Matthew Libatique Óscares 2019

Óscares 2019 | Quem é Matthew Libatique?

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Apesar de não ser famoso como os atores e realizadores, o diretor de fotografia de “Assim Nasce Uma Estrela”, Matthew Libatique, é um dos nomeados para os Óscares mais ilustres do ano.

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Na sua infinita sabedoria (ou será idiotice?), o canal televisivo ABC e a Academia de Hollywood decidiram que uma boa forma de melhorar a cerimónia dos Óscares seria cortar algumas das categorias mais “técnicas” da emissão televisiva. Alguns prémios seriam assim dados durante os intervalos, para encurtar o programa e manter o foco no que, aparentemente, interessa: estrelas de cinema e celebridades.

Trata-se de uma das piores decisões na História da Academia, despindo os Óscares do prestígio que os distingue e eleva acima de tantos outros prémios. Parte da razão pela qual estes prémios da Academia são tão relevantes e respeitados devém da sua insistência em reconhecer todos os aspetos importantes envolvidos na criação de cinema. É por isso que, em contraste, os Globos de Ouro, com seu foco míope em atores, têm a má reputação de serem um concurso de popularidade de gente famosa e nada mais.

Enfim, se os Óscares estão empenhados em autodestruir-se a si mesmos e à sua respeitabilidade, que seja. Contudo, aqui pela MHD não queremos deixar de valorizar todos aqueles artistas que, apesar de nunca serem famosos, contribuem muito para o cinema que tanto nos encanta e deleita. Por isso mesmo, até aos Óscares, iremos destacar alguns dos nomeados nas categorias menos mediáticas, dando a conhecer seus estilos criativos, métodos e explorando as ricas filmografias que têm.

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Bradley Cooper e Matthew Libatique durante as filmagens de ASSIM NASCE UMA ESTRELA.

Como a única categoria que até agora foi confirmada como estando fora da emissão normal da cerimónia é a de Melhor Fotografia, decidimos começar por destacar um diretor de fotografia (a pessoa responsável pela imagem que vemos, desde questões de cor, iluminação, escolha de câmaras, lentes e, dependendo do realizador, até composição e movimento de câmara). Ele é Matthew Libatique que este ano está nomeado por filmar “Assim Nasce Uma Estrela” e já outrora foi indicado em 2011 pelo seu trabalho em “Cisne Negro” de Darren Aronofsky, um realizador que tem vindo a definir a carreira do diretor de fotografia.

Uma das razões escolhemos Libatique para começar esta série de artigos, devém do modo como este cineasta tem vindo a falar da sua paixão pela sétima arte. Segundo as suas palavras, parte do que torna o cinema em algo grandioso e apelativo para ele é o modo como todos os vários aspetos do engenho cinematográfico são essenciais para a criação do objeto de arte final. Ninguém se eleva acima de ninguém, sendo que o trabalho de um técnico de som é tão precioso e necessário como o de um ator ou de um diretor de fotografia. Quem melhor para destacar face a estas insultuosas ideias da Academia?

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Para descobrires mais sobre a carreira e o estilo de Matthew Libatique, segue as setas e acompanha-nos numa viagem pela filmografia deste cineasta de primeira categoria.


TUDO COMEÇOU COM VIDEOCLIPS

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O videoclip de SUIT AND TIE de Justin Timberlake foi filmado por Libatique.

Quando ainda era jovem, Libatique aprendeu fotografia com o pai, que trabalhava num laboratório de revelação e era um fotógrafo amador. Isso e seu amor pelo hip-hop foram parte do que o levou a querer seguir uma carreira nas artes. Depressa o cinema começou a assumir-se como a grande vocação dele, mas Libatique nunca se interessou muito pela componente performativa dessa arte. Sempre foram as imagens e a presença da câmara o que mais o fascinou, talvez pela influência paterna. Assim, quando começou a estudar cinema, os interesses de Libatique acabaram por levá-lo a tornar-se num diretor de fotografia ao invés de um realizador.

