Para Roma, Com Amor, em análise

 

Título Original:To Rome With Love

Realizador: Woody Allen

Elenco: Woddy Allen, Ellen Page, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz

Género: Comédia, Romance

ZON | 2012 | 112 min

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Seria um erro desmesurado acreditar que “Para Roma, Com Amor” poderia ser “Meia-noite em Paris”. Essa utópica ideia é tão fantasiosa como o cartão-postal da bela Paris que Woody Allen teve o engenho de criar no ano transato. Tudo porque não existem dois filmes iguais. Não bastava mudar o plano de fundo, as personagens e as suas motivações e recriar uma fórmula que tanto gostamos de ver em “Meia-Noite em Paris”. Woody Allen percebeu isso, e embora este seja o seu filme mais fraco da tour europeia, a verdade é que permite sonhar com Roma de uma forma única.

Em “Vicky Cristina Barcelona”, a cidade catalã era a protagonista passiva de uma história de amor com poucos personagens, mas coesa na sua conceção. Em “Meia-Noite em Paris”, a cidade luz assumia o controlo da narrativa, tornando-se na figura principal, uma peculiar personagem com poderes mágicos que alterava o rumo dos humanos que habitavam o filme e que, apesar de constituírem uma mescla bem interessante de diferentes histórias, conseguiam sempre que houvesse uma pequena conexão entre os diversos padrões narrativos. Em “Para Roma, Com Amor” a maior falha é não imitar aquilo que estes tinham de bom. Roma, apesar de ser uma radiosa paleta de cores vibrantes, não tem vontade própria e não se torna uma influência para os personagens, não é protagonista. Pode-se dizer que Allen conseguiu para Paris um cartão-postal imaculado, e para Roma apenas uma fotografia em tons de cinza.


Há também um grave problema que “Meia-Noite em Paris” soube trabalhar com mestria: a união das diferentes histórias. “Para Roma, Com Amor” coloca diversos personagens em confronto, subdivido-os em quatro narrações distintas que não possuem qualquer elemento de ligação. É como se ao mesmo tempo estivéssemos a assistir a quatro filmes diferentes, passados na mesma cidade, mas sem que haja um pequeno ponto que os una. Talvez apenas Roma.

A história de um casal italiano que se desencontra na cidade eterna. Ela, Milly (Alessandra Mastronardi) , perde-se nas ruas da cidade e acaba por conviver com um ator italiano famoso, Luca Salta (Antonio Albanese). Ele, Antonio (Alessandro Tiberi), é alvo de um mal-entendido que o coloca com uma prostituta, Anna (Penélope Cruz), que é feita passar por Milly perante os tios de Antonio.

Do lado oposto somos confrontados com um membro da classe média italiana, Leopoldo (Roberto Benigni), e a sua família que não foge aos padrões comuns da sociedade atual. Algo estranho acontece quando Leopoldo é feito famoso de um dia para o outro, sendo adorado pelo povo e perseguido pela imprensa.

Neste quadrado narrativo somos ainda confrontados com um casal, uma turista americana Hayley (Alison Pill), e um romano de gema Michelangelo (Flavio Parenti), que cumprem a tradição de a jovem encontrar o seu grande amor na Fontanna di Trevi (o único momento em todo o filme, onde Roma é parte integrante da ação). A sua relação evolui até que os pais de ambos se encontram. O pai de Hayley, Jerry (Woody Allen), é produtor musical e tem a ambição de que o pai de Michelangelo, Giancarlo (Fabio Armiliato), se torne num grande cantor de ópera, a avaliar pelas suas competências no chuveiro.

E por último, o famoso arquiteto, John (Alec Baldwin), que conhece um jovem estudante de arquitetura, Jack (Jesse Eisenberg), cuja namorada convidou uma amiga, Monica (Ellen Page), para passar uns dias em Roma. Jack e Monica acabam por se envolver emocionalmente.

Apesar de nada nunca se unir, Woody Allen consegue, com naturalidade, passar a mensagem crítica da sociedade em que vivemos. A infidelidade matrimonial é das realidades mais comuns, a ascensão do jet-set à fama é feita pela via do ridículo, o amor pode ser encontrado em cada esquina e o talento e a ambição deveriam se objeto de melhor aproveitamento.

Penélope Cruz desempenha novamente o papel que tão bem compôs em “Nine”, não mais do que isso. Mas a história em que entra é das mais interessantes do ponto de vista crítico. Roberto Benigni, muitas vezes desemparado, consegue que a pintura caricatural da fama seja bastante credível, cómica e por vezes trágica. Já Woody Allen, como ator, permite que o seu humor que flui pelos exímios diálogos torne as cenas onde aparece nas mais hilariantes, ficando o filme menos interessante quando este sai de cena. No que diz respeito a Ellen Page e Jesse Eisenberg, pode dizer-se que formam um casal caricato mas plausível, sendo que Alec Baldwin, no meio dos dois, parece quase sempre perdido numa personagem sem profundidade, a mais fraca de todas.

Já vimos Woody Allen fazer melhor, é certo. E em “Para Roma, Com Amor” revela que foi melhor ator do que realizador e argumentista. Mas se ignorarmos as expectativas, somos capazes de nos deleitar com Roma, tal como ela merece.

DR


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