Slowdive no Paredes de Coura 2018 (foto de Margarida Ribeiro)

Vodafone Paredes de Coura 2018 | Slowdive maravilha e Lucy Dacus comove

Os Slowdive iluminaram a arena de um Vodafone Paredes de Coura já aquecido pela promessa de Lucy Dacus, num terceiro dia de festival marcado por alguns incidentes.

Não faltou talento ontem, no Vodafone Paredes de Coura. Não faltaram também contratempos. No concerto dos DIIV, logo depois da primeira canção, uma das cordas da guitarra de Zachary Cole Smith partiu-se e levou tanto tempo a mudar, que a banda saltou a canção do alinhamento que deveria ter sido tocada no entretanto. Coisas que acontecem e tudo depende do contexto. O problema é que o todo da performance e o comportamento da banda em palco deixaram muito a desejar e o mau começo não foi redimido, antes pesando mais no cômputo geral. Com frases como “We flew all the way from Los Angeles just to be here” ou “You make us feel like we’re popular again” a não ajudar na sua falhada sátira. Em vez de engraçadas, soaram só presunçosas e desesperadas, tornando o concerto mais deprimente ainda.

DIIV Paredes de Coura
Zachary Cole Smith, DIIV (© Margarida Ribeiro)

Bem diferente foi o caso de Frankie Cosmos. O baterista Luke Pyenson estava adoentado. Tendo conseguido articular um discurso inteiro de agradecimento em português, que fora, claro, selvaticamente aplaudido, e tocar grande parte do concerto, teve de sair um pouco antes do final. Greta Kline já encantara durante o evento, com a sua voz ingénua mas impositiva, as suas canções antigas, desarmantes na simplicidade twee pop e lirismo infantil, as suas canções novas, mais complexas e angustiadas, o seu diálogo contínuo e informal com o público, rasgado em largos e tímidos sorrisos. Mas à graciosidade com que, não tentando salvar a cara, se limitou a abraçar divertida o inesperado limite, e a oferecer-nos uma versão (em palavras suas) a “solo” de “Being Alive”, rendemo-nos definitivamente. Na música pop, nada importa tanto como a posse de uma personalidade magnética e inimitável, que molda a música e a torna única. Frankie tem-na, à sua maneira (e não é sempre assim, à sua maneira?) e esperamos poder voltar a vê-la, da próxima vez no palco principal e com o baterista em topo de forma.

Greta Kline, Frankie Cosmos @ Paredes de Coura
Greta Kline, Frankie Cosmos (© Margarida Ribeiro)

Estes desaires não foram, contudo, capazes de macular um dia que, no Palco Vodafone, começara com Lucy Dacus. Entre a calma discrição e o à vontade no palco, que nada tinha de teatral, por entre as tiradas do diálogo afável com o público, passando das estrofes que cantava como quem conversa aos solos aguerridos em conversa com a banda, surpreendemo-nos comovidos por versos como “I’m just as good as anybody else/ I’m just as bad as anybody else” ou “this ain’t my house anymore”, enquanto os cantávamos com ela. Pode ter sido por termos vindo da entrevista, pouco antes do concerto abrir, já impressionados com quão si mesma ela é. Ou pode ter sido a descoberta de ser sempre a mesma voz, a mesma personalidade a falar-nos no grande disco que é Historian, na entrevista, onde nos acolhera de braços abertos, e no palco de onde ia olhando para nós, espantada que soubéssemos as letras à letra. Se o público não era imenso, àquela hora do dia, era pelo menos afeiçoado e não faltou quem gritasse “Lucy”, mostrando não estar ali de passagem, só a ver as vistas. A beleza do concerto veio toda da bondade da sua pessoa e da verdade da sua música, de cada palavra repetida e sublinhada pelo instrumental que a acompanhava e prolongava, como um grito cheio de força e, por isso, de esperança. Precisamente o que Lucy começara por dizer que desejava que a sua música pudesse trazer.