No início, contudo, foi no mundo dos videoclips que Matthew Libatique conseguiu arranjar trabalho. Foi com tais projetos que ele começou a apurar sua metodologia e filosofia pessoal. Para ele, há sempre uma procura por simplicidade que vem de uma desconstrução das exigências visuais de um particular projeto. Há que se entender o que é que um determinado filme ou videoclip necessita e daí extrair uma linguagem visual de composições, movimentos e cor o mais sintética possível. Assim, Libatique constrói um idioma fotográfico diferente para cada um dos seus projetos, apesar de algumas componentes do seu estilo pessoal nunca se subsumirem por completo.

Apesar de uma carreira prolífera em videoclips, Libatique vê o cinema como algo superior, especialmente devido à disciplina que fazer parte de um projeto cinematográfico exige em contraste com as demandas do videoclip. O que o panorama dos vídeos musicais tem de muito bom é a oportunidade para explorar técnicas mais ostentosas e extremadas. Como Libatique não gosta de se repetir, essas oportunidades de experimentação são preciosas. Também assim o seu estilo tem vindo a evoluir, tornando-se mais subtil e menos vistoso ao longo do tempo.


“PI” E O COMEÇO DE UMA BELA AMIZADE

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Um pesadelo psicótico em monocroma.

Ao longo da sua vida enquanto cinéfilo, Matthew Libatique sempre admirou duplas de realizadores e diretores de fotografia que trabalham em constante colaboração. Spike Lee e Ernest Dickerson, Oliver Stone e Robert Richardson, Bernardo Bertolucci e Vittorio Storaro, Ingmar Bergman e Sven Nykvist são alguns dos ídolos que influenciaram Libatique na sua juventude. É por isso importante verificar como ele forjou semelhante relação com um realizador, o inigualável Darren Aronofsky.

Aronofsky e Libatique conheceram-se na faculdade (O Conservatório do American Film Institute), logo no primeiro dia de aulas do primeiro ano, quando os novos estudantes tinham de participar num seminário. Não só os dois estudantes admiraram o trabalho um do outro, como se tornaram rapidamente em amigos chegados. Nas palavras do próprio Libatique, mais do que uma colaboração profissional e artística, sua relação com Darren Aronofsky é uma amizade que tem vindo a produzir alguns dos melhores filmes na carreira de ambos.

Pi”, a primeira longa-metragem que uniu os esforços dos dois amigos, é certamente um dos filmes mais visualmente distintos na carreira dos dois cineastas, disso não há dúvida. Trata-se de uma espiral psicótica em monocroma, mas é interessante ponderar como essa qualidade devém das soluções que Libatique teve de encontrar para dar a volta à desesperante falta de fundos que afetou todo o filme. Como não havia dinheiro para filtros, geles, como era impossível balançar a luminosidade entre as cenas de rua e em interiores, o projeto foi filmado em preto-e-branco. Desde essa primeira longa-metragem, Libatique e seu amigo realizador nunca perderam o gosto pela experimentação.


2000: O ANO DA ACLAMAÇÃO CRÍTICA

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Uma orgia de técnica motivada pelas demandas da narrativa.

Apesar de “Pi” ser hoje considerado como um dos grandes marcos do cinema independente americano dos anos 90, tal importância foi ganha em retrospetiva. Para Libatique e Aronofsky, o reconhecimento mais mainstream só viria com o fim do século XX e o apogeu de um novo milénio. 2000, foi o ano que marcou tal reviravolta profissional e artística, sendo que foi quando a parelha estreou “A Vida Não é Um Sonho”. Este filme é um autêntico pesadelo sensorial na forma de um retrato de toxicodependência e suas consequências, focando-se num quarteto de trágicos protagonistas e seu fado ao longo de um ano.

