"Orphea" | © LEFFEST

LEFFEST ’20 | Orphea, em análise

A seleção competitiva do 14º Lisbon & Sintra Film Festival conta com uma variada oferta de filmes, desde a narrativa clássica às antípodas do cinema experimental. “Orphea”, um ensaio audiovisual sobre o mito órfico, encaixa-se mais na segunda categoria.

O mito de Orfeu e Eurídice é uma dessas histórias condenadas a ser contada e recontada ad nauseam até ao fim da Humanidade. Inúmeros são os artistas que já tentaram a sorte com uma versão do trágico romance. Alguns modernizaram a dinâmica, explodiram-na em canção ou teceram melodrama épico com base no sofrimento desses Gregos lendários. Só para constar dois exemplos, chamemos atenção para “Orfeu Negro” e “Hadestown”.

O filme de 1959 é uma luxuriante transposição do mito órfico para o Rio de Janeiro, adaptando os paradigmas da lenda a uma história de amor rica em especificidade racial e cultura colorida. A obra é um clássico e até ganhou o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro. “Hadestown” é um musical da Broadway que também conquistou muito ouro através de uma renovação do mito, agora tornado numa alegoria com cheiros de Grande Depressão e neofascismo na era de Trump.

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São gloriosos feitos de cinema e teatro que demonstram bem a plasticidade desta história. Gostaríamos de dizer que “Orphea”, um novo filme experimental de Alexander Kluge e Khavn De La Cruz, se junta ao panteão de arte derivada de Orfeu. Infelizmente, apesar de boas ideias e boas intenções, esta nova desventura do mito clássico pelos caminhos retorcidos dos tempos modernos deixa um pouco a desejar. A premissa basilar, contudo, tem muito mérito.

Em primeiro lugar, os cineastas inverterem os géneros das personagens. Ao invés do poeta Orfeu e sua amada Eurídice, temos Orphea e Euridiko, estrelas de um musical rock filipino. Esse gesto pode parecer menor, mas contém em si um interessante desafio aos arquétipos que nos definem os paradigmas da paixão dramatizada. Contudo, assuntos de género não parecem interessar muito a Kluge.

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A filmografia recente desse antigo astro do Novo Cinema Alemão tem vindo a explorar os limites da cultura numa era em que arte é reduzida a conteúdo para consumo e cópia mecanizada. Assim sendo, “Orphea” é mais tratado académico que romance antigo ressuscitado. Extravasando o mito com uma série de referências filosóficas, históricas e culturais, Kluge e De La Cruz, desconstroem a ideia de contar histórias.

Sentimos, por isso, que a escolha de Orfeu e Eurídice é um pretexto para o estudo ao invés da razão dele mesmo. Os artistas aparentam ter escolhido o mito pela sua afinidade com a ideia poética, preferindo ruminar sobre a ideia do mito do que sobre a narrativa em si. Através de karaoke de verso germânico, transições tiradas do Power Point e green screen propositadamente mal feito, “Orphea” vai para além de desvendar o seu artifício.

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Trata-se de uma máquina que existe só para exibir suas engrenagens, mas que, na realidade, é incapaz de funcionar para além do espetáculo escultórico. Um robot que não se mexe, um filme estagnado por uma estranha falta de curiosidade. Longe de apresentarem um diálogo de ideias, a obra mostra conclusões já feitas, sensabor e sem persuasão. Enfim, o filme ensaio é um fenómeno típico do cinema experimental e Kluge e companhia decerto que se inserem nesse panorama da sétima arte.

A experiência não tem de ser rudimentar para ser eficaz. De facto, “Orphea” seria muito mais interessante se levasse as suas ideias imagéticas ao rubro do primor audiovisual. O que separa este ensaio dos ensaios experimentais de Godard, por exemplo, é que o enfant terrible da Nouvelle Vague estilhaça os preceitos artísticos através de visões e sons assombrosamente belos. Por outras palavras, “Orphea” não chega aos calcanhares do “Rei Lear” de Godard. Esse trabalho é uma subversão que tem coragem de ser bom cinema. “Orphea”, em comparação, transborda covardia ou, pior, displicência.

Orphea, em análise
orphea critica leffest

Movie title: Orphea

Date published: 21 de November de 2020

Director(s): Khavn, Alexander Kluge

Actor(s): Lilith Stangenberg, Ian Madrigal

Genre: Drama, Fantasia, Música, 2020, 99 min

  • Cláudio Alves - 50
50

CONCLUSÃO:

Uma ideia fascinante que devia ter sido mais trabalhada. Talvez “Orphea” pudesse ter sido uma curta-metragem interessante. Contudo, nada na sua construção justifica a sua entediante duração. Funciona melhor como uma lista ensaística de ideias sobre reprodução artística do que como um objeto de cinema.

O MELHOR: As montagens fotográficas são os momentos mais interessantes do filme, refratando um simples movimento de câmara em soluços de stop-motion.

O PIOR: Por vezes, só o conteúdo provocante da imagem parece interessar aos cineastas. A plasticidade inerente ao fotograma cinemático, sua composição e mise-en-scène, por seu lado, são terrivelmente ignorados.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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