Venice Sala Web | Our War, em análise

O documentário Our War retrata a experiência de três homens ocidentais que se voluntariaram para ir lutar juntamente com as milícias curdas contra o Daesh. Tal como todos os filmes presentes no Venice Sala Web, esta obra foi exibida no Festival Internacional de Veneza e está, de momento, disponível no Festival Scope.

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Na procura de uma forma de representar e entender a guerra contra o Daesh na Síria, três cineastas italianos, Benedetta Argentieri, Bruno Chiaravalloti e Claudio Jampaglia. Decidiram criar o documentário que aqui nos propomos a analisar. Este trio interrogava-se sobre os modos possíveis para transmitir a experiência da guerra no cinema e, como tentativa disso mesmo, construíram o seu projeto cinematográfico em torno de três voluntários ocidentais que lutaram, como parte das milícias curdas, contra o auto proclamado Estado Islâmico. Esses homens são Joshua Bell dos EUA, Karim Franceschi de Itália e o sueco Rafael Kardari.

Antes de nos apresentarem a esse trio de combatentes estrangeiros, Our War começa com uma narração de um combatente curdo, onde um voz-off nos fala da região de Kobane no nordeste da Síria, do modo como os curdos são categorizados como terroristas devido à sua luta pela independência e de como eles combatem contra um inimigo comum do mundo livre, o Daesh. Esta abertura, ilustrada por imagens de Kobane no inverno, serve logo para evidenciar um dos mais fraturantes e invariáveis problemas deste projeto. Talvez problema seja a palavra errada, um dos maiores limites que este projeto impõe a si mesmo. Apesar de muito se falar da causa dos curdos, da sua cultura e do seu heroísmo, o certo é que, depois desta abertura, Our War pouco ou nada se preocupa em representá-los como algo mais que uma abstração na memória dos estrangeiros, ou como adereços e cenário às ações dos três protagonistas.

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Esta redução de um povo à singela funcionalidade de um ponto de referência na nossa apreciação dos voluntários ocidentais é terrível e demonstra um paradoxo ideológico que infeta todo o filme. Os cineastas queriam divulgar e entender esta específica guerra de um modo que não lhes é permitido pelas fotografias e telejornais que distanciam o mundo ocidental do horror da Síria e outros países que combatem abertamente contra o Estado Islâmico. No entanto, ao ignorarem as complexidades do conflito ou as pessoas locais que nele estão envolvidas eles apenas fizeram perfis de heróis europeus e americanos, do tipo que se esperaria ver numa glorificante reportagem televisiva. Sim, a sua abordagem é mais crua e intima que esses retratos televisuais, mas não estão assim tão distantes.

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A barreira entre a câmara, os cineastas e os curdos em combate à particularmente alarmante quando contrapomos essa abordagem com as palavras dos combatentes a ser entrevistados. Bell, em particular, revela com candor as suas intenções egoístas para se ter voluntariado, mas depressa se desdobra numa homenagem apaixonada ao heroísmo e nobreza dos companheiros curdos com quem partilhou uma das partes mais importantes da sua vida. Mais do que examinar e explorar o que as suas palavras dizem, os cineastas italianos parecem estar satisfeitos em simplesmente observar e registar o seu discurso de forma passiva. Isso torna-se particularmente óbvio quando nos movemos para a esfera do sueco ou do italiano, cujas motivações para participarem nesta guerra são muito distintas e mais próximas do idealismo de quem quer salvar o mundo de um pesadelo bem real. Se existe introspeção e alguma complexidade no retrato que o filme dá deste conflito, o crédito vai todo para as palavras dos soldados, sendo que os realizadores pouco mais fizeram do que lhes apontar uma câmara e editar um documentário do modo bastante prosaico.

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Evidentemente que isso não invalida os testemunhos dos três entrevistados de ter o seu valor. As reflexões políticas de Bell têm um particular interesse, especialmente quando vemos as imagens da sua vida nos EUA, onde ele participa em juvenis jogos de guerra que, como é óbvio, tornam em pueril entretenimento uma experiência que ele sentiu no corpo e mente. Também Kardari, com a sua traumática lembrança do primeiro momento em que tirou uma vida, oferece uma perspetiva fascinante e muito menos fria e sanguinária que a do americano. Por seu lado, Franceschi revela-se como um idealista cheio de aspirações a fazer parte de algo maior que si, algo importante. Ele compara a luta dos curdos à Guerra Civil Espanhola e à Guerra pela Independência de Cuba, esculpindo na história um lugar para si. É nos momentos finais do filme que, quando fala do regresso à Síria, que este militante comunista italiano nos oferece um dos momentos mais potentes de introspeção e autorreflexão que o filme possui.

Mesmo assim, Our War é um filme que nunca supera os problemas da sua proposta inicial e os limites da sua perspetiva míope. Muitas vezes ouvimos que esta é uma guerra que se estende até à Europa, até ao mundo ocidental, e que nos afeta a todos, mas nunca vemos o esforço de se explorar a realidade e complexidade do projeto para além dos três combatentes. As intenções dos cineastas são nobres, certamente, mas as suas escolhas deixam muito a desejar e a sua confusão ideológica acaba por ter o efeito inverso ao pretendido. Pode parecer superficial, mas quando se está sempre a insistir que esta é uma guerra de todos, mas se mostra uma falta de interesse em entender a guerra em si, o seu contexto ou as comunidades que estão a lutá-la, essa dita guerra torna-se em mais um abstrato, uma realidade alternativa distante de nós e tão irreal nas nossas mentes como os videojogos bélicos que Franceschi tanto gosta de jogar.

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O MELHOR: A perspetiva que o filme dá sobre o turismo de guerra., especialmente os testemunhos de Bell e Kardari que transpiram desdém por quem, pelas suas próprias palavras, vai para lá lutar, matar pessoas, tirar umas fotos e depois volta para casa para se publicitar como um herói.

O PIOR: A proposta inicial que propulsionou todo o projeto e limitou, de modo escabroso, o seu potencial enquanto documento e análise de uma guerra contemporânea, seus combatentes e vítimas.


 

Título Original: Our War
Realizador:  Bruno Chiaravalloti, Claudio Jampaglia, Benedetta Argentieri
Festival Scope | Documentário | 2016 | 69 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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