Em “A Vida Não é Um Sonho”, como a narrativa se divide em quatro personagens e quatro capítulos intitulados consoante as estações, Libatique formulou quatro diferentes estilos representantes da subjetividade de cada figura central. Note-se, por exemplo, como a história de uma idosa viciada em speeds emprega efeitos ostentosos de distorção e cores garridas, enquanto a vida de uma mulher mais nova que se prostitui para ter dinheiro para as drogas é caracterizada por movimentos fluídos de câmara e luz fria que a faz parecer um cadáver em movimento.

Pela primeira vez, Libatique e Aronofsky entraram em consideração na temporada dos prémios de cinema e o seu ano ficou no mapa para qualquer cinéfilo atento. No caso do diretor de fotografia, o ano foi ainda mais importante pois, além de “A Vida Não é um Sonho”, também teve “Tigerland” a estrear nos cinemas. Esse filme de guerra de Joel Schumacher marcou também o primeiro projeto mainstream na carreira de Libatique, pelo menos no que se refere aos seus esforços cinematográficos.


THRILLERS, THRILLERS E MAIS THRILLERS

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Claustrofobia cinemática.

Depois do ano glorioso de 2000, Libatique entrou numa nova fase da sua carreira, com grande enfase em projetos mainstream com tonalidades de thriller. Só em 2002, o diretor de fotografia viu estrear nos cinemas dois thrillers. O primeiro, “Regressão”, é uma obra menor na filmografia de Matthew Libatique. O outro projeto, “Cabine Telefónica”, é, pelo contrário, uma das suas propostas visuais mais interessantes. O filme não é nada de outro mundo, mas o facto de que a narrativa está necessariamente presa ao interior de uma cabine telefónica, onde um homem conversa com um criminoso que diz ter uma espingarda apontada à vítima, requer uma linguagem visual de claustrofobia e dinamismo de ação.

Este foi outro filme de Joel Schumacher e pode não ter trazido nenhum prestígio ao nome de Matthew Libatique, mas revelou ser um dos seus primeiros grandes desafios dentro da esfera mais comercial do cinema de Hollywood. Sua ingenuidade em termos de composição e movimento de câmara são particularmente brilhantes neste contexto geograficamente limitado. Os seus projetos seguintes continuariam essa proporcionalidade invertida entre qualidade fotográfica e qualidade geral dos filmes.

“Gothika”, estreado em 2003, é um thriller de horror e mistério bastante mau. Contudo, Libatique usou o projeto como oportunidade para brincar com estéticas mais estilizadas, ilustrando uma subjetividade paranóica com mecanismos do cinema de terror moderno. Em “Never Die Alone”, por outro lado, Libatique trabalhou ao lado de um diretor de fotografia tornado realizador, Ernest R. Dickerson, e juntos construíram um thriller criminal com muita ação e uma qualidade estética que radicalmente supera o interesse da narrativa. Foi através de Dickerson que Libatique haveria de entrar em contacto com um dos seus grandes ídolos e dar entrada numa nova fase da sua carreira.


OS FILMES DE SPIKE LEE

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Movimento febril em nome do drama criminal.

Um dos filmes que tanto impressionou o jovem Matthew Libatique que o levou a querer fazer parte da indústria cinematográfica foi “Não Dês Bronca” de Spike Lee. Em várias entrevistas ao longo dos anos, Libatique tem apontado para o filme como um fator essencial na sua entrada no mundo do cinema, pois a obra de Spike Lee representava como mesmo alguém de bairros pobres e minorias étnicas podia fazer-se ouvir no grande ecrã, podia fazer parte do fenómeno cultural do cinema. Antes desse filme, para Libatique, tal maravilha não parecia possível.

Anos depois de começar a sua carreira cinematográfica, Matthew Libatique viria a trabalhar com esse mesmo homem cujo sucesso o havia inspirado a tentar tornar-se ele mesmo num cineasta. Foi através de Ernest R. Dickerson, antigo diretor de fotografia de Spike Lee, que Libatique veio a conhecer o realizador de “Não Dês Bronca”. A partir daí, Lee começou a ver este jovem fã como um dos seus novos e mais preciosos colaboradores. Juntos, este duo já assinou uma série de longas-metragens, a começar com “Ela Odeia-me” em 2004.

