O cinema como ato de autoterapia é daquelas realidades que o unem às muitas outras disciplinas artísticas, muitas das quais se centram no criador enquanto indivíduo e autor total da sua obra. De certa forma, isto surge em contradição e apesar da natureza coletiva desta nossa muito amada sétima arte. Tudo isto está em evidência no mais recente filme de Jérémy Comte, sua primeira longa-metragem depois de ter feito nome no circuito das curtas, com obras tão aclamadas como o “Fauve” de 2018. Em jeito de introdução, antes de “Paradise” ser projetado para o público da Festa do Cinema Francês, ele fez questão de sublinhar essa qualidade quase autobiográfica da fita. No entanto, também sugeriu quanto o filme vai além desse solipsismo.
Passando-se entre o Quebeque e o Gana, “Paradise” é exemplar de um recente esforço pela parte dos programadores da Festa. Normalmente, tem-se privilegiado o cinema francês, feito em França, por franceses. A francofonia além dessas fronteiras ficava fora de cena, a não, ser, porventura, alguma coprodução com a Bélgica, mas sempre com alguma mãe gálica lá metida no meio. Já não é assim. Este ano, basta olharmos para a secção competitiva da Festa do Cinema Francês para entendermos uma expansão às várias vicissitudes da francofonia à escala global, abrangendo antigas colónias e seus correspondentes cinemas nacionais.
“Paradise” surge juntamente com “Congo Boy,” esse vencedor do prémio de Melhor Ator do programa Un Certain Regard em Cannes, como um olhar virado para a África onde ainda se fala francês. Poder-se-ão perguntar, como é que isto reflete a autobiografia de um cineasta canadense, mas já lá chegaremos. Primeiro, há que perscrutar as maravilhas que Comte encenou na paisagem ganense, com a ajuda do coargumentista Will Niava e outros artistas locais. O filme, efetivamente, começa num Gana sonhado ou, talvez, mal lembrado, meio esquecido e deturpado por aquelas mazelas da memória e o processo de se contar e recontar uma história ao longo de gerações.
A narração que se impõe na sonoplastia confere o peso de um mito à imagética que, já por si, tem o seu quê de lenda antiga, de poema épico de um passado distante. Aconteceu numa noite, quando o céu brilhava azul como uma safira escurecida, mas se deixava também sujar pelo farrapo de fumo negro vindo algures das águas costeiras. Um pescador vê a linha obscura e segue-a no seu barco a motor, em direção a um ponto luminoso entre as ondas, um enorme navio de carga em chamas. Desse inferno, atiram-se homens com os corpos a arder, tentando salvar-se na misericórdia da água salgada. Não vemos o sucedido, mas o narrador menciona um desses homens, o capitão americano, que o pescador terá salvo desse doloroso fim, entre a carne queimada e o fôlego afogado.
Memórias e sonhos perdidos algures entre o Canadá e Gana.

Depois deste prólogo, “Paradise” introduz-nos a uma estrutura partida em três capítulos – o Barco, o Capitão e o Fogo – e a um protagonista que não podia parecer-nos mais distante de uma qualquer autoficção de Jérémy Comte. Trata-se de Kojo, que conhecemos como um menino a viver sozinho com pai pescador, levando o peixe ao mercado enquanto o patriarca trata dos afazeres do seu ofício, desde o remendo das redes até ao lavoro de se fazer ao mar. Há um lirismo imersivo nesta visão do Gana através da subjetividade infantil, uma poesia que ecoa as sensações do prólogo sem, no entanto, negar a realidade dura desta vida.
Kojo sonha com algo além da humildade deste trabalho de pescador. Vê-se isso na sua idolatria dos gangsters que se exibem nas ruas, com metralhadoras à mostra e dólares atirados ao ar para que o povo nas ruas possa partilhar na fortuna ensanguentada. O pai desaprova essas noções, proibindo até brincadeiras que imitem armas. Mas o sonho perdura. Num gesto de montagem ardilosa e genial, Comte corta do menino a ver “O Despertar da Mente” no pequeno ecrã para a mesma ação na vida adulta. Infelizmente, o idílio do jovem destroça-se nesse mesmo dia quando, depois do trabalho em alto-mar, o pai desaparece sem deixar rasto.
É nesta contração trágica que “Paradise” faz o salto entre continentes e nacionalidades, chegando a outro jovem sem pai. Chama-se Tony, skater sem grande talento que passa os dias a vaguear pelos subúrbios de um Quebeque outonal e a preocupar-se com os namoricos da sua mãe solteira. Ele, sim, será o espelho do realizador e talvez seja essa razão pela qual as suas cenas nos pareçam tão mais indulgentes e sem graça que as passagens africanas do filme. Existe aqui uma transformação de idiomas audiovisuais, um apego maior ao realismo estético, com a montagem e o som a serem a principal estilização em evidência.
Acima de tudo, existe um contraste muito grande entre os atores no centro destas histórias paralelas e a forma como as suas personagens são escritas. Kojo é todo feito de especificidades marcadas por entre as divagações mais poéticas do conto. Além disso, Daniel Atsu Hukporti é uma presença magnética, capaz de iluminar todas as dimensões deste jovem, mesmo aquelas que se parecem contradizer entre manipulações matreiras e sentimento genuíno. Joey Boivin-Desmeules é menos interessante perante a câmara, e o argumento tende a limitá-lo a registos mais unidimensionais de banais rebeldias adolescentes e o fogo que arde no coração de um menino cheio de raiva por tudo e todos.
