Um Homem Chamado Ove, em análise

Um Homem Chamado Ove é uma recente tragicomédia sueca que alcançou duas indicações para os Óscares assim como uma invejável popularidade internacional.

um homem chamado ove

Acusar um filme de ser manipulativo é, de um certo ponto de vista, quase mesma coisa que dizer que um filme é um filme. Despertar reações numa audiência através do uso de mecanismos audiovisuais poderia muito bem ser tido como o objetivo primordial da sétima arte, mas é também um indicativo de clara manipulação pela parte de qualquer cineasta. Dito isto, existem vários tipos de manipulação cinematográfica e discernir as suas diferenças qualitativas é deveras interessante e revela como algumas abordagens demasiado diretas e desenvergonhadas tendem a ter o efeito contrário do pretendido. Ou seja, para algumas pessoas, uma manipulação demasiado evidente e sem nuance pode resultar numa rejeição das ideias que o filme está a tentar comunicar, e, ao invés de estar emocionado, o público resigna-se à irritação indignada.

Um Homem Chamado Ove é um filme de um nível de manipulação emocional incrivelmente crasso que, mesmo assim, poderá ser considerado por muitos espetadores como um choroso triunfo do mais alto gabarito sentimental. Afinal, tanto há pessoas que sentem repugnância imediata pelos mecanismos descarados com que Steven Spielberg apimenta os seus mais melosos sucessos, como há quem se rende de corpo e alma a esses mesmos mecanismos, suspirando e chorando às ordens musicais de John Williams como uma marioneta a ser habilmente movimentada pelo seu marionetista.

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Agora que estabelecemos a natureza divisiva do filme em questão, talvez seja boa altura para esclarecer o leitor em relação ao tipo de narrativa que Um Homem Chamado Ove efetivamente é. De uma forma muito básica, temos aqui mais uma daquelas histórias clichés de um velhote rabugento e antissocial que tem o seu coração de gelo derretido pelo apelo das pessoas à sua volta, maioritariamente um amigável espírito mais jovem. Quem já viu Central Brazil, Harry e Tonto, O Perfume de Uma Mulher, Up, Descobrindo Forrester ou mesmo Gran Torino já deve estar mais do que familiarizado com esta fórmula narrativa. A isto, acrescenta-se uma boa dose de humor negro e uma montanha de flashbacks dramaticamente desnecessários e temos a receita completa para este filme sueco.

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O velhote em questão é Ove (Rolf Lassgård), que recentemente perdeu a esposa e, quando o conhecemos, está a tentar suicidar-se. Infelizmente (ou felizmente) para Ove, os seus planos são sempre interrompidos, ora por novos vizinhos a chegar ao condomínio (aqui temos os nossos espíritos jovens e redentores), ora por uma corda de má qualidade que não aguenta com o seu peso. É precisamente neste seguimento de tentativas de suicídio fracassadas que o humor negro do filme chega ao seu píncaro e é também aqui que os cineastas encontram o lugar perfeito para despoletarem longas viagens pela memória de Ove em flashbacks que, supostamente, ilustram esse ditame popular que diz que, quando às beiras da morte, vemos toda a nossa vida passar-nos à frente dos olhos.

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Anteriormente, fizemos referência à inutilidade dramática dos flashbacks e isso, de facto, não deixa de ser verdade. Estas sequências situadas no passado do protagonista, pouco fazem para trazer nuance ou interesse ao retrato do protagonista e, pelo contrário, servem mais como um martelo emocional com que os cineastas tentam, sem vergonha ou contenção, causar dilúvios lacrimosos na sua audiência. Com isso dito, é difícil não admitir que, por muito mal escritos que estes momentos possam ser, é aqui que os maiores prazeres do filme estão contidos, tanto do ponto de vista formal como sentimental e humano.

O realizador Hannes Holm tem pouca habilidade para modular os insanos contrastes tonais presentes nestas secções narrativas – apesar do humor, a vida de Ove lembra o conto bíblico de Job e seus muitos sofrimentos – mas compensa isso com uma polidez típica do cinema escandinavo de prestígio. Nalgumas passagens, como uma viagem turística a Espanha que culmina num acidente automobilístico saído de um verdadeiro filme de terror, Holm é mesmo capaz de imergir o seu público numa chocante explosão de agressão sensorial que nos coloca num estado mental momentaneamente equivalente ao do seu protagonista traumatizado. Também ajuda que estas partes do filme sejam muito mais ricas em romantismo narrativo e cenários coloridos que a ação contemporânea.

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O outro componente que eleva os flashbacks acima do restante projeto é a prestação de Filip Berg como a versão mais jovem do protagonista de Um Homem Chamado Ove. O ator entra num registo que recorda a açucarada inocência de Audrey Tautou em Amélie mas que dispensa com a estilização desse filme e compensa a sua falta com pequenos apontamentos de genuína abrasão emocional e humana. A sua química com a atriz que interpreta a grande paixão da sua vida também é eletrizante e faz com que seja muito mais fácil entender o estado mental do velhote suicida que parece odiar tudo e todos os que rompem com a ordem do seu mundo e com os seus planos para se juntar prontamente à mulher que lhe deu razão para viver.

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Ajudado pela maquilhagem que valeu ao filme uma das suas duas indicações aos Óscares ( a outra foi na categoria de Melhor Filme Numa Língua estrangeira pela Suécia), Rolf Lassgård também não se envergonha como o senhor Ove nos seus anos dourados, mas há algo esquemático no seu trabalho que esbate algum do seu apelo e impacto. Verdade seja dita, esse é o problema de grande parte deste filme, é tudo muito esquemático. A fotografia é agradável, a cenografia é verdadeiramente magnífica, a montagem é competente nos seus ritmos tragicómicos e o elenco, com algumas exceções vergonhosas, é minimamente competente, mas falta sempre alguma módica originalidade que mostre alguma paixão por detrás de Um Homem Chamado Ove. Na sua forma final, o filme parece exatamente o que é, uma adaptação literária extremamente convencional de um livro de sucesso, apoiado em fórmulas antiquadas com alguns rasgos de progressismo moral muito superficial que tornam toda a experiência em algo fácil de se celebrar para o público em geral. Sim, é fácil chorar, sorrir, rir, e amar Um Homem Chamado Ove mas, numa perspetiva analítica com ênfase em méritos artísticos, há pouco para valorizar ou recomendar.

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O MELHOR: A já elogiada prestação de Filip Berg e, de forma geral, a desenvergonhada e despretensiosa espetacularidade romântica dos vários flashbacks.

O PIOR: A prestação desastrosa e caricaturada de Christoffer Nordenrot é bastante má, mas ainda pior é o final que, depois de nos ter posto um sorriso nos lábios e uma gargalhada na garganta, tem a ousadia de nos exigir lágrimas através de uma reviravolta doentiamente previsível e de uma ironia profundamente infantil.



Título Original:
En man som heter Ove
Realizador:
Hannes Holm
Elenco:
 Rolf Lassgård, Bahar Pars, Filip Berg, Ida Engvoll, Tobias Almborg
Alambique | Drama, Comédia | 2015 | 116 min

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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