Em contraste com Aronofsky, Spike Lee é um realizador de constante improvisação. Parte do trabalho do seu diretor de fotografia, é estar preparado para lidar com decisões de última hora e manter a estética geral do filme coerente. Talvez por isso, os filmes que Libatique filma com Lee têm uma ênfase muito maior em movimento frenético que seus outros exercícios no grande ecrã. “Infiltrado”, um drama criminal sobre um assalto à caixa-forte de um banco, é o maior exemplo desse mesmo estilo, sendo uma obra marcada pela energia visual de uma câmara em constante voo pelos cenários e em torno dos atores. Não se trata de um filme elegante, mas sim de um cocktail de excitação febril e as emoções fortes da história materializados na forma de uma linguagem visual única que tanto deve ao mundo do cinema urbano dos anos 70 como ao panorama dos videoclips de hip hop dos anos 90.


“O ÚLTIMO CAPÍTULO”

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Uma história de amor reencarnada.

O cinema de Darren Aronofsky é definido por protagonistas perdidos em espirais desenfreadas de obsessão. Primeiro, foi a obsessão de um matemático em busca do valor integral de pi, depois foi a obsessão de uma idosa em aparecer no seu programa de televisão preferido, envergando o mesmo vestido vermelho que havia usado na cerimónia de licenciatura do filho. Para a sua terceira longa-metragem, Aronofsky levou estes temas a um novo patamar de estilização e permutações fantásticas, retratando a obsessão de um homem em salvar a mulher que ama ao longo de várias reencarnações. “O Último Capítulo” é um dos filmes mais criticamente menosprezados do realizador, mas é também uma das suas propostas visuais mais originais, o que se reflete no trabalho de Matthew Libatique atrás das câmaras.

Seguindo o arco narrativo do filme, Libatique definiu a história pela quantidade de luz em cena. Tudo começa sob a opressão de sombras espessas e acaba com luz branca tão forte que encandeia toda a imagem, obliterando-a no processo. Moebius e os filmes de Werner Herzog nos anos 70 foram algumas das referências estéticas usadas pelo diretor de fotografia na sua construção da linguagem visual, o que também resultou numa procura por imagens com peso e textura, apesar dos designs fantasiosos inerentes ao projeto. Por isso mesmo, Aronofsky e Libatique procuraram vias que reduzissem a definição e aumentassem as quantidades de grão e outro ruído visual, sem alterar a paleta cromática de amarelos, vermelhos e verdes que domina a obra em concordância com o preto que lentamente dá lugar ao branco reluzente.

As filmagens deste projeto foram muito difíceis, há que dizer, e levaram os dois amigos cineastas aos limites. O próprio Libatique admite que, depois de “O Último Capítulo”, ambos precisavam de uma pausa na sua colaboração. Por essa e outras razões, o filme seguinte de Aronofsky, “O Wrestler”, não foi filmado por Libatique. Por seu lado, o diretor de fotografia continuou a trabalhar com o seu ídolo Spike Lee e, no mesmo ano em que o filme de Aronofsky com Mickey Rourke chegou aos cinemas, 2008, Libatique marcou sua primeira aventura no mundo dos blockbusters de Hollywood.


BEM-VINDO AO MUNDO DOS BLOCKBUSTERS

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Libatique filmou os dois primeiros filmes centrados no HOMEM-DE-FERRO.

Depois de ter feito nome no panorama dos videoclips e do cinema independente, Matthew Libatique finalmente estreou-se no mundo das grandes produções de Hollywood com “Homem de Ferro”, o filme realizado por Jon Favreau cujo sucesso abriu caminho à criação do MCU e seu subsequente domínio da cultura popular. Contudo, esse sucesso não reflete necessariamente a experiência que Libatique teve com esta produção. Para grande admiração deste cineasta, filmes com maior orçamento e maiores audiências em nada dão mais oportunidades aos seus cineastas para serem criativos. A penúria de “Pi”, por exemplo, era muito mais artisticamente frutífera que a fartura financeira de “Homem-de-Ferro”.