Na dor das nossas vidas, todos buscamos o consolo, a mercê, o paraíso.

Não quero desvendar em demasia os segredos de “Paradise.” Contudo, convém dizer que Kojo acaba por emular aqueles mesmos ídolos que o pai tanto queria que ele ignorasse na meninice. Ironicamente, a memória paterna serve de inspiração para os esquemas futuros, para as mentiras que levarão Kojo a Tony. Ou, mais especificamente, à mãe de Tony e sua procura por amor na vastidão obscura da internet, onde há capitães americanos de navios de mercadorias à espera dos afetos de senhoras generosas, ingénuas, incapazes de ver a verdade por detrás da mentira. Mas será tudo uma mentira? Será o amor sempre transacional, utilitário, ilusório?
Se o argumento que Comte e Niava escreveram nos suscita a dúvida, a prestação de Hukporti reforça-a ainda mais, rejeitando leituras simplistas de uma personagem complexa cuja intimidade nos aparece como uma ferida aberta e um enigma em simultâneo. Tony é mais fácil de perceber, e, talvez por isso, mais vazio. O modo como ele nos é apresentado parece presumir uma familiaridade e autoidentificação que não estarão lá para a maioria dos espectadores. Não se manifestou para mim, por exemplo. Assim se forma um desequilíbrio catastrófico na dramaturgia de “Paradise,” cuja estrutura em capítulos e atraso nas revelações narrativas mais acrescenta ao problema.
Em amarga reflexão, é possível que haja alguma vertente exótica, algum resquício de imperialismos antigos e as hipocrisias da sociedade pós-colonial, na forma como “Paradise” tanto faz para elevar Kojo e os esforços miúdos, menores, quase tacanhos e derivativos com que aborda a odisseia de Tony. De facto, poderíamos acusar aquelas cenas nos subúrbios canadianos de deverem muito a outros artistas influentes do Canadá francófono. É possível que eu mesmo esteja a ser redutivo, míope também, nesta analogia, mas é difícil não mirar os jogos de foco e desfoque, de matizes outonais e outros jogos cromáticos sem pensar em Xavier Dolan, seu “Mommy” ou “Matthias & Maxime.”
Comparações à parte, “Paradise” merece ser considerado pelos seus méritos próprios e também celebrado. Se as desventuras de Tony deixam algo a desejar e suas imagens carecem da mesma originalidade vista na outra metade do filme, pelo menos a sonoridade é esplendorosa e a sofisticação formal de Comte e suas boas intenções são inegáveis. Semelhantes elogios se aplicam à história de Kojo e ao modo como a vida deste homem se torna num círculo de memória tornada sonho tornada realidade. Há certezas absolutas no meio de tudo isto. Olivier Gossot é um diretor de fotografia genial, até mesmo quando sai da sua zona de conforto, e Daniel Atsu Hukporti tem tudo o que é preciso para ser uma valente estrela de cinema.
O carisma e o magnetismo, a habilidade e a arte estão lá, tão evidentes como as verdades humanas que o dilema de Kojo nos revela. Essa procura sem fim por algo, algures ou alguém que nos faça sentir seguros num mundo onde a única certeza é quão incerto tudo é. A dizer a verdade, mentimos, e vice-versa e, por vezes, nem nós mesmos somos capazes de resolver o puzzle em que se transforma o espírito que connosco carregamos. Estamos todos a sofrer, mesmo aqueles que sorriem expressões rasgadas de alegria e projetam imagens de força e fortuna. Nesta vida, resta-nos a procura pelo paraíso no seu sentido mais simbólico, mais visceral e, em “Paradise,” mais cinematográfico.
Paradise
Conclusão:
- Em “Paradise,” Jérémy Comte recorda um transtorno da sua adolescência, contando-nos uma história que começa na divagação poética, sem forma ou rumo discerníveis, e quase acaba como a subversão de uma fantasia de vingança juvenil. O elemento mais original e impressionante será a generosidade na perspetiva do cineasta que, ao invés de centrar somente o seu alter-ego ficcionado, estende a máquina de empatia desta sétima arte àquele que tanto sofrimento lhe trouxe.
- Assim se escreve um filme dividido entre dois protagonistas de igual importância, apoiados por estratégias audiovisuais tão distintas quanto complementares. Infelizmente, na divisão dramatúrgica, “Paradise” arrisca o desequilíbrio. Porque, verdade seja dita, entre o Canadá e o Gana, há um filme mais interessante em evidência e não é aquele passado nos subúrbios onde se fala algo parecido com o francês, mas mais acertadamente descrito como quebequense.
- Louvamos a Festa do Cinema Francês por abrir as portas a um cinema francófono mais expansivo que suas anteriores edições mantiveram fora da programação. Por muito que “Paradise” possa desiludir na falta de balanço entre as suas duas faces, o poema épico sobre um rapaz do Gana é razão suficiente para aplaudir o filme de pé. De facto, Daniel Atsu Hukporti merece ser uma estrela, Comte merece reconhecimento pela ousadia da sua primeira longa-metragem, e os esforços de Olivier Gossot e Valentin Hadjadj na fotografia e na composição musical exigem o reconhecimento da indústria. Que muitas mais e melhores oportunidades se lhes proporcionem no futuro próximo.