Lucy Dacus, Slowdive e outros no Paredes de Coura
Lucy Dacus (© Margarida Ribeiro)

Antes de nos dirigirmos para Slowdive, fomos ao encontro das origens do rock alternativo. Ver os …And You Will Know Us By The Trail of Dead foi uma viagem no tempo. Não tanto por a banda estar a celebrar a vida, com esta digressão comemorativa do clássico Source Tags & Codes, não tanto por um momento nostálgico de regresso à década de 90, mas porque, durante uma hora, fomos lembrados de que o rock é aquele assalto colectivo de guitarras e bateria, aquela fúria de viver à qual se entregam o corpo e a alma, não interessa quanto anos se tenha, não importa quão desafinada a voz esteja. Os Trail of Dead desencadearam, sem problemas de imagem, preocupações de profissionalismo ou procuras de uma vida arrumada, uma tempestade sonora, sustentada por um intrincado domínio e permeada das imperfeições que o total abandono traz. Vê-los tocar assim, com aquela idade, foi assistir ao aflorar do desejo de sempre no corpo de hoje. Outras bandas de carreira mais novas tentaram-no nesse dia e não foram capazes. No final, não há experiência igual ou mais definitiva do rock alternativo do que uma performance pós-hardcore, onde aparecem, sublimes, as garras invisíveis da mão que se agarra à vida e os dentes transparentes que a ela se abocanham.

Trail of Dead, Slowdive e outros no Paredes de Coura
Conrad Keely, And You Will Know Us By The Trail Of Dead (© Margarida Ribeiro)

Se os Trail of Dead nos trouxeram a vida, os Slowdive transportaram-nos para lá dela. Mais uma banda que podia não existir, neste Vodafone Paredes de Coura, onde, no dia anterior, tinham estado os Fleet Foxes. Mais uma banda na maturidade, nesta noite em que tinham acabado de tocar os Trail of Dead. Eram evidentes, nos Slowdive, a precisão do diálogo instrumental que os ligava entre si, dispensando quaisquer palavras ou cruzar de olhares. As canções saíam meticulosas, com as melodias e a distorção a fluírem, a reverberarem, a encherem todo o espaço em torno, envolvendo o público numa atmosfera de beleza e melancolia vibrante de um desejo indefinido, interminável e tranquilamente insaciável.

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As vozes de Neil e Rachel entranhavam-se na textura tecida pelos Slowdive, arrastando as palavras imperceptíveis que diziam, ao não dizer, o transcendente a que a música tendia incansável. Era compacta a massa de gente que se reunira, enchendo a encosta, para ouvir extasiada aquela atmosfera de pura beleza sonora na qual os membros dos Slowdive se encontravam absortos, que nascia da comunhão entre eles e através da qual entravam em comunhão com o público. Rachel, de cabeça bem erguida, bem direita, a cantar virada para a audiência, reunia em si a sonoridade dos Slowdive e, dando-lhe voz, comunicava-a a todos os que ali se encontravam a ouvi-los. Rachel anunciou a última canção, seguido do inevitável “ohhhh” desolado do público, e, cantadas as poucas palavras iniciais de “Golden Hair”, abandonou o palco à ascese infinita da música, levada a cabo pelo resto da banda. Saída de cena que prenunciava o fim que a canção teimava em negar, numa luta que nos deixou saciados, pouco necessitados ou desejosos do que ainda se seguia. A verdade é que o grande momento do dia e, quem sabe, do festival já acontecera, para nos deixar em silêncio e ficar para a memória.

Slowdive @ Paredes de Coura
Rachel Goswell, Slowdive (© Margarida Ribeiro)

O Vodafone Paredes de Coura termina hoje com os Arcade Fire e ainda Big Thief e Dead Combo, entre outros actos, prevendo-se uma grande afluência do público à Praia Fluvial do Taboão, já que os bilhetes diários para hoje esgotaram já há algum tempo.

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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