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Na Sombra da Lei, em análise

Com Mel Gibson e Vince Vaughn nos papéis principais, “Na Sombra da Lei” é a mais recente provocação do realizador americano S. Craig Zahler, cujo rigor formalista continua a confundir críticos e a ganhar-lhe fãs.

Ser publicamente catalogado como um racista nos dias de hoje é como ser chamado um comunista durante os anos 50. Assim é independentemente da situação, mesmo que seja um comentário feito em privado ou o tratamento indelicado de algum membro de uma minoria étnica que está a vender drogas a miúdos. Afinal, a indústria do entretenimento, a que outrora se dava o nome de “notícias”, precisa de vilões e, certamente, não há nada mais hipócrita que o modo como os media tratam qualquer gesto intolerante com total intolerância. Estas são algumas das ideias reacionárias, conservadoras, incrivelmente preconceituosas e com cheiros de supremacia branca com que o cineasta S. Craig Zahler enche o seu mais recente filme, “Na Sombra da Lei”.

Trata-se da história de dois polícias, um veterano e um novato, que são suspensos devido ao seu comportamento violento e, furiosos com as supostas injustiças que a sociedade atual desferiu sobre eles, se viram para o mundo do crime. Para eles, trata-se de retribuição justa para com dois homens fiéis ao seu dever a quem o mundo não oferece tudo o que é devido. Junte-se a isto muitos diálogos com ideias semelhantes às do parágrafo anterior, personagens femininas que são quase adereços e uma coleção aparentemente infindável de estereótipos racistas e temos um filme que parece ter sido escrito através de crowdsourcing criativo num comício de Donald Trump. De facto, tão caricato é o discurso retrógrado do filme, tão enfática é a sua odiosidade, que é quase justo assumir que estamos perante algo mais próximo da sátira do que da propaganda neonazi.

na sombra da lei critica
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Muitos críticos, prontos a defender Zahler, têm vindo a definir o filme como uma crítica ao estilo dos blockbusters de Verhoeven. Afinal, há algo tão descarado no modo como “Na Sombra da Lei” expressa o seu preconceito, que quase se justifica ver aí alguma provocação acompanhada por um sorrateiro piscar de olho. Talvez no futuro, iremos encarar este veneno de Zahler como o novo “Starship Troopers”, mas é importante apontar para uma grande diferença entre esse filme de ficção-científica e a obra recente. “Na Sombra da Lei” não tem qualquer claridade de intenção e é fácil ver por grande parte da reação popular, especialmente nos EUA, que os mesmos indivíduos monstruosos que o filme retrata estão a encontrar aqui uma celebração do seu mesmo comportamento. Se, de facto, “Na Sombra da Lei” foi concebido como uma sátira, então é uma má sátira.

Uma explicação mais justificável para a qualidade desbocada deste hino cinematográfico à supremacia branca do século XXI encontrar-se-á no desejo de provocar. Muitos cineastas têm vindo a construir as suas carreiras como atos de provocação, construindo máquinas de choque barato prontas a ultrajar a audiência burguesa e seus bons costumes. Antes de se falar em trolls da internet, já Lars von Trier, Michael Haneke e outros que tais exploravam os limites do bom gosto e da moralidade em obras que, para além de suscitarem repugna, têm pouco para oferecer. Não querendo elevar Zahler ao estatuto desses consagrados cineastas europeus, há algo claramente provocador no seu cinema. Pelo menos, há uma pretensão do provocar, do choque visceral.

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“Na Sombra da Lei” é muito violento e grita linguagem racista, homofóbica e xenófoba a toda a hora, mas não o faz tanto num ato de convicta retórica política, mas mais como uma provocação vácua, uma pose. Daí, vermos aqui uma obra que assume que o que está a explorar é socialmente rejeitado, mas nunca se digna a realmente examinar o porquê dessa rejeição. Além disso, Zahler, na sua procura por ressuscitar mecanismos do cinema B de outros tempos, recorre a soluções que sustentam essa mesma ideologia e a concretizam sob a forma de linguagem cinematográfica. Basta vermos o casting estranhíssimo da obra. Vince Vaughn é um agente novato, apesar de o ator, já na casa dos cinquenta, não transmitir qualquer ideia de juventude. Mel Gibson, célebre antissemita e santo padroeiro do cinema machista e hiperviolento, é, por seu lado, um justiceiro amargurado cuja família é vítima dos criminosos afro-americanos que lhe invadiram o bairro.

