Na Vertical, em análise

Com Na Vertical, realizador Alain Guiraudie volta a afirmar-se como uma das vozes mais provocadoras e obstinadas do panorama cinematográfico francês.

na vertical Alain Guiraudie

Quando se fala de surrealismo em cinema, a maior parte das pessoas tende a conjurar imagens mentais mais ou menos próximas da abordagem tomada por Alfred Hitchcock no seu thriller psicológico Spellbound. Para conceber os devaneios oníricos de uma das suas personagens, o mestre do suspense teve o auxílio de Salvador Dali e, por consequência, essas passagens têm a aparência incontornável de pinturas vivas assinadas pelo homem que, na mente de muitos, é sinónimo de todo movimento surrealista (uma ideia bastante redutora e míope). Estamos aqui a fazer referência a Spellbound pois, apesar das suas sequências sonhadas constituírem a fórmula base e mainstream do surrealismo cinematográfico, existem inúmeras outras abordagens que raramente são propriamente caracterizadas como tal.

Como contraexemplo, chamamos a atenção para O Cão da Andaluzia, outro projeto cinematográfico onde Salvador Dali deixou a sua marca. Nessa curta-metragem de 1929, por muito estrambólicas que sejam algumas das suas insanas imagens, o realizador Luis Buñuel nunca deixa que o filme resvale em qualquer estilização alienante. Pelo contrário, é precisamente devido à casualidade com que as situações grotescas são apresentadas que o espetador é transportado para a dimensão onírica da mente humana, onde banalidade anda de mão dada com o insólito e o impossível. Nos seus futuros trabalhos surrealistas, já libertos da influência pictórica de Dali, Buñuel viria a aperfeiçoar esta abordagem caracteristicamente seca, culminando com as suas obras dos anos 60 e 70, onde não são as imagens impossíveis que sugerem o surreal, mas sim os comportamentos humanos que se manifestam de um modo perfeitamente incongruente com a “realidade” em que nós vivemos.

na vertical Alain Guiraudie

É importante ter todas estas ideias em conta quando se considera o trabalho de Alain Guiraudie pois, no seu âmago, o cineasta francês tem sido uma espécie de descendente cinematográfico de Buñuel. É certo que a cinefilia internacional apenas acordou para a grandeza de Guiraudie quando este contextualizou as suas experimentações habituais num esquema de thriller Hitchockiano em O Desconhecido do Lago, mas o realizador já há muito tempo tinha mostrado as suas aptidões e particulares idiossincrasias. Referimo-nos principalmente ao modo como Guiraudie traz surrealismo ao que é banal através de uma série de mecanismos e técnicas raramente consideradas surrealistas.

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Primeiro, temos o seu tratamento de sexo e sexualidade, algo que gerou muito frutíferas polémicas aquando da estreia de O Desconhecido do Lago em Cannes. No mundo dos filmes deste cineasta, todo o sexo é representado com uma franqueza seca e as personagens parecem não ter quaisquer tabus ou presunções moralistas. Na verdade, para um realizador famoso (ou infame) pelas suas cenas de sexo homossexual explícitas, Guiraudie conjura um mundo universalmente pansexual onde tais rótulos e segregações identitárias ou estão obsoletas ou nunca existiram. Seguindo a mesma linha de pensamento, o modo como os seres humanos dos seus filmes se relacionam uns com os outros pouco tem de natural e a razão humana em si nunca marca presença, a não ser quando o realizador faz questão de contrastar os seus mundos oníricos com a nossa “realidade”.

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Isso acontece muito tardiamente em Na Vertical, o seu mais recente filme que, na execução formal, exibe de modo claríssimo a outra grande marca surrealista do cinema de Guiraudie. Referimo-nos à falta de racionalidade que se estende ao mundo físico e temporal habitado pelas figuras da narrativa. Mais especificamente, Na Vertical divide a sua ação em cerca de cinco locais, a propriedade bucólica de um pastor e criador de ovelhas, uma casa isolada no meio do campo que é habitada por um velho rabugento que passa a vida a ouvir música rock aos altos berros, uma cidade francesa, uma estrada montanhosa sem aparente destino e a cabana de uma curandeira mística que vive separada do mundo através de um lago. A relação geográfica entre estes locais nunca é explicada, a montagem nada faz para esclarecer a confusão da audiência e os movimentos das personagens indicam grandes distâncias e uma proximidade diabólica dependendo da cena. Recorrendo a esse grande cliché da crítica cinematográfica, temos aqui a lógica de um sonho.