Parte disso deve-se à quantidade de questões que as maiores produções levantam a nível técnico, especialmente quando são espetáculos de efeitos especiais como as aventuras dos heróis da MARVEL. Segundo o diretor de fotografia, um filme como “Homem-de-Ferro” é feito como que numa fábrica, sem qualquer elemento pessoal, onde comités de produtores decidem tudo e nenhumas vozes criativas dialogam entre si. Tal abordagem é antagónica à filosofia de Libatique e seu perfeccionismo artístico. Por exemplo, é costume iluminar-se exageradamente o plateau para se facilitar o trabalho de pós-produção, resolvendo-se questões de cor e contraste com os computadores. Para Libatique, tais métodos são hediondos, sendo que ele prefere filmar tudo o mais próximo da perfeição que consegue e usar somente a pós-produção para resolver problemas pontuais.

Podemos dizer que, na mente e experiência de Libatique, existe um binário entre arte e comércio. Não concordamos completamente com o radicalismo do cineasta e, considerando que tais palavras foram proferidas em entrevistas com alguns anos de idade, pensamos que Libatique também poderá já ter outras opiniões. Afinal, a sua segunda nomeação para o Óscar viria por um blockbuster cuja componente pessoal é inegável. É claro que, antes de falarmos disso, temos de considerar o filme que valeu a Libatique a sua primeira indicação para os prémios da Academia de Hollywood.


“CISNE NEGRO” E A GLÓRIA DOS PRÉMIOS

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Matthew Libatique foi nomeado para o Óscar por CISNE NEGRO.

Foi durante a festa do 40º aniversário de Darren Aronofsky que o realizador abordou o seu amigo diretor de fotografia acerca de um filme passado no mundo do ballet. Libatique tinha acabado de completar as filmagens de “Homem-de-Ferro 2” e ansiava voltar ao panorama do cinema mais artístico e, apesar de não terem colaborado juntos em “O Wrestler”, um projeto de Aronofsky afirmava-se como perfeita mudança de ares. De facto, já desde os tempos de “A Vida Não é Um Sonho” que Libatique e Aronofsky andavam de volta da ideia de um drama psicológico passado algures no mundo das artes performativas. “Cisne Negro” simplesmente representa o final desenvolvimento de tais conceitos.

Como em quase todos os projetos de Aronofsky, Libatique levou a cabo vários ensaios com o elenco para apurar o trabalho de câmara, nomeadamente o tipo de movimentos necessários para filmar as várias cenas de dança inerentes à narrativa do filme e sua ênfase em ballet. Ao filmar os treinos de Natalie Portman, realizador e diretor de fotografia conseguiram orientar o ritmo do movimento da câmara à fisicalidade da atriz tornada bailarina. Foi precisamente nessas sessões de treino de Portman que se começou a entender como espelhos e reflexos seriam uma parte essencial da linguagem visual do filme, o que chega à sua apoteose em cenas como aquela em que a figura espelhada da protagonista se movimenta independentemente da bailarina.

De certo modo, este filme reflete o culminar da colaboração entre estes dois homens e seu gosto por estilização expressiva ancorada em realismo de câmara ao ombro. Só existe um único plano em todo o filme que não foi filmado com câmara ao ombro, por exemplo. Trata-se do suave movimento da protagonista a cair num colchão depois de ter dado a performance de uma vida. Por outro lado, nesta colaboração com Aronofsky, o diretor de fotografia optou por regressar ao formato do seu primeiro filme. “Cisne Negro” foi filmado em gloriosa película de 16mm, resultando em imagens cheias de grão e ruído, uma textura que cobre até as mais modernistas paisagens nova-iorquinas. Por isso e muito mais, Matthew Libatique conquistou assim a sua primeira nomeação para o Óscar, mas viria a perder o galardão para Wally Pfeister e seu trabalho em “A Origem” de Christopher Nolan.


