tina que é construída pela atriz através de detalhes minuciosos de postura e expressões reativas. Mesmo enterrada debaixo de estonteantes feitos de maquilhagem transformadora, Melander é capaz de trazer naturalismo e subtileza interpretativa à sua personagem o que permite ao espectador aprender a encarar Tina como uma pessoa e não como um monstro de latex e efeitos especiais.

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Os efeitos de maquilhagem em conjugação com interpretações notáveis produzem um espetáculo cinematográfico subtilmente brilhante.

Desvendar muito mais sobre “Na Fronteira” seria roubar ao espectador o sabor delirante da surpresa e este filme está recheado de surpresas e reviravoltas. Adaptado de um conto de John Ajvide Lindqvust, este é um projeto que em si contem desmesurada ambição temática que só é superada pela audácia com que os cineastas confrontaram a estranheza das suas premissas. Não há aqui ironia ou dúvida, somente doses industriais de empenho, modéstia, e coragem que fazem deste um feito de cinema imperdível, mesmo valioso nos instantes em que mais vacila. Não estaríamos a exagerar quando dizemos que não há mais nenhum filme como “Na Fronteira”, cuja estranheza é sua maior bênção e cuja ousadia põe o nome de Ali Abbasi no mapa. Qualquer cinéfilo deverá estar atento ao trabalho deste escandinavo de origem iraniana que parece ver o cinema como um infinito oceano de possibilidades narrativas, onde convenções de género e limites do bom gosto burguês não existem.

Na Fronteira, em análise
Na Fronteira

Movie title: Gräns

Date published: 2019-03-07

Director(s): Ali Abbasi

Actor(s): Eva Melander, Eero Milonoff, Jörgen Thorsson, Ann Petrén, Sten Ljunggren, Kjell Wilhelmsen, Rakel Wärmländer, Andreas Kundler, Matti Boustedt, Tomas Åhnstrand, Josefin Neldén, Henrik Johansson

Genre: Drama, Fantasia, Romance, 2018, 110m

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 80
83

CONCLUSÃO:

Através de uma abordagem de realismo modesto, o realizador Ali Abbasi constrói em “Na Fronteira” uma bizarra conflagração de géneros e tons. Por vezes, ele é capaz de ir aos extremos do body horror na mesma cena em que se desdobra em epítetos de romance erótico. Formidável concretização formal e técnica em comunhão com um elenco exemplar dão consistência e integridade a esta aventura cinematográfica que se atreve a lidar com temas tão complicados como identidade étnica, ansiedades sexuais e ideologia eugénica, entre outros.

O MELHOR: O trabalho de efeitos visuais e maquilhagem é espantoso e, num mundo justo, teria conquistado o Óscar para que foi nomeado sem problemas. Infelizmente, como este filme gosta bem de nos recordar, não vivemos num universo regido por qualquer tipo de justiça.

O PIOR: Ocasionalmente, a grandiosidade narrativa do projeto ameaça desmoronar o edifício do filme. A ambivalência moral das últimas revelações sobre Vore precisa de mais tempo para respirar e fermentar na mente do espetador antes de Abbasi detonar mais umas quantas das suas bombas de desenvolvimento narrativo e precipitar Tina para a conclusão da história.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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