O protagonista desse sonho é Léo, um argumentista de cinema em crise criativa que deambula pelos vários ambientes e cuja singular ligação a uma realidade exterior vem sob a forma de telefonemas progressivamente urgentes sobre um guião atrasado. Quando o vemos pela primeira vez, ele tenta seduzir um rapaz de feições lupinas que encontra numa estrada campestre. Ele é prontamente rejeitado. Pouco depois, encontra uma pastora, dorme com ela, ela engravida e dá à luz a um filho que acaba por abandonar nos braços de Léo. Tudo isto constitui somente o primeiro batimento da história e seria tão fútil como difícil tentar delinear melhor os restantes pontos do enredo, mas algo fica bem claro passado um bocado – na sua exploração surrealista, que tem mais que ver com os seus primeiros trabalhos do que com O Desconhecido do Lago, Guiraudie não tem medo de brincar com alegorias e simbolismos agressivamente concetuais.

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Léo é o maior símbolo deles todos, sendo que, dependendo da cena, o ator Damien Bonnard não está tanto a interpretar uma personagem específica como uma ideia. Ele pode ser o homem, o pai, o amante, o protetor, o necessitado, o cuidador, a vítima, o agressor, o oprimido, etc. Pela mesma lógica, as figuras que orbitam à sua volta são mais alegóricas que humanas, incluindo o seu bebé e, de certo modo, os animais que pontuam momentos chave do filme – carneiros e lobos. Guiraudie filma tudo isto com um registo entre a severidade composicional de um pintor neoclássico e a naturalidade grosseira de um cineasta realista europeu. As cenas de sexo, nascimento e morte (três conceitos inseparáveis nesta oeuvre) são exemplos perfeitos disso, especialmente o grande plano que captura o parto de um modo tão direto que consegue dar uma qualidade oniricamente distante a uma filmagem incontornavelmente documental.

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Para além de algum comentário social, é pouco claro o que é que Guiraudie está a tentar fazer com todas estes elementos em conjugação mas, talvez, a resposta seja que o próprio cineasta não tem completo controlo ou interesse em definir esse significado. Afinal, Na Vertical é um filme em que um cineasta escreve um argumento à força que não tem nenhuma grande ideia subjacente, ou pelo menos nenhuma ideia entendida pelo seu autor. No final, dependerá de cada espetador a interpretação, apreciação ou rejeição individual deste poema onírico e surreal centrado na vida do homem. Para fãs do realizador, Na Vertical será certamente uma modesta delícia, para cinéfilos sedentes por uma obra mais ideologicamente fechada e coerente, o desapontamento é inevitável. Uma coisa é certa – o sucesso e notoriedade crítica não parecem estar a atenuar a ousadia de Guiraudie nas suas aventuras surrealistas e, por isso, devíamos estar todos gratos.

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O MELHOR: A cena de eutanásia mais estranha do cinema recente que é emparelhada com a única vez que qualquer noção de usual causalidade e razão humana interferem com a ação de Na Vertical. Raramente uma manchete sensacionalista sobre o potencial mortífero de uma relação gerontófila foi tão hilariante.

O PIOR: O modo como o final insiste em justificar o título com o único momento do filme em que Guiraudie se mostra tentado a oferecer uma explicação fácil de digerir ao seu público.



Título Original:
Rester vertical
Realizador:
Alain Guiraudie
Elenco:
 Damien Bonnard, India Hair, Raphaël Thiéry, Christian Bouillette, Basile Meilleurat
Alambique | Drama, Comédia | 2016 | 98 min

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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