A Bluey tornou-se um daqueles fenómenos raros: um desenho animado que os miúdos adoram e os pais não fingem gostar, gostam mesmo. Eu confesso que adoro esta série, e acredito que os adultos encontrem significados e detalhes incríveis numa série que é para crianças. Por isso, cada novo jogo da cadela azul mais famosa da Austrália é acontecimento cá em casa e no mundo inteiro. Basta ver que para o ano será lançado o filme nos cinemas e espera-se que seja um dos filmes mais vistos do ano! Voltando aos videojogos, o mais recente, o Bluey’s Happy Snaps, saiu a 15 de outubro e faz algo muito inteligente: em vez de repetir aventuras da série, transforma o universo da Bluey num jogo de fotografia. A questão é que resulta mesmo muito bem!
Ficha do jogo
- Estúdio: Gameloft Brisbane (com a Ludo Studio e a BBC Studios) · Editora: Gameloft
- Género: aventura de fotografia, para a família
- Plataformas: PS5, PS4, Xbox Series X|S, Xbox One, PC (Steam/Epic), Switch e Switch 2
- Lançamento: 15 de outubro de 2026
- Jogadores: 1 ou 2 (cooperativo local)
- Extras: disponível no Game Pass desde o primeiro dia (Xbox)
- Preço: ~40 € (edição normal) · ~55 € (edição Deluxe, com conteúdos e roupas extra)
A premissa
A história é tão simples quanto divertida, e isso é um elogio dos melhores que podemos dar a um jogo para crianças muito jovens. A Bluey e a Bingo descobrem a velha câmara Polaroid do pai, o Bandit, que a arranja e lha devolve para tirarem fotografias nas suas aventuras em família. O que começa como um passeio no parque abre-se depois a vários locais, todos familiares a quem vê a série, com um único objetivo: encher a caderneta de cromos de cada sítio. Não há grande narrativa, nem é preciso. É um pretexto perfeito para explorar o mundo da Bluey. Este é, aliás, o foco do jogo: exploração simples e divertida.
Como se joga
O coração do jogo é a fotografia, e é tudo muito intuitivo. Andas pelos cenários e, com um botão, entras numa vista na primeira pessoa; mexes a câmara e disparas. Cada local tem uma caderneta com cromos para colecionar, que ganhas ao fotografar animais, pontos de referência, amigos e acontecimentos assinalados. Alguns cromos exigem que interajas com o mundo. Num nível, por exemplo, tens de passar a câmara ao Bandit e marcar um golo de futebol para conseguires a foto certa. E não é difícil. O jogo sabe bem qual é o seu público alvo e a dificuldade que deve ter.
Entre os níveis há secções “de carris”, à boa maneira do Pokémon Snap, em que tens de fotografar um certo número de coisas antes de o tempo acabar. Há fotos secretas para descobrir (que desbloqueiam itens de decoração), mini-jogos pelo meio (a certa altura jogas com as clássicas Avozinhas) e a possibilidade de personalizar e decorar com o que vais desbloqueando. Podes ainda alternar entre a Bluey e a Bingo com um simples toque, sem atrasos.
Feito à medida dos miúdos
É aqui que o jogo mostra que sabe para quem foi feito. Não te leva pela mão em demasia (há uma boa dose de “procura e encontra”), mas todos os cromos trazem pistas sonoras e visuais, o que garante que até as crianças que ainda não leem nunca ficam encravadas sem saber o que procurar. A dificuldade nunca chega a ser frustrante para os mais pequenos, e há até mensagens dos próprios criadores a lembrar que convém fazer pausas. É um daqueles raros jogos que consegue ser simples sem ser parvo: suficientemente fácil para os mais novos e, ainda assim, entretido para os pais. Como quase todos os bons jogos infantis, dá para jogar a dois em cooperativo local. Mas aqui é onde encontramos o ponto mais forte mas também o mais fraco do jogo. Este modo a dois é super divertido e faz todo o sentido para pais e crianças, mas o jogador que controla o segundo comando está muito limitado, o que não é um problema se for um pai, mas pode ser problema se for outra criança. Quem controla o segundo “boneco” anda pelo mundo e pode interagir com algumas coisas e fazer poses engraçadas nas fotos, mas é sempre o jogador 1 que usa a câmara e ativa os objetivos. Para pais que querem participar lado a lado, funciona; para dois irmãos que querem fazer tudo em igualdade, pode gerar uns “agora é a minha vez” a mais.