Em certa medida, os dois protagonistas são os únicos atores a quem é oferecida uma personagem com alguma interioridade, se bem que outros membros do elenco bem tentam. No entanto, não há muito que eles possam fazer contra as decisões de Zahler na cadeira de realizador. O cineasta filma os espaços como algo saído de um videojogo de guerra urbana, onde tudo é descaracterizado e até os apartamentos foram esvaídos de personalidade. Essa mesma abordagem cenográfica estende-se à direção de atores, que são mais adereços robóticos que pessoas. No caso das personagens femininas, isso é particularmente notório, sendo que, no universo do filme, as mulheres parecem apenas existir como mães, esposas e filhas cujo sofrimento serve de combustível e motivação para os homens. Figuras anónimas e desumanas para espaços anónimos e desumanos.

na sombra da lei critica
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É fácil cair numa infinita lista de queixas morais, políticas e ideológicas contra a putrefacta história de “Na Sombra da Lei” e sua realização, mas é importante estabelecer que os problemas do filme muito transcendem o argumento, a direção de atores ou até os seus espaços alienantes. Talvez a fragilidade mais intragável da obra seja a sua lentidão glacial, que, de algum modo, consegue esticar até à obscena duração de duas horas e meia uma narrativa que, no máximo, precisa de 45 minutos para ser dramatizada de forma inteligível. Por outras palavras, “Na Sombra da Lei” é lento e é aborrecido, parecendo quase fetichizar a constante inação das suas personagens. Com isso dito, não obstante quão frustrante tudo isto possa ser, é fácil ver, no trabalho de Zahler, o mérito que o tem vindo a tornar tão respeitado pela crítica internacional.

Os seus filmes, especialmente “Na Sombra da Lei” e “Rixa no Bloco 99”, combinam o apelo perverso do cinema de série B com retórica populista de direita, combinam textos anémicos com o rigor formal e o ritmo ponderoso de um projeto de slow cinema, combinam conteúdo fogosamente agressivo com a calma estéril de um funeral. O cinema de Zahler é um cinema de contradições e é fascinante pensar sobre os seus filmes, escrever sobre eles e tentar esmiuçar os mistérios escondidos por entre as suas facetas mais repugnantes. Até o trabalho de ator robótico tem o seu interesse, recordando uma estilização quase lírica, é poesia da sarjeta. Nada disso invalida as nossas críticas de “Na Sombra da Lei”, nem faz da obra algo mais meritoso que medíocre. Há, contudo, que respeitar como Zahler faz da provocação vácua uma forma de arte rigorosa. Não é um bom filme, não é uma boa sátira, nem uma boa provocação. É algo que não deixa ninguém indiferente, nem que seja por nos enoja

Na Sombra da Lei, em análise
Na Sombra da Lei

Movie title: Dragged Across Concrete

Date published: 2019-07-17

Director(s): S. Craig Zahler

Actor(s): Mel Gibson, Vince Vaughn, Tory Kittles, Michael Jai White, Jennifer Carpenter, Laurie Holden, Fred Melamed, Thomas Kretschmann, Don Johnson, Udo Kier

Genre: Aventura, Crime, Drama, 2019, 159 min

  • Cláudio Alves - 50
50

CONCLUSÃO:

“Na Sombra da Lei” é um sonho de supremacistas brancos sob a forma de cinema, um venenoso conto de ódio e políticas reacionárias que é filmado com o formalismo rigoroso que esperaríamos de alguém como Bresson ou Tarr. É uma história de literatura pulp feita à imagem de cinema de autor. O resultado final frustra e fascina em igual medida. Repugna também.

O MELHOR: A frieza formalista é tão frustrante como admirável.

O PIOR: A duração monstruosa do filme e o seu ritmo soporífico.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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