No Coração da Escuridão

‘No Coração da Escuridão’, em análise

O veterano Paul Schrader em ‘No Coração da Escuridão’ regressou com um thriller psicológico sobre um pastor em crise de fé, interpretado por Ethan Hawk. Em pano de fundo ainda a questão ambiental e o terrorismo.

O veterano Paul Schrader — o argumentistas de ‘Taxi Driver’ — regressou com um poderoso e intrincado ‘No Coração da Escuridão’, um thriller psicológico com Ethan Hawke e a jovem Amanda Seyfried, expresso numa luta com a fé, a culpa e o remorso. ‘No Coração da Escuridão’ é um filme que se concentra sobretudo na dúvida existencial, com Ethan Hawke na pele de Toller, um pastor de uma pequena igreja de província, do interior dos EUA.

No Coração da Escuridão
Ethan Hawke é notável na sua personagem agonizante.

Tolher é um ex-capelão militar que está devastado pela perda de seu filho  — a quem ele próprio encorajou a alistar-se nas forças armadas — e com o fim do seu casamento. Isolado e perdido num forte conflito espiritual e existencial, a sua fé fica ainda mais abalada quando a jovem Maria (Amanda Seyfried) e o seu marido Michael (Philip Ettinger), um ambientalista radical, lhe pedem ajuda. Michael é um jovem consumido pelo pensamento de que o mundo está prestes a ser destruído pelos grandes conglomerados empresariais e financeiros, com a cumplicidade da igreja e por isso toma uma decisão radical, que vai afectar o pastor Toller.

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‘No Coração da Escuridão’ está efectivamente na linha de outros grandes filmes de Paul Schrader quer como argumentistas (‘Taxi Driver’, ‘Touro Enraivecido’ ou ‘A Última Tentação de Cristo’) quer como realizador, (‘American Gigolo’ ’The Canyons’, ‘Cães Selvagens’ ou ‘Confrontação’), com personagens atormentadas e um ambiente de tensão. E talvez seja mesmo o último filme deste veterano parceiro da geração de movie brats (Scorcese, Coppola, De Palma), portanto aproveitem que provavelmente não vai haver mais filmes assim: densos, reflexivos, tensos e que nos deixam memórias para além da sala de cinema.

Em ‘No Coração da Escuridão’, — muito apropriado este título em português, diga-se de passagem — o pastor Toller (Ethan Hawke), vai arriscar tudo — como o Travis Bickle em ‘Taxi Driver’ — na esperança de conseguir recuperar a sua fé e tentando remediar os erros sofridos por tantas pessoas, mas carregando às costas as suas culpas. Acaba surpreendido por um milagre de amor, mas que não lhe serve de nada, pois parece não haver qualquer esperança para a sua salvação física e espiritual.

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Igualmente depois de ‘Pequena Grande Vida’, de Alexander Payne, estreado recentemente a questão dos crimes ambientais e contra a natureza, voltam à ficção: em ‘No Coração da Escuridão’, sobressaem a forma como as consequências dos danos provocados na natureza e a impotência contra esse facto da maioria das pessoas, podem igualmente ser um fundamento, para uma crise de fé — e não só. Ou como Toller, um homem desesperado e consumido por vários males procura a redenção, tornando-se um homem-bomba. É esta atitude que pode explicar ainda muitas das acções desesperadas  e suicida por pessoas comum, normalmente avaliadas pelos media e pelas investigações como ações do terrorismo islâmico.

No Coração da Escuridão
A jovem Maria (Amanda Seyfried) abala com a fé do pastor Toller.

Assim ‘No Coração da Escuridão’ é um filme a não perder, porque apesar de ser um drama pesado é uma obra extraordinariamente muito bem escrita e dirigida — Ethan Hawke é notável na sua personagem agonizante — mesmo com o seu desenvolvimento depressivo e atormentada. Tem um enorme potencial dramático, que reflecte sem dúvida muito ao nível individual sobre a fé, a esperança e o desespero, mas também a nível colectivo sobre problemas como: a defesa do ambiente, o terrorismo, a crise da espiritualidade e os conflitos entre religiões.

José Vieira Mendes

‘No Coração da Escuridão’, em análise
No Coração da Escuridão

Movie title: No Coração da Escuridão

Date published: 2018-07-19

Director(s): Paul Schrader

Actor(s): Ethan Hawke, Amanda Seyfried, Philip Ettinger

Genre: Drama, Thriller, 2017, 108 min

  • José Vieira Mendes - 80
  • Cláudio Alves - 90
  • Daniel Rodrigues - 75
  • Miguel Pontares - 85
  • Virgílio Jesus - 85
  • Catarina d'Oliveira - 82
83

CONCLUSÃO

‘No Coração da Escuridão’ não é um filme de muitas palavras e diálogos, mas de silêncios e dos monólogos de Toller (Ethan Hawke), que consegue confrontar-nos com crueza e a fragilidade da natureza humana, com a agonia, a culpa e o remorso e onde nem sequer parece haver espaço, nem esperança de redenção. Sem perdão!

O MELHOR: Ethan Hawke, a história e sobretudo a fotografia sombria que cria um clima agonizante.

O PIOR: É precisamente esse doloroso confronto com a natureza humana que aconselha a ver este filme nos melhores dias da nossa vida.

JVM

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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