O ETERNAMENTE SUBVALORIZADO “NOÉ”

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Uma fantasia ancorada em realismo visual.

Depois do sucesso crítico, popular e cultural de “Cisne Negro”, Darren Aronofsky decidiu dar asas à sua imaginação e ambição. O projeto que decidiu levar ao grande ecrã imediatamente a seguir foi uma reimaginação da história bíblica de Noé e o grande dilúvio. O resultado final é um testamento à hubris do realizador, assim como uma prova irrefutável dos talentos da sua equipa de fiéis colaboradores, entre eles Matthew Libatique, cuja glória quase redime esta desventura bíblica cheia de atores cobertos de lama e gigantes de pedra viva.

Apesar de algumas imagens bem vistosas contra um céu de contrastes cromáticos garridos, Libatique encarou “Noé” como um filme em desesperada necessidade de contenção e disciplina fotográfica. Como os cenários, os figurinos e a maquilhagem se precipitaram em epítetos de estilização e montanhas de informação visual, parte do trabalho de Libatique foi encontrar um equilíbrio estético entre estes vários elementos. Para um filme tão recheado de efeitos digitais, é de salientar que Libatique fez muito pouca manipulação digital sobre a imagem final obtida dos negativos, confiando nos processos químicos para obter o visual que pretendia do celulóide.

Não foi essa a única estranheza na conceção deste épico que tentou encontrar o ponto médio entre a rudeza do artesanal e a grandiosidade dos blockbusters da era digital. Por exemplo, uma técnica muito usada em cinema é filmar-se de dia a fingir de noite. Em “Noé”, para conseguir melhor controlar a luz em cenas no exterior, Libatique convenceu Aronofsky a filmar alguns dos momentos mais tecnicamente complexos de noite. A grande batalha entre Noé e um exército ímpio, por exemplo, foi iluminada com balões luminosos, chuva artificial e muita paciência por parte de todos os envolvidos.


“STRAIGHT OUTTA COMPTON”

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Matthew Libatique é um génio, conseguindo até dinamizar as imagens históricas de uma cinebiografia convencional.

Depois de “Noé” e seu fracasso com críticos e audiências, é curioso ver como Libatique saltou para um dos seus filmes mais populares e comercialmente viáveis. Referimo-nos à cinebiografia “Straight Outta Compton” que, em 2015, foi um dos maiores sucessos do box office americano com a sua história verídica de como três amigos de um bairro pobre se tornaram em estrelas revolucionárias do rap durante a década de 90 do século XX.

Grande parte dos esforços de Libatique focou-se em obter um visual de época apropriado às origens das personagens. Quando filmavam à noite, por exemplo, todas as luzes de rua foram mudadas para sugerir as lâmpadas de sódio comuns na década de 90. Esse é um dos reflexos técnicos da procura de Libatique por uma certa visceralidade e realismo de imersão sensorial. Ele queria que o espectador, desde a primeira sequência com sua orgia de movimento energético, estivesse emocionalmente envolvido na trama e no contexto cultural, histórico, económico e étnico que dão especificidade ao filme.

Libatique procurou salientar o arco narrativo das personagens, criando grandes contrastes entre a crueza da sua vida doméstica e em início de carreira com a glória do estrelato e hegemonia cultural. Assim, cenas iniciais em ambientes mais pessoais, foram enchidas de fumo para dar textura à imagem e retirar vivacidade às cores presentes no plateau. Mais tarde, em concertos lendários, Libatique escolheu uma abordagem mais límpida, desprovida de tais mecanismos para sujar a imagem.


“MONEY MONSTER”

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Um thriller de ecrãs, câmaras e artifício.

Apesar de uma carreira prolífera dentro e fora do cinema mainstream americano, Matthew Libatique raramente trabalha com mulheres realizadoras. Uma grande exceção, na sua filmografia, é “Money Monster”, um drama assinado por Jodie Foster cuja premissa sensacionalista de um programa de TV sobre economia a ser sequestrado por um espectador descontente recorda os muitos thrillers filmados por Libatique no início da década passada.

