20º Queer Lisboa | Absolutely Fabulous: The Movie, em análise

A 20ª edição do Queer Lisboa começou em grande com a estreia cinematográfica (um remake francês não conta) das mais decadentes divas da televisão britânica em Absolutely Fabulous: The Movie.

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Antes de se dizer o que quer que seja sobre Absolutely Fabulous: the Movie, há que se esclarecer uma coisa muito importante: este não é um filme para os não iniciados no culto de Patsy e Edina. A simples proposta de um filme sobre as personagens e o mundo da série britânica, que estreou há quase um quarto de século na BBC, deverá anunciar o projeto como um objeto feito especificamente para os seus fãs, mas Jennifer Saunders leva isso ainda mais longe. A protagonista, argumentista e criadora, tanto da série como do filme, concebeu uma obra perfeitamente hermética, onde desfilam quase todas as personagens recorrentes que alguma vez se passearam pelos enredos estrambólicos dos tempos televisivos de AbFab. Poder-se-ia mesmo dizer que, quem não tiver visto as primeiras 3 temporadas, mais vale nem comprar bilhete, pois perceberá muito pouco do seu humor específico.

Tendo já alienado mais de metade dos leitores, continuemos a nossa análise. Em primeiro lugar, há que felicitar o trabalho de Saunders e de todo o elenco. É um verdadeiro milagre que, depois de todos estes anos, a comediante ainda consiga escrever estas personagens de um modo orgânico que nunca trai as suas raízes televisivas, e que o elenco ainda consiga ser tão consistentemente engraçado e preciso. Joanna Lumley, em particular, raramente esteve tão brilhante como Patsy, a melhor amiga hedonista de Edina, uma relações públicas narcisista que passa a vida a tentar incluir-se no mundo das celebridades e da juventude popular. Quando Patsy finge ser um homem, numa clara referência a um flashback dos episódios mais antigos da série, Lumley é de particular excelência cómica sombreada com algumas boas doses de amarga sinceridade.

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É provável que seja pertinente esclarecer um pouco do enredo antes de avançarmos. Absolutely Fabulous: The Movie começa a meio de um caótico desfile de moda, onde Edina e Patsy entram com a graciosidade de um elefante numa loja de porcelanas. Rapidamente as vemos ir a mais festas e saídas noturnas, sendo que elas raramente se dão conta dos cacos humanos que são, a não ser no que diz respeito aos seus corpos envelhecido. Mas quando se vê na falência e com uma séria escassez de clientes relevantes, Edina cai num estado de desespero. Na sua angústia, ela tenta convencer Kate Moss a contratá-la como sua nova relações públicas. Infelizmente para a nossa desastrada protagonista, a conversa é prontamente abortada quando Eddie atira a modelo mais famosa do reino Unido para as águas traiçoeiras do Tamisa.

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Acusada de matar Kate Moss e perseguida, tanto pelas autoridades, como pela imprensa, trolls da internet e uma enraivecida Stella McCartney, Eddie decide fugir com a sua melhor amiga para a Riviera Francesa. Como Eddie não tem crédito e Patsy perdeu o emprego, elas raptam a neta da pressuposta assassina e levam-na na sua enlouquecida viagem, cujo objetivo aparente é reencontrar um antigo bilionário com quem Patsy em tempos teve uma relação. para que ele se case com ela e as duas amigas recuperem segurança financeira. Se julgam que este enredo já é demasiado estranho e anárquico para funcionar, então não conhecem o estilo de Saunders, que ainda consegue levar este duo, assim como muitas outras personagens, a extremos narrativos muito mais rebuscados e insólitos.

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Uma forte crítica que se pode fazer a este argumento cheio de enredos e subenredos, voltas e reviravoltas, cada uma mais doida que a outra, é que a anarquia e arritmia do resultado final fazem transparecer a ideia de um episódio televisivo que foi morbidamente esticado sem qualquer noção de estruturação cinemática. Tais críticas não estão erradas, mas, para fãs de Absolutely Fabulous, esta anarquia e confusão fazem parte do prazer de ver as aventuras destas duas endiabradas que, especialmente nos dias que correm, estão demasiado velhas para este tipo de insanidades. É como se o texto e a estrutura fossem um reflexo das suas personagens tanto como o seu humor, que é tão acídico e secamente britânico que ocasionalmente temos umas piadas que vão para além dos limites da decência e do politicamente correto. No entanto, muitos dos momentos mais desbocados têm uma contracorrente de acídica crítica social, especialmente no que diz respeito aos limites impostos pela sociedade educada as mulheres de uma certa idade.