Apresentação: o grande triunfo
Se há coisa em que todos concordam, é que isto parece mesmo um episódio da série. A Gameloft usou um sombreamento “achatado” nos modelos 3D que faz as personagens e os cenários ficarem idênticos ao desenho animado, e o elenco original da série regressa para dar voz a tudo. Visitas a casa dos Heeler ao pormenor, o parque, a praia, o miradouro, um Hammerbarn recriado com todo o carinho (snags incluídos) e, pela primeira vez, consegues “olhar em redor” do mundo da Bluey, que é afinal Queensland, na Austrália, e está simplesmente lindo. É das recriações mais fiéis e cuidadas que já vi num jogo licenciado para crianças. Não parece um joguinho de telemóvel apressado para a consola; parece um produto feito com amor e que vale a pena aplaudir.
Onde falha?
Nenhuma análise séria fica completa sem pontos fracos, porque nenhum jogo é perfeito. Primeiro: é curto, com cerca de seis a sete áreas, e, depois de apanhares todos os cromos, há pouca razão para voltar, e os objetivos começam a saber a repetido na reta final. Por outro lado, podemos argumentar algo simples: uma criança para voltar, não precisa de um motivo forte. Ela vai jogar e continuar a divertir-se mesmo que tenha de repetir tudo novamente. Segundo: há bugs que deverão desaparecer, espero eu, com uma atualização. Em algumas plataformas (sobretudo na versão Xbox) houve quem tivesse de reiniciar o jogo, e a câmara pode, por vezes, deixar-te um bocado desorientado, com regras algo estranhas sobre o que pode ou não ser fotografado. Eu aqui não senti nada de muito frustrante, mas confesso que nesta parte o jogo não explica bem o que realmente podemos fazer. Não é que seja frustrante, mas por vezes sentimos essa limitação. Terceiro, uma nota de valor: alguns conteúdos, como o adorado mini-jogo das Avozinhas, ficam trancados na edição Deluxe, mais cara, cerca de 15 euros. Nada disto estraga a experiência de uma criança, mas convém saberes. Contudo, acho que vale a pena gastar mais 15 euros para ter os extras. A cerca de 40 € na edição normal (e 55 € na Deluxe), está na faixa habitual destes títulos familiares. Obviamente que depende de cada criança, mas uma em jovem idade que adore a Bluey, dificilmente não irá adorar este jogo! Por fim, um detalhe que não é assim tão pequeno. No áudio não temos as vozes portuguesas, apenas temos a versão inglesa para crianças mais crescidas, ou a versão brasileira em que percebemos tudo com facilidade mas, não é o mesmo que ouvir as vozes portuguesas a que estamos habituados. Não estraga a experiência, as crianças jogam tudo na mesma com facilidade, mas vale a pena saber.
Veredito: para quem é
Bluey’s Happy Snaps é exatamente o que um bom jogo da Bluey devia ser: uma aventura de fotografia luminosa, calma e cheia de diversão, tão fiel à série que por vezes custa a acreditar que não estamos a ver um episódio. A ideia da câmara é inspirada, a apresentação é impecável e a jogabilidade é simples o suficiente para qualquer criança pegar nela em segundos. Recomendo-o sem reservas a quem tem em casa um fã da Bluey e, convenhamos, isso é meia Portugal com filhos pequenos. É encantador, educativo à sua maneira e uma boa desculpa para te sentares a fotografar o mundo da Bluey ao lado dos teus miúdos. Se procuras profundidade, desafio ou muitas horas de rejogabilidade, ou se não és fã da série, este não é o teu jogo, obviamente, mas também nunca prometeu sê-lo. Para o pequeno fã da Bluey lá de casa, porém, é um dos presentes mais doces que podes dar esta época.
-
Bluey: Happy Snaps - 8.9/10
8.9/10



