O Número, em análise

Uma potente prestação de Christopher Plummer torna a pueril narrativa de O Número numa tragédia de proporções esmagadoras e dolorosa humanidade.

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Não querendo entrar em insensatas generalizações, que, ocasionalmente, a escolha de um ator para um certo papel é tão perfeita que, não obstante qualquer outro mérito interpretativo, textual ou formal, o filme se torna imediatamente numa obra digna de interesse e valor. Tal é o caso de O Número, um dos mais recentes filmes do canadiano Atom Egoyan, onde Christopher Plummer, outrora o elegante e obstinado capitão Von Trapp no mais famoso musical alguma vez feito sobre a 2ª Guerra Mundial, interpreta Zev Guttman, um sobrevivente do Holocausto decidido a matar o nazi culpado por executar os seus familiares e que, segundo ele sabe, também se encontra agora a viver na América do Norte.

Olhando a figura frágil e envelhecida de Plummer, cujos movimentos denotam sempre o tremido custo e suplício de um corpo que já não obedece plenamente ao seu dono, é difícil não recordar amargamente a imponente silhueta do coprotagonista de Música no Coração. De herói honroso, símbolo de poder patriarcal justo, a um velho enfermo e confundido pela névoa da demência. O seu estado mental é, na verdade, tão precário, que repetidamente se esquece que a mulher está morta e necessita de uma carta para se ir lembrando a si mesmo da missão assassina em que se envolveu.

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Memória é, aliás, aquele que poderíamos definir como o tema central desta narrativa de vingança e exorcização do passado. Por um lado, temos a relação meta textual entre a imagem presente de Plummer e a memória que o espetador associará ao seu nome. Por outro, temos a memória do próprio protagonista e sua relação simbólica com a memória geral do Holocausto na sociedade atual, onde cada vez mais as pessoas parecem dispostas a esquecer os horrores do passado e se propõem a repetir essas mesmas calamidades. Pelo menos, essas são as facetas mais interessantes que o argumento de Benjamin August sugere quando não está preso num registo de enfadonho e desconfortável sensacionalismo por meio da críptica repetição de situações.

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A mais comum crítica que a imprensa internacional tem apontado a este filme é que, tal como a maior parte da recente obra daquele que outrora foi um dos grandes autores do cinema canadiano, existe uma grande falta de bom gosto na edificação da premissa narrativa. Um idoso com problemas de memória foge do lar onde o filho o deixou e vai à procura de um nazi, encontrando-se com uma série de pessoas que partilham todos o mesmo nome que ele assume ter sido roubado a uma vítima de Auschwitz, onde o próprio Zev terá sido enclausurado em tempos. Basicamente, uma edição sénior de Memento com um toque de nazismo para apimentar a trama e menos tatuagens.

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Só que, não obstante os muitos problemas do argumento, entre eles a completa inutilidade da personagem do filho, Atom Egoyan consegue encontrar nesta história algo de interesse. O modo como ele realça isso é ainda mais surpreendente que a sua valorização de uma historieta de série B, pois, ao contrário de ir pelo caminho da estilização operática ou da excentricidade que, por exemplo, Paolo Sorrentino empregou num filme com semelhante premissa, Egoyan despe as situações do seu drama inerente. Nada na fotografia indica algo mais negro ou profundo que um telefilme sobre um idoso perdido, a banda-sonora melosa, mais do que intensificar o drama, parece criar uma sonolenta atmosfera de ininterrupta fluidez temporal, e os próprios ritmos erráticos das sequências sugerem uma intimidade mais modesta que explorativa ou lúrida.

Mesmo nos momentos mais ridículos de O Número, como uma visita à casa de um neonazi com a casa recheada de souvenirs do Holocausto e um pastor alemão chamado Eva, a direção de Egoyan evita as mais fáceis estilizações de thriller. Isto tem o duplo efeito de produzir um interessante anti dramatismo, ao mesmo tempo que expõe de modo bem vistoso as maiores deficiências do texto, mas é aí que Plummer entra em modo de salvamento. Dizemos isto pois é na prestação do veterano da grande tela que as insanas reviravoltas do enredo encontram o peso da real tragédia humana. Na página, esta história pode parecer risível, mas quando a vemos a ser vivida na face rugosa de Christopher Plummer, não há qualquer sugestão de humor, ridículo ou qualquer leveza imprópria.

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Já muito elogiámos o trabalho do protagonista, mas também convém salientar que o elenco em seu redor não é nenhuma mediocridade paupérrima. Pelo contrário, com atores do calibre de Bruno Ganz e Martin Landau, Plummer está em muito boa companhia. Só é pena que, devido aos limites do texto, nenhum desses outros atores de peso tenham muito que fazer durante o filme. Landau, em particular, é abjetamente desperdiçado por Egoyan, especialmente quando um twist final revela uma acrescida importância ao seu papel de Max, um amigo de Zev, coconspirador e também ele um sobrevivente do pesadelo de Auschwitz.

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Se há algo de consistente no discurso até agora argumentado, para além da qualidade interpretativa de Plummer, é que o argumento é o grande inimigo deste filme. Pois bem, isso nunca se adivinha mais incontornável que no final, uma explosão de absurdas reviravoltas tão descaradas que seria quase amoral escrever uma análise de O Número sem avisar os espetadores da sua venenosa existência. Sem cair em desnecessários spoilers, basta dizer que esta obra possui um twist ending tão previsível que lhe chamar twist parece ser inapropriado, ao mesmo tempo que é tão estúpido que até M. Night Shymalan pensaria duas vezes antes de o colocar num dos seus filmes. Ainda bem que Christopher Plummer se mantém em cena quase até ao último minuto pois, sem contar com a mestria do seu trabalho, é difícil resistir à tentação de abandonar navio quando a narrativa finalmente descarrila.

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O MELHOR: A fragilidade física e mental que Plummer sugere e que Egoyan utiliza de modo bem inteligente como numa cena dentro de uma loja de armas que, graças ao trabalho do ator, passa de um ponto de paragem estrutural a uma mordaz comédia satírica de alguns minutos.

O PIOR: O argumento, especialmente a sua desastrada e patética reviravolta final.



Título Original:
 Remember
Realizador: Atom Egoyan
Elenco:
  Christopher Plummer, Martin Landau, Henry Czerny, Bruno Ganz, Dean Norris, Jürgen Prochnow

NOS | Drama, Thriller | 2015 | 94 min

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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