Também astuta é a crítica de Saunders à indústria da moda, especialmente a inglesa, e ao mundo das celebridades vápidas que enchem as televisões de todo o mundo. Saunders entende a futilidade e estupidez destes universos, mas também é preceptiva o suficiente para apreciar o divertimento e glamour da moda e da celebridade, fazendo de Absolutely Fabulous, um esforço satírico estranhamente bem balançado entre voracidade gozona e empatia. Não é por acaso que o filme está cheio de cameos de celebridades que adoram o original televisivo ou que a indústria da moda esteja tão pronta a gozar consigo mesma neste contexto. Isso é particularmente notório, não nos cameos, mas nos figurinos que são ainda mais absurdos que os da série de televisão. A figurinista Rebecca Hale, que anda a vestir estas personagens há décadas, merecia um Óscar especial nem que seja apenas pela loucura que consegue encontrar nas propostas da moda contemporânea.

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Mesmo com todo esse espetáculo de futilidade em consideração, Absolutely Fabulous: the Movie consegue exibir alguns momentos sérios pelo meio. Uma das personagens que mais beneficia da insistência de Saunders em incluir alguma seriedade no argumento é Saffy, a filha de Edina, que agora tem basicamente a mesma idade que a mãe tinha no começo da série. Uma mulher de meia-idade que destruiu a sua vida ao tentar desagradar e contrariar a sua monstruosa figura maternal, ela é também a mãe de uma adolescente. Quando testemunhamos a sua reflexão sobre as escolhas que fez na vida e sobre as ações da sua mãe, existe uma profundidade peculiar, mas que se deverá provar agradável para quem for fã destas personagens. A própria Edina tem um momento de convoluta epifania, mas, como seria de esperar, os resultados de tal revelação pessoal não demoram muito até serem prontamente soterrados pelos seus impulsos mais epicúrios.

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É curioso pensar por que razão estas personagens são tão populares na cultura LGBTQ. Será que esta apreciação está presa ao seu valor camp, ou há algo mais envolvido? Uma coisa é certa, à medida que Patsy e Edina envelhecem, as suas ações tornam-se cada vez mais grotescas, mas, paradoxalmente, a sua ousadia e irreverência também se vai tornando mais admirável. Nos tempos que correm, em que a abertura do Queer Lisboa se torna também um palco para se homenagear uma tragédia recente, há algo de sublime em ver dois ícones queer a viverem tão desavergonhadamente e com tanto desprezo por quem as queira criticar ou reprimir. A certa altura, Patsy afirma que viver fabulosamente é a melhor vingança possível para com os haters do mundo. Sem ela se aperceber, esta toxicodependente viciada em cirurgias plásticas e modas ridículas, acabou por dizer algo que poderia bem ser um lema da comunidade LGBTQ na atualidade. Quem diria que se poderia encontrar algo tão impactante na mais desbocada e fabulosa comédia do Verão?

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O MELHOR: Quando as protagonistas explicam à neta de Edina, a razão pela sua indestrutível união e devoção uma à outra e ao seu estilo de vida – “Because it’s bloody fun”. Ámen!

O PIOR: Apesar da mestria de Lumley, Saunders não é tão boa a vender o seu texto e muitas das suas piadas, especialmente aquelas menos dependentes da sua decadente fisicalidade, acabam por se afundarem sem provocar um único riso.


 

Título Original: Absolutely Fabulous: The Movie
Realizador:  Mandie Fletcher
Elenco:
 Jennifer Saunders, Joanna Lumley, Jane Horrocks, Julia Sawalha, Marcia Warren
Queer Lisboa | Comédia | 2016 | 91 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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