Margot Robbie foge ao glamour em "Os Últimos na Terra".

Os Últimos na Terra, em análise

Os Últimos na Terra envolve-nos sedutoramente num triângulo amoroso regido por forças tão primitivas quanto a própria natureza.

Z for Zachariah” como foi batizado originalmente, não se afigura certamente como o nome mais sugestivo e consensual para uma fita pós-apocalítica, sem antes descobrirmos intrinsecamente a etimologia bíblica do seu significado. E tal como reza a crónica do Livro de Zacarias do Antigo Testamento, este “Zacarias” de Zobel, rouba-lhe a mística da reconstrução material e redenção humana. Baseado na obra homónima de Robert C. O’Brien e publicado postumamente pela sua mulher e filha em 1974, esta película fortemente enraizada na religião judaico-cristã, vai obrigar-nos a uma confissão introspetiva sobre a certeza do que somos hoje e a incerteza do que podemos ser amanhã. Por agora, o cenário americano deveria ser condizente com o de uma hecatombe nuclear, mas Zobel despiu a sua obra desse flagelo congestionado, refugiando-a entre os pinheiros mansos de um vale pacificador e o regaço de uma rapariga meiga e generosa.

“Tal como reza a crónica do Livro de Zacarias do Antigo Testamento, este “Zacarias” de Zobel, rouba-lhe a mística da reconstrução material e redenção humana.”

E é ali, algures no sopé montanhoso daquela alcatifa verdejante neozelandeza, que apanhamos o rasto recoletor de Ann (Margot Robbie) e do seu farrusco Faro. Maria-rapaz da cabeça aos pés com uma espingarda em riste e um sotaque ligeiramente sulista, sobrevive na solidão de uma quinta à luz das velas ao sabor de um vinil ultrapassado, e uma capela do tamanho de miúdos. Até que num dia como outro qualquer, sem rumo, sem expetativa, a patrulha por alimento dá de caras com um forasteiro ensacado num fato hazmat, maior que ele próprio, na berma da estrada. É, neste momento, que Loomis (Chiwetel Ejiofor) vocifera por um cúbico de ar limpo como um Grito do Ipiranga, antes de se submeter aos cuidados intensivos da jovem nativa.

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Enclausurado num complexo de investigação enterrado a dois quilómetros do subsolo, Loomis acordou para uma realidade vazia e decadente, aonde o toque humano e divino tornara-se radioativo. Mas quando um homem e uma mulher se cruzam no fim do mundo, o destino atrai-se a si próprio para unir as pontas soltas. A ligação da menina de coro com o cientista de laboratório constrói-se na enfermidade, enquanto a míngua afetiva amarra as crenças e descrenças num colete de forças suturado pela conquista diária de cedências mútuas. E embora o virtuosismo de Loomis possa oferecer luz à vida de Ann, o seu pragmatismo não lhe permite enxergar logo a mensagem da “semente cooperativa” – que Ann enverga desesperadamente na testa do seu boné ecológico.

“Enclausurado num complexo de investigação enterrado a dois quilómetros do subsolo, Loomis acordou para uma realidade vazia e decadente, aonde o toque humano e divino tornara-se radioativo.”

De uma decência solene coadjuvada por preconceito, Loomis vai ensaiando diariamente aquela cegueira da repressão amorosa dos mundos incompatíveis, enquanto a falsa inocência de Ann tenta seduzir o seu toque masculino por guarida e proteção. Plantam-se os campos de soja, retira-se o leite das tetas da vaca, colhem-se os ovos de galinha, até que um dia, no topo de uma colina enevoada, surge um detalhe de diabo em forma de gente destinado a minar o coração da rapariga rebelde. Caleb (Chris Pine), um mineiro desterrado que a natureza hostil esqueceu de eliminar, serpenteia-se trapaceiramente para o seio daquelas vidas mescladas à procura de aprovação, como um laivo de mal necessário e inevitável para se alcançar um bem superior.

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Três parece ter sido a conta que Deus fez para a criação deste novo mundo, mas cedo se vislumbra a instabilidade relacional de um número ímpar numa equação dual originalmente estabilizada. A química triangular vai à bolina do olhar de mil palavras de uma Margot Robbie que se entrega de corpo e alma a Ann como uma memória sua de “criança”, agregando na sua órbita um Chiwetel Ejiofor carismático e temperamental, que entra em rota de colisão com um Chris Pine sugestivo e agitador. E, é nesta harmonia de papel no fio da navalha, em que cada cabeça começa a fabricar a sua própria sentença, que a obra de Zobel vive constantemente assombrada por este espírito maligno de um Pecado Original.

“Três parece ter sido a conta que Deus fez para a criação deste novo mundo, mas cedo se vislumbra a instabilidade relacional de um número ímpar numa equação dual originalmente estabilizada.”

Os Últimos na Terra entranha-se na pele como um veneno silencioso que extasia os sentidos, e quando acordamos do feitiço já extrapolámos todas as emoções. Zobel provoca-nos com esta versão modernista de “Adão” e “Eva” num “Jardim do Éden”, que exibe esta beleza nua quase idílica de um local místico ansioso por inspirar a vida, mas que é ultrajado pelos impulsos selvagens de quem o habita. Naturalmente, a cinematografia apurada de Tim Orr é fiel a esse naturalismo estético, que enquadra o seu enfoque no embate cru e brutal das emoções humanas. No final, o bucolismo do som orgânico de Heather McIntosh clama por salvação, mas é de nós mesmos que temos de nos salvar e, é com essa mensagem moral, que Zobel triunfa mais do que qualquer outra deliberadamente implícita.

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O MELHOR – As interpretações profundas e sensíveis de Margot Robbie (Ann), Chiwetel Ejiofor (Loomis) e Chris Pine (Caleb).

O PIOR – Zobel embrulha o final com a suspeita de múltiplas interpretações.


Título Original: Z for Zachariah
Realizador:  Craig Zobel
Elenco: Margot Robbie, Chiwetel Ejiofor, Chris Pine
NOS | Drama | Sci-fi | Thriller | 2015 | 98 min

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MS

 

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3 thoughts on “Os Últimos na Terra, em análise

  • Gostei do filme, porém esse final em aberto eu não curti tanto. Talvez com um desfecho objetivo ficaria melhor.

  • Eu achei este filme em questão de teor mediano, o roteiro achei um pouco ocioso, com deslumbres desnecessários com relação a trama, pouco objetiva a narrativa que mais enrolou em diálogos inconclusivos que nos arrastam para um desfecho ilógico de inúmeras dúvidas em uma atmosfera pendente de configurações, ou seja, sem chances de preâmbulos que nos levem a pensar em como a trama se desenvolve após os créditos subirem em um ‘fade to black’.

  • O filme é bom… com muitas nuânces psicológicas e emocionais. Mas, o que me chamou a atenção, foi a análise do critico: extremamente rebuscada, ultrapassada e demasiada pseudo profunda, numa película que não pede por tudo isso…

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