Pela sua parte, Foster decidiu trabalhar com Matthew Libatique enquanto realizadora pois já tinha sido testemunha do seu génio enquanto atriz, quando fez parte do elenco de “Infiltrado”. Convém, contudo, entender que esta é uma obra muito menos frenética que o filme de Spike Lee, sendo caracterizada pelo controle absoluto dos cineastas sobre uma narrativa que tenta dizer muito sobre a economia atual, mas acaba por ter valor somente como um filme de entretenimento cheio de estímulos estéticos e pouca nuance psicológica. É claro que, como sempre, o trabalho de Matthew Libatique é exemplar.

Trata-se de um filme cheio de câmaras e ecrãs, um filme sobre filmagens, o que levantou a Libatique o desafio de lutar contra o artificio inerente a tais contextos. Para o diretor de fotografia, havia que se procurar um contraste entre as imagens filmadas pela equipa de televisão dentro da narrativa do filme e o modo como a audiência de cinema vê o drama a desenrolar-se. Como sempre, ele virou-se para uma estética naturalista, com imagens cheias de textura e alguns esquemas de iluminação deliberadamente feios a sublinharem a dissonância entre a realidade das personagens e a imagem que elas transmitem paras as TVs.


A LOUCURA DE “MÃE!”

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A câmara enquanto prisão da audiência.

Em “Cisne Negro”, a câmara de Matthew Libatique perseguia a protagonista em ocasiões pontuais, filmando suas costas e permanecendo num registo trémulo e claustrofóbico. Em “Mãe!”, contudo, não há nada de pontual no uso deste mecanismo, sendo esta câmara predatória uma constate presença. Segundo o realizador Darren Aronofsky, esta era uma tentativa de construir todo o filme numa perspetiva extremamente subjetiva, sempre agarrado à aflição da figura feminina. Com esta proximidade claustrofóbica sempre presente, o espectador é como que obrigado a participar no pesadelo da narrativa ao lado da sua principal vítima. Trata-se de fotografia enquanto ferramenta de imersão e empatia.

Este estilo do filme foi estabelecido por Aronofsky, Libatique e o operador de câmara durante três meses de ensaios com o elenco. Logo aí, o diretor de fotografia decidiu limitar a linguagem visual a um punhado de composições básicas, sempre com a perspetiva subjetiva da protagonista como ponto de partida. Essas sessões de ensaio também permitiram que muitos dos movimentos de câmara mais complicados fossem preparados e adaptados previamente aos ritmos dos atores. Libatique teve de iluminar o cenário de modo a que a câmara pudesse mover-se em qualquer direção durante a cena. Assim, os atores podiam atuar inteiras sequências sem cortes, só com a câmara a servir de perpétuo companheiro e voraz predador.

Para ajudar o diretor de fotografia, Aronofsky deu-lhe várias referências cinematográficas, nomeadamente filmes de terror de baixo orçamento dos anos 70. O que Libatique tirou dessa pesquisa foi uma necessidade de criar algo de aparência crua, grosseira, talvez até feia e naturalista, com um toque de omnipresente desconforto estético. Segundo Libatique, tanto o diretor de fotografia como o realizador preferem filmar em celulóide, pois respeitam e adoram a textura e o grão da película, especialmente quando filmam em 16mm. Para os dois cineastas, há algo de esteticamente superior e prazeroso nesta abordagem. A acrescentar a isso temos outras técnicas como, por exemplo, um uso de distância focal mínima, produzindo uma imagem míope que reflete quão pouco a protagonista compreende. Raramente é um filme tão definido pelas escolhas do seu diretor de fotografia.


“ASSIM NASCE UMA ESTRELA”

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Será que Libatique consegue ganhar um Óscar na sua segunda nomeação?

