Os Sete Magníficos, em análise

Uma nova versão do western ‘Os Sete Magníficos’ (1960), de John Sturges, estreia nas salas, desta vez dirigida por Antoine Fuqua (‘Dia de Treino’), num filme com muito tiroteio, mas impregnado de correção política e multiculturalismo. E isto até no elenco de estrelas e ‘durões’, onde se destacam: Denzel Washington, Ethan Hawke e Chris Pratt. 

Os Sete Magníficos

Os Sete Magníficos estão de regresso para salvar o mundo, embora seja um acontecimento cinematográfico muito pouco original. Já o era o western dirigido por John Sturges em 1960, — tinha um título maravilhoso em brasileiro Sete Homens e um Destino — que se tornou-se famoso mais pelo genérico musical de Elmer Bernstein, que quase define o género western, mais de que tudo o resto no filme: era um remake de Os Sete Samurais, do realizador japonês Akira Kurosawa (1954). Embora para muitos Os Sete Magníficos ainda seja o filme que mostrou ao mundo que não existia apenas John Wayne no western norte-americano e que tem algumas das ‘deixas’ mais cínicas da história do cinema.

Os Sete Magníficos
‘Os Sete Magníficos’, no original de John Sturges (1960).

A propósito não há por aí umas cópias restauradas dos originais para estrearem em simultâneo, porque valia a pena (re)ver Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa e Os Sete Magníficos, de John Sturges?

Vê BSO de Elmer Bernstein

Esta nova versão de Os Sete Magníficos, de Antoine Fuqua é mais um produto de laboratório pensado pela indústria de cinema americana, num filme politicamente correto, destinado a seduzir todos os segmentos demográficos que constituem o seu público potencial, quer nas diferentes comunidades americanas, quer no mundo inteiro. Não é por caso que no seu renovado elenco aparecem um afro-americano (Denzel Washington), um latino (Manuel Garcia-Rulfo), um asiático (Byung-hun Lee), um ameríndio (Martin Sensmeier) e uma mulher (Haley Bennett).

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Um filme feito à medida de Denzel Washington.

Mais do que uma autêntica mensagem política, este gesto parece traduzir a necessidade crescente de Hollywood, em seduzir sem grandes riscos um número máximo de espectadores e mercados e, assim garantir o mais rápido possível um êxito de bilheteiras. Curioso, é que a estratégia não é muito diferente da de uma campanha de um candidato à presidência, ou de um partido político, em tempo de eleições.

Vê trailer de Os Sete Magníficos 

O argumento, desta nova versão — escrito por Nic Pizzolato, o criador da série True Detective — é de facto muito diferente do original protagonizado por Yul Brynner, Steve McQueen, James Coburn, Charles Bronson, Eli Wallach e Robert Vaughn. Nesta nova versão de 2016, quem pede ajuda aos pistoleiros que dão título ao filme não são os pobres mexicanos da fronteira com o Texas, mas antes cidadãos norte-americanos de uma pequena cidade do oeste, eliminando logo uma incómoda e preconceituosa relação de subordinação ética e social, —  em relação aos mexicanos — que existia no filme original. O povoado atemorizado está agora localizado do outro lado da fronteira no oeste profundo, onde um grupo de bandoleiros fazem a vida negra a uma população de agricultores, gente decente e trabalhadora que não tem praticamente nada, além das suas terras de cultivo. Os sete foragidos que dão título ao filme são contratados para defender a essa população indefesa de um poderoso senhor, que lhe quer à força tirar-lhes as terras, para desenvolver uma exploração mineira.

Os Sete Magníficos
Chris Pratt é Josh Faraday, numa boa interpretação.

Além do elenco de estrelas já referido acima estão também Ethan Hawke — um actor repetente nos filmes de Fuqua — com um papel importante no filme: um viciado e alucinado pistoleiro consumidor de ópio que tem visões; aliás como Peter Sarsgaard que interpreta o vilão que encarnava Wallach na versão de Sturges, Chris Pratt, quase o co-protagonista com Denzel Washington, num misto do papel interpretado pelo cool Steve McQueen e pelo irreverente Horst Buchholz — que tinha 17 anos na altura — e um transfigurado Vincent D’Onofrio. A música, é da autoria do falecido James Horner — sem a grandiosidade da original — que assinou aqui o seu último trabalho, antes do seu desaparecimento. O poderoso elenco composto por um grupo de estrelas de cinema e da televisão não se repercute evidentemente no resultado final, marcado por um multiculturalismo só de fachada. Os personagens pertencentes às minorias étnicas não são mais do que meros figurantes, com a notável excepção de Denzel Washington. A bela e justiceira viúva (Haley Bennett) que contrata os pistoleiros nem sequer faz parte, tecnicamente, dos sete titulares que protagonizam o filme, aliás como o seu pretendente um bem-parecido agricultor (Luke Grimes), que a segue como um criado, e que não chega sequer a ser um verdadeiro personagem.

Os Sete Magníficos
Muita acção, tiroteios e puro entretenimento.

Destacam-se no entanto algumas boas cenas clássicas de pura amizade e cumplicidade masculina — típicas do western — sobretudo entre Washington e Hawke, que não são por acaso, pois os actores já trabalharam juntos várias vezes. E também vêem ao de cima os traumas psicológicos de algumas das personagens, marcados por uma cultura violenta, fundamentada sempre na lei do mais forte. São enunciados que se destacam fugazmente no filme para não prejudicar o estatuto de heróis à antiga que o realizador procura dar aos protagonistas: Os lavradores ganharam. Nós perdemos. Perdemos sempre, com diz na frase final Chisolm (Washigton), uma dos muitos cínicos gags, ditos pelos protagonistas e tirados do original. Pese embora os ares de modernidade que dar a Os Sete Magníficos, o realizador Antoine Fuqua nunca põe em causa o modelo ideológico do western clássico: a obsessão pela propriedade privada, o olho por olho, dente por dente como sistema de valores único dessa sociedade e, a vingança como forma perfeita de justiça.

Consulta : Guia das Estreias de Cinema | Setembro 2016

Os Sete Magníficos, de António Foqua (Southpaw),  é mais uma tentativa de actualizar a história original de Kurosawa, e o clássico de Sturges, dando-lhe uma visão contemporânea e falando indirectamente de questões actuais como o terrorismo, o abuso de poder; e sobretudo da necessidade e do ideal de aparecerem ‘homens fortes’ que apesar de tudo, nos defendam e protegem contra estes males da humanidade. No entanto, por mais leituras que se tenham esta versão de Os Sete Magníficos, o filme não é outra coisa senão puro entretenimento, a presença e a notável interpretação de Denzel Washington.

O MELHOR: Denzel Washington com sempre e um surpreendente Chris Pratt;

O PIOR: Com tantas histórias originais para contar que podem dar dinheiro, chega de remakes!


Título Original: The Seven Magnificent
Realizador:  Antoine Fuqua
Elenco: Denzel Washington, Ethan Hawk e Chris Pratt 
NOS | Western | 2016 | 132 min

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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