O Clube, em análise

O Clube de Pablo Larraín é uma monstruosa parábola sobre a podridão moral e humana que infeta um grupo de padres cujos crimes são escondidos pela Igreja Católica no Chile da atualidade.

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Com a iminente chegada do realizador chileno Pablo Larraín ao cinema mainstream de Hollywood com o seu docudrama sobre Jackie Kennedy, é incrivelmente desconcertante experienciar os horrores de O Clube, um dos seus mais recentes filmes a causar furor nos circuitos dos festivais de cinema internacionais. Este é um filme que nada tem do brilho fácil de digerir de um drama americano, mas que, em compensação, é portador de uma atmosfera e temática que quase parecem sufocar a audiência à medida que esta é subjugada à sua história de abusos e desumana crueldade.

Logo a partir dos primeiros minutos de filme a audiência é convidada a se aperceber do desconforto a que está prestes a se sujeitar. O conteúdo das imagens não parece, inicialmente, ser razão de alarme. Nelas, vemos um grupo de padres já idosos ou nos finais da meia-idade que vivem em conjunto no que parece ser uma espécie de pequeno mosteiro junto ao mar. Todos estão sob o cuidado e guarida de uma freira e em toda a sua rotina, apenas parece destacar-se a presença de seu cão, um galgo de corridas. No entanto, apesar desta aparente comunidade de inofensivas pessoas, a câmara de Larraín faz questão de destruir qualquer ordem natural nesta realidade, apresentando-a em ângulos que distorcem o espaço, escolhas de iluminação que bloqueiam a cara dos atores e obscurecem o ponto-de-vista da audiência, assim como uma paleta cromática extremamente limitada, e que parece reduzir todo este ambiente costeiro a um gélido limbo onde a luz do sol não consegue chegar.

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Com a chegada de um novo padre, a infernal formalidade de O Clube começa a justificar-se. Esta nova presença depressa traz consigo desconfortáveis revelações e a audiência vai-se apercebendo da realidade desta pequena comunidade religiosa. Todos os sacerdotes aqui presentes estão como que enclausurados e escondidos pela igreja. Alguns deles são pedófilos, enquanto outros cometeram crimes humanos durante o regime de Pinochet, como raptar bebés de suas mães pobres e solteiras.

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Ainda no início do filme, este novo padre é confrontado com as acusações gritadas de um pescador que se põe a proclamar em frente à casa onde os padres vivem, os obscenos abusos sexuais que foram cometidos a ele em criança. Olhado com fúria mesmo pelos seus companheiros de habitação e reclusão, o religioso sai à rua, mas ao invés de afugentar, negar ou tentar apaziguar sua enfurecida vítima do passado, dá um tiro em si próprio. Com este prólogo de esmagadora violência verbal, emocional e espiritual, O Clube realmente inicia a sua estrutura narrativa, que se baseia na interrogação de cada um dos indivíduos da misteriosa casa católica pelo Padre Garcia, um sacerdote enviado pela igreja para investigar o suicídio e o comportamento dos padres escondidos nessa habitação.

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Graças ao seu magistral elenco, encabeçado pelas prestações estrondosas de Antonia Zegres e Alfredo Castro, Pablo Larrain constrói em O Clube, um retrato doentio da perversa corrupção, amoralidade e desumanidade que se entranham na instituição da igreja católica contemporânea. O Padre Garcia pode tentar que os padres escondidos lhe confessem seus crimes e encarem a realidade dos males que fizeram, mas acaba por se tornar óbvio que para a maior parte destes indivíduos tal confissão não passa de um ritual vácuo e que os males que se abatem sobre eles e sobre toda instituição a que pertencem, precisam de muito mais que o arrependimento individual para se resolverem.

Em cenas genialmente repetitivas, Larraín vai escavando os recantos mais sombrios da hipocrisia das suas personagens, mas o que vai revelando na sua exploração não é alguma humanidade latente, mas sim mais profundezas de crueldade e apatia. As faces dos atores são progressivamente dilaceradas pela câmara que parece tentar neles encontrar algo inefável, Talvez uma sombra de compreensão ou genuíno arrependimento, mas, tal como Garcia, tal observação apenas parece revelar mais podridão, tão grande e persistente que mesmo o observador começa a ficar contaminado. Sim, pois na sua final conclusão, em que o filme junta crueldade animal à sua lista de horrores, O Clube não deixa de implicar Garcia no espetáculo de putrefação oral e ética em cena.

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Um final golpe de perturbador génio da parte de Larraín e seu elenco, é mesmo o modo como é exatamente a inesperada crueldade animal que consegue despertar alguma emoção e mágoa da parte dos padres, mesmo quando são eles que estão a usar a violência como modo de manterem seus segredos e paz. Depois de tudo o que ouvimos, parece que estes homens não têm empatia para com nenhuma das suas vítimas, descartando a sua dor como algo desinteressante e mostrando muito mais compaixão para com um pobre cão, cuja proficiência na pista de corridas sempre pareceu ter mais valor para os padres que a vida do animal em si.

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Depois de Tony Manero, Post-Mortem e Não, Pablo Larraín finalmente deixou para trás a história dos traumas do regime de Pinochet, mas as cicatrizes de tais mágoas nacionais continuam a sentir-se no inferno de O Clube. Aqui, esta inigualável voz do cinema chileno constrói a sua mais impiedosa obra-prima, expondo uma injustiça humana e institucional com todo o desconfortável horror que tais temas merecem, quer seja de um ponto de vista formal, quer seja de uma perspetiva emocional. A experiência final de O Clube é, portanto, algo profundamente desagradável e cruel para a sua audiência, mas para quem estiver disponível a tais torturas cinematográficas, este é certamente um dos mais singulares e impactantes filmes do ano.

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O MELHOR: O modo pouco ortodoxo com que Larraín filma as suas personagens, revelando a sua monstruosidade interior e expondo também quão desequilibrado e enlouquecido é o mundo que permite que estes crimes ocorram e permaneçam escondidos e impunidos.

O PIOR: Com a sua sufocante formalidade, prestações taciturnas e desconfortáveis, e geral horror de sua história, O Clube é uma obra de tal forma alienante que consegue obscurecer o propósito da sua própria crítica social e religiosa.


 

Título Original: El club
Realizador:  Pablo Larraín
Elenco: Alfredo Castro, Roberto Farías, Antonia Zegers
Alambique | Drama | 2015 | 98 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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