Como “Pecadores”, um Filme de Vampiros, ‘Aterrorizou’ Hollywood?
“Pecadores” apanhou-nos ontem de manhã a todos em contrapé. Com 16 nomeações recorde, passou de “erro de casting industrial” a favorito dos Oscars e obrigou a Academia, os outros estúdios e os críticos a quase “engolirem” o sangue que lhe tinham cuspido em cima.
Durante meses, “Pecadores” foi tratado como aquele primo estranho que aparece nos almoços de família e que tem qualquer coisa de raro, como dentinhos de vampiro: toda a gente finge simpatia, mas ninguém o quer verdadeiramente sentado à mesa nem lhe dá conversa, porque ele é esquisito. Um filme de vampiros gótico, passado no sul dos EUA, feito por um realizador negro Ryan Coogler, protagonizado por Michael B. Jordan, lançado fora da época nobre de estreias (Abril nos EUA), sem franchise, sem sequelas anunciadas em Hollywood, isto chamar-se-ia um problema ou melhor normalmente um fiasco. E, no entanto, como “Pecadores” chegou aqui, com dezasseis nomeações para os Oscars? Um recorde absoluto. Mais do que “Titanic”, mais do que “O Senhor dos Anéis”, mais do que praticamente tudo o que não envolva dinossauros ou explosões nucleares. “Pecadores” passou, em menos de um ano, de projecto incómodo a monumento institucional da indústria de Hollywood em crise de identidade.

Do “filme-problema” ao milagre industrial
Há menos de um ano, ninguém parecia muito impressionado com “Pecadores”. O filme foi atirado para um estreia em Abril (dia 17 em Portugal), aquele mês onde os estúdios enterram projectos de que não sabem bem o que lhe fazer, antes do Festival de Cannes. Ryan Coogler era visto como um realizador talentoso, mas “complicado”. Tinha feito um acordo impensável: os direitos do filme regressariam a ele ao fim de 25 anos. Um gesto quase revolucionário num sistema que vive de sugar propriedade intelectual até à última gota. Resultado: reuniões tensas, executivos nervosos, chefes de estúdio a suar frio. Michael De Luca e Pamela Abdy, que apoiaram o projecto na Warner Bros., passaram rapidamente de visionários a irresponsáveis. Em tempos de remakes, reboots e universos partilhados, apostar num filme original parecia quase, um acto de sabotagem interna.
Só que depois veio o público.
Com um orçamento relativamente modesto (90 milhões de dólares), “Pecadores” arrecadou mais de 360 milhões em todo o mundo. Tornou-se um dos filmes de terror mais lucrativos da história. Passou à frente de clássicos como “O Silêncio dos Inocentes” e “The Conjuring – A Evocação”. De repente, o “erro” transformou-se em case study. E Hollywood adora uma coisa acima de todas: transformar sorte em mérito.

Quando Hollywood reescreve a narrativa
Subitamente, “Pecadores” passou a ser visto como obra-prima. Visionário. Profundo. Urgente. Um retrato social embrulhado em terror. Uma alegoria racial. Uma parábola contemporânea. Um milagre artístico. Onde é que estava essa conversa há nove meses? A verdade é simples: este era o tipo de filme que a Academia estava programada para ignorar. Terror? Popular? Feito por uma equipa maioritariamente negra? Sucesso de bilheteira sem pedigree “de arte”? Tudo bandeiras vermelhas. Mas o contexto mudou. Hollywood está fragilizada. Os estúdios estão à venda. A Netflix ronda como vampiro corporativo. A Warner Bros. — que produziu também “Batalha Atrás de Batalha” — pode ser “vampirizada” a qualquer momento. O sistema treme. E, quando treme, procura símbolos. “Pecadores” tornou-se esse símbolo: a prova de que ainda se podem fazer filmes originais, lucrativos e “importantes”. Um verdadeiro unicórnio industrial, usando uma expressão tão em voga. Daí as 16 nomeações: Melhor Filme, Realização, Ator, Atriz Secundária, Argumento, Montagem, Som, Fotografia, Figurinos, Maquilhagem, Canção, Elenco, Efeitos Visuais, Direcção de Arte… praticamente tudo. É a Academia a dizer: “Este é o nosso filme. Olhem como somos modernos.”

A corda bamba política dos votos
Ao mesmo tempo, o fenómeno cria um problema óptico delicioso. Se “Pecadores” ganhar muito, parece um pedido de desculpas tardio à comunidade afro-americana, que se tem vindo a destacar nos Oscars. Se não ganhar nada, parece… outra coisa. Politicamente desconfortável. Culturalmente embaraçoso. Os votantes estão numa corda bamba. E, no meio disto tudo, os antigos favoritos começam a suar. Paul Thomas Anderson olha para as suas 13 nomeações como quem vê um comboio a passar-lhe à frente e as coisas podem correr-lhe, mais uma vez, mal. “Hamnet” consola-se com Jessie Buckley. “Marty Supreme” finge indiferença. “Valor Sentimental” mantém a dignidade nórdica. E o resto do mundo observa.

Entre o populismo e a estratégia
Se vencer Melhor Filme, “Pecadores” tornar-se-á um dos filmes mais comerciais alguma vez premiados. Uma escolha populista? Talvez. Mas num Oscar que se aproxima do centenário, em 2028, reconciliar-se com o público pode ser uma jogada estratégica. O curioso é que tudo isto acontece num ano em que “Wicked: Pelo Bem” foi completamente ignorado — para alegria dos seus detractores — e em que até “Avatar-Fogo e Cinzas” conseguiu uma nomeação para figurinos feitos por computador e cordas digitais. Hollywood continua a ser Hollywood.

Confissão final
Eu, pecador, me confesso: não acho que este seja o maior filme da década. Nem o mais profundo. Nem o mais revolucionário. Longe disso. Mas percebo perfeitamente porque é que chegou aqui: “Pecadores” é o filme certo no momento certo. É sucesso. É política. É símbolo. É redenção industrial. E isso, nos Oscars, vale tanto como talento. Talvez mais. Na madrugada de 15 de Março — via RTP, ao que parece — veremos se a Academia vai coroar o seu novo ídolo ou se vai, como tantas vezes, recuar no último instante. Até lá, resta-nos assistir a este curioso milagre contemporâneo: um filme de vampiros que sugou Hollywood inteira. E deixou-a feliz, afinal não a aterrorizou.
JVM

