Orgulho e Preconceito e Guerra, em análise

Em Orgulho e Preconceito e Guerra, Jane Austen ganha zombies e o romance de Elizabeth Bennett e Mr. Darcy ganha inéditos e incongruentes níveis de carnificina sobrenatural.

A história de amor entre Elizabeth Bennett e Fitzwilliam Darcy é imensamente famosa e influente, sendo que os impactos sísmicos do seu romance ainda se fazem sentir na contemporânea fórmula para a comédia romântica do cinema. No recente Orgulho e Preconceito e Guerra, estes dois apaixonados não encontram, contudo, o usual desenvolvimento da sua história, sendo que a narrativa satírica da autora inglesa é aqui complicada pela presença de uma infestação de mortos-vivos que, segundo o próprio filme, alteraram a história inglesa, resultando num mundo em que as filhas da aristocracia são enviadas para a Ásia de modo a se tornarem habilidosas guerreiras e onde Darcy é também ele um exímio guerreiro nesta luta sobrenatural. Afinal, este é um filme em que Darcy e Lizzie preferem o combate corpo-a-corpo como desenvolvimento da sua relação em prol dos duelos verbais que caracterizam as suas origens literárias.

Orgulho e Preconceito e Guerra

Logo a partir do primeiro momento de narração que o filme se propõe como uma hilariante subversão da celebrada obra de Jane Austen, ao pegar na sua icónica primeira frase, sobre homens solteiros em posse de fortuna e seus interesses matrimoniais, e a tornar numa afirmação sobre o desejo de zombies por cérebros humanos. É precisamente neste tipo de absurda justaposição de ideias que o filme encontra as suas mais deliciosas glórias. É claro que isto é, essencialmente, apenas uma piada que se estende por mais de 100 minutos, mas, enquanto o filme se mantém disposto a encontrar humor no seu absurdo, a audiência encontra-se em boas mãos. Os problemas emergem quando os cineastas tentam sugerir algo mais sério.

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A segunda metade do filme, após o desastroso baile em Netherfield, é muito mais investida na “realidade” e no perigo em que as personagens se encontram, enchendo a narrativa com várias cenas de sufocante exposição, momentos emocionais que nunca são realmente justificados e uma alarmante insistência em injetar alguma seriedade ideológica num filme que não tem a capacidade de conter tais intenções. Os derradeiros minutos da obra, ao amargarem o final feliz com uma irritante e descarada proposta de sequela, são particularmente maus e tonalmente incompetentes.

Orgulho e Preconceito e Guerra

Nesta terrível queda em inapropriada soturnidade, o filme relembra a entediante catástrofe que foi Diário Secreto de um Caçador de Vampiros , outro filme adaptado de uma obra do autor Seth Grahame-Smith e outra ensandecida mescla de tonalidades incompatíveis, nesse caso a história da guerra de secessão americana no lugar em que aqui temos uma das mais celebradas obras da literatura inglesa. Há que apontar, contudo, que este filme nunca alcança os píncaros de aborrecimento mortal dessa outra obra, conseguindo sempre manter algum semblante de leveza, mesmo nos seus momentos mais problemáticos. Na verdade, o filme faz infinitamente melhor figura quando é basicamente uma fanfic cómica e não uma séria aventura de ação com real perigo ou convolutas construções de um universo pouco convincente. Poder-se-ia mesmo dizer que o sucesso que Orgulho e Preconceito e Guerra consegue alcançar devém, não da boa dose de violência sobrenatural que tanto o caracteriza, mas da sólida base que lhe é intrinsecamente oferecido pelo génio literário de Jane Austen, cujos mecanismos narrativos continuam tão bem oleados no século XXI, como o estavam há duzentos anos.

Mas o que seria de Austen sem as suas coloridas personagens? Para bem do filme, o elenco nele reunido oferece uma agradável coleção de prestações que, nunca sendo de particular virtuosismo ou complexidade, são perfeitas para este tipo de exercício sardónico. Matt Smith e Lena Heady como Mr. Collins e Lady Catherine são de particular destaque, completamente aproveitando esta oportunidade para criarem loucas caricaturas de desconforto social e uma majestosa hostilidade, respetivamente. Também Lily James, como Elizabeth Bennett, é um trunfo do filme, ancorando toda a narrativa com um trabalho que evita o exagero, apoiando-se numa passiva simplicidade que é curiosamente excelente para o seu ambiente e propósito na estrutura do filme.

Orgulho e Preconceito e Guerra

Infelizmente, nem todos os atores são tão aptos neste tipo de relaxada estilização como Smith e Heady, ou tão luminosos no seu simples carisma como James. A maioria das restantes irmãs Bennett, por exemplo, são quase que invisíveis na sua crónica falta de caracterização, servindo mais como modo de apaziguar quaisquer objeções que pudessem surgir caso os autores decidissem eliminar estas personagens do cânone de Austen. Também Sam Riley como Mr. Darcy é um peculiar fracasso de soturnidade não modulada e um registo vocal que poderia ser uma paródia do Batman de Christian Bale, caso houvesse algum rasgo de comédia na abordagem do ator.

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A um nível mais técnico e formal, há que reconhecer como grande parte do caché humorístico do filme depende da sua mistura do conteúdo de Austen, e sua convencional concretização visual, com incongruentes devaneios estilísticos na forma de uma linguagem que mais se aproxima do cinema de terror mainstream que do romance de época. No entanto, tirando esse contraste, o filme tem pouco para oferecer às suas audiências, sendo pouco inspirado nas suas escolhas mais técnicas, com apenas a criação dos vários zombies a demonstrar alguma formalidade interessante. Aliás, são mesmo os mortos-vivos e sua carnificina canibal que realmente avivam a construção cinematográfica do filme, oferecendo oportunidades para momentos de palpável tensão ou algumas esporádicas passagens de humor negro expresso em imagens minimamente desconcertantes.

Orgulho e Preconceito e Guerra

Orgulho e Preconceito e Guerra baseia-se numa obra que foi um instantâneo sucesso aquando da sua original publicação, pelo que se poderá supor que o filme terá algum prazer para oferecer à generalidade das audiências. Independentemente das suas fragilidades tonais e formais, como um fascinante artefacto da atual cultura popular esta é uma irresistível delícia. Como uma obra satisfatória de cinema, é claro que o filme deixa bastante a desejar, mas, para fãs de Jane Austen que não se importem com o jovial acrescento de zombies canibais no meio do seu romance satírico, este filme será certamente uma prazerosa sobremesa cinematográfica. Pode não estar muito bem concebida, nem ter grande conteúdo nutritivo, mas pelo menos é momentânea e agradavelmente doce e bastante fácil de engolir.

 


Título Original: Pride and Prejudice and Zombies
Realizador:  Burr Steers
Elenco: Lily James, Sam Riley, Matt Smith
NOS | Drama, Comédia, Romance | 2015 | 107 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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