Os Bórgias T3 – Em Análise

 

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  • Título Original: The Borgias
  • Produtores: Showtime
  • Criadores: Neil Jordan
  • Elenco: Jeremy Iron, François Arnaud, David Oakes, Sean Harris, Colm Feore, Holliday Grainger, Lotte Verbeek, Joanne Whalley
  • Género: Drama, Crime, History
  • 2011| EUA | AXN Black HD | 21:35

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“A Última Lição De Uma Vingança Elegante”

 

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Neil Jordan, o mestre dos enredos mirabolantes realiza aqui o seu derradeiro brinde de exaltação, encerrando principescamente o círculo de tramóias faustosas e hediondas cozinhadas numa caçarola com malaguetas em ebulição. E se há coisa que podemos esperar sempre nos Bórgias, é a disseminação contínua de um novo vírus aracnídeo, prestes a enredar a sua teia cremosa no último ovo da trama acabada de fecundar.

Não estivesse o Papa Alexandre VI (Jeremy Irons) quase a bater a bota no leito de todos os milagres, seria de estranhar um desfecho tão consentido e antecipado. Enquanto as ratazanas eclesiásticas rezavam o salmo da conspiração e faziam figas na “casa das apostas”, Lucrezia Borgia (Holliday Grainger) é forçada a recorrer aos métodos obscuros da feitiçaria para resgatar o seu extremoso pai das bocas do inferno. Tais línguas compridas que engolem a seco depois de goradas as suas expetativas de livrar Roma da sua “rameira” suprema. Claramente que Rodrigo Borgia beneficiou do ferro invergável do ator que lhe dá vida, mas trocadilhos à parte, os derrotados do dia: o Cardeal Della Rovere (Colm Feore) e Catherina Sforza (Gina Mckee) vão colher os cacos do seu plano destroçado, para gáudio das feras espanholas famintas pela oportunidade de desforra.

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Ressuscitado das trevas, Rodrigo exige a cabeça de todos os implicados na maquinação do seu assassinato, começando por desinfetar o ninho de vespas que proliferam no Colégio de Cardeais. E já os bufos começavam a sentir a pressão da denúncia para salvar a sua pele valiosa, e a viúva negra de Forli (Catherina Sforza), tecia a sua nova tripla aliança junto dos grandes barões mercenários da Romagna. Mas nem tudo são favas contadas no reino dos perdedores, com o mal casado rei de França Luís XII (Serge Hazanavicius) a vociferar aos deuses um anulamento papal do seu matrimónio fedorento. Claro que tristezas não pagam dívidas, a não ser que Cesare Borgia (François Arnaud) obtivesse um dote feminino junto do Arcebispo Georges D’Amboise (Edward Hogg) como ato de boa-fé para liderar o temível exército françês contra o arqui-inimigo comum.

Até agora, tínhamos assistido a um papado vistoso e agressivo mas o recente atentado à vida de Sua Santidade, enfraqueceu o estoicismo do seu coração de toureiro. Mais discreto e devoto à linha de pensamento passivo-agressiva, iremos lidar com um Jeremy Irons mais cauteloso e paciente que arma as suas ciladas no silêncio da noite, numa conferência ainda mais restrita de intimidade e secretismo. Por seu turno, François Arnaud tal como qualquer filho que anseia libertar-se do domínio parental, irá assumir pessoalmente as despesas do contra ataque ambicioso, relegando qualquer aval superior para a sombra secundária dos seus planos independentes. Indubitavelmente, apesar de verificarmos uma ligeira azia na relação de ambos, a verdade é que as duas mentes Borgianas acabam por convergir no mesmo propósito final.

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E se os homens de armas encontram-se demasiado entretidos com o xadrez do poder, as mulheres também não se julgam rogadas à subserviência masculina. Antes pelo contrário, se considerarmos o papel relevante atribuído a Giulia Farnese (Lotte Verbeek) em questões de estado e família, ou até mesmo a emancipação meteórica de Lucrezia, que faz valer os seus direitos de mãe até às últimas consequências; facilmente percebemos a atenção prestada pelo criador da série a mulheres que reforçaram o seu poder por se rebelarem contra a autoridade.

Os Bórgias são um bando de pistoleiros que vivem à grande e à espanhola, naquele novo bordel de cinco estrelas recém-inaugurado na Praça de São Pedro. E se Deus permitiu tal blasfémia injuriosa, Neil Jordan que redigiu o quinhão maior dos episódios desavergonhados, só teve de armar a tenda e filmar a “senhora das escadas” a limpar o chão empestado de sujidade e podridão. Aqui Jordan favorece um estilo de filmagem mais intrínseco, confinando os diálogos a espaços mais reservados entre portas ou locais escondidos no meio da multidão, elevando a capacidade multiplicadora do rumor sussurado que ainda não é verdade. Uma tendência hedonista que vai montando o seu ponto de clímax nas camadas sucessivas de imoralidade e devassidão, até o céu estar exausto de tantas barbaridades que só poderiam dar canal. Enquanto drama medieval para finórios e novela mexicana sem dobragens, a família criminosa consegue proporcionar um espetáculo de se lhe tirar o chapéu, pavoneando as fatiotas janotas e dispendiosas da época ao sabor da brisa orquestral de Trevor Morris, o galardoado compositor de Hollywood.

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A lição termina conforme começou, a praguejar o “sushi” de todas as vinganças, no prato mais gélido de todos com o empratamento mais elegante do mundo.

P.S – Ser Bórgia, é como limpar o traseiro num rolo de seda…

MS

Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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