Como já deu para entender, filmar performances musicais é uma especialidade de Libatique, pelo que o seu envolvimento no musical de Bradley Cooper depois das loucuras de Aronofsky não é algo tão estranho como pode parecer a uma primeira análise. Aliás, Cooper veio falar com Libatique sobre a sua potencial colaboração durante as filmagens de “Mãe!”, tendo ouvido várias recomendações por parte de Jennifer Lawrence que descreveu o diretor de fotografia como o melhor com que alguma vez trabalhou.

Para o estilo do filme, Cooper e Libatique usaram várias referências cinematográficas para além das antigas versões de “Assim Nasce Uma Estrela”. Os documentários musicais de Martin Scorsese, por exemplo, foram uma inspiração preciosa para as variadas cenas de concerto protagonizadas por Cooper e Lady Gaga. Desde início houve uma decisão de filmar as cenas de concerto da perspetiva dos músicos e não da audiência. Aliás, quase nunca aparece uma única composição que posicione o espectador de cinema na posição da audiência dos concertos. O pretendido era uma imersão empatética para com os artistas em palco e sua subjetividade.

Como já é hábito no processo que Libatique aprendeu com Aronofsky, ensaios de câmara, movimento e iluminação com o realizador acabaram por ditar muito do aspeto final do filme. O uso de luz vermelha, por exemplo, veio das gravações que Libatique fez em casa de Bradley Cooper, onde néones vermelhos pintam a cozinha nessa mesma cor. Tal efeito foi replicado pelo diretor de fotografia tanto no cenário doméstico de Ally e Jackson, como nas cenas de concerto em que os dois mais estão em sintonia artística e emocional, fazendo da cor um barómetro emocional. O movimento de câmara e suas gradações de legibilidade, por seu lado, serviram de indicador do estado mental das personagens. Quando Jackson está mais perdido, a câmara cambaleia e quase não se consegue focar. Quando Ally se está a afirmar como estrela por direito próprio, a gramática fotográfica é muito mais legível e a imagem ganha estabilidade. Tal esforço, resultou em mais uma nomeação para Libatique.



O FUTURO…

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NATIVE SON já causou furor em Sundance.

Mesmo antes da cerimónia dos Óscares em que ele está nomeado por “Assim Nasce Uma Estrela” se realizar, Matthew Libatique já está a causar furor com mais filmes aclamados pela crítica. Foi no Festival de Sundance que o diretor de fotografia viu estrear mais uma das suas aventuras pelo mundo dos filmes independentes americanos. A obra em questão é “Native Son” de Rashid Johnson, um drama sobre a vida de um jovem afro-americano a viver nos bairros pobres de Chicago na década de 30.

O filme já está a ser falado como um potencial título de relevo na temporada dos prémios do ano que vem. Certamente, a prestação de Ashton Sanders no papel principal tem chamado a tenção da crítica, assim como o argumento adaptado de um célebre romance de Richard Wright. Quanto ao trabalho de Libatique, poucas são as críticas que o mencionam por nome, mas isso já é hábito. Afinal, diretores de fotografia não são famosos, apesar da contribuição enorme que dão ao cinema.

Outro projeto a estrear em 2019 que deverá ser um marco importante para Libatique é “Birds of Prey (And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn)”. É certo que o diretor de fotografia raramente se mostra feliz face aos seus trabalhos em blockbusters cheios de efeitos especiais e que o seu último projeto assim, “Venom”, foi um cataclísmico fracasso crítico. Contudo, “Birds of Prey” é realizado por Cathy Yan, uma cineasta promissora com muito para provar, e as primeiras imagens de Harley Quinn e companhia sugerem uma obra bem mais visualmente sofisticada e interessante que “O Esquadrão Suicida”. Logo saberemos se estas previsões se tornam realidade ou não. Por agora, só podemos mesmo esperar e ver…

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O que pensas sobre o trabalho de Matthew Libatique? Pensas que ele já devia ter ganho um Óscar? Deixa as tuas respostas nos comentários.

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