Entrevista a Pedro Cabeleira: Bruscamente num ‘Verão Danado’

Depois da menção honrosa no Festival de Locarno e da competição de LEFFEST’17, ‘Verão Danado’, o filme-português-sensação da temporada, chega agora às salas de cinema comercias. Trata-se de excelente trabalho coral, dirigido por Pedro Cabeleira, muito diferente da estética do cinema português mais convencional, através de uma viagem alucinante a uma Lisboa alternativa, underground, after hours e sobretudo um extraordinário retrato de uma juventude inquieta à procura de si própria.

Feito praticamente sem dinheiro e sem meios, filmado ao longo de sete meses num total de 43 dias, fruto da energia e boa vontade de um grupo de alunos recém-saídos da Escola Superior de Teatro e Cinema, ‘Verão Danado’ é uma espécie de parente pobre do cinema português. O que é facto é que apesar de todas as suas fragilidades, consegue ser uma obra originalíssima dentro do contexto do cinema português da actualidade. Pedro Cabeleira, o jovem realizador (n.1992) do Entroncamento, estreia-se com uma surpreendente longa-metragem, e conta como foi dirigir este caos de ideias, meios e pessoas que resultou em algo muito positivo e numa obra única. Esta conversa é uma verdadeira lição do que é fazer cinema sem dinheiro, mas com muita energia e talento.

Pedro Cabeleira

Magazine.HD: Como foi possível fazer um ‘Verão Danado’, praticamente sem dinheiro?

Pedro Cabeleira: Acho que foi mesmo sentido de oportunidade. Tinha acabado há pouco tempo a Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) e tinha muita vontade de fazer um filme. Achei que mais ou menos conseguia reunir as condições para fazer uma longa-metragem.

MHD: Mas fazer um filme exige planeamento…meios, actores…

PC: Tinha ideia que era preciso esquematizar um bocado as coisas. Por exemplo a câmera era uma Cannon 7D emprestada de um amigo meu. Já a tinha usado no meu filme de final de curso. As objectivas eram de um professor da Escola e com mais umas objectivas analógicas da Nikon de uns amigos meus, que adaptei à câmera. Já tinha experimentado e resultavam muito bem. A equipa era constituída por pessoas na maioria da minha turma da Escola. Havia uma colega que era de Som, que tinha investido em material, um gravador e um microfone, que emprestava o material ou estaria disponível para fazer a captação a maioria dos dias de rodagem. Depois outro meu colega, o Júlio também emprestou material de som e fez captação alguns dias. Os actores conhecia-os todos porque no 3º ano da Escola fiz amizade com alguns deles já que partilhamos as mesmas instalações da ESTC, e amigo do amigo por aí fora fui conhecendo pessoas. A verdade é que a ideia de fazer o filme foi criando uma espécie de aura, em que toda a gente queria participar. Ouviam falar que eu andava a experimentar métodos de representação que não estavam habituados, aliás na ESCT os alunos-actores não fazem cinema e esta parecia-lhes uma oportunidade de fazerem filmes. E também porque lhes interessava ter um papel activo na construção do filme. Pedi também algum material de imagem emprestado à Escola, curiosamente muito antigo, que estava lá parado, ainda do tempo do Instituto Português de Cinema. O meu filme de escola passava-se nos anos 50 e eu andava à procura de uns projectores de luz, que pudesse dar um efeito semelhante aquela época. Acabei por fazer o ‘Verão Danado’ com esses projectores. As localizações foram pensadas de uma forma simples, para se fazerem em casas de amigos. Houve uma amiga por exemplo que foi de férias no verão e deixou-me a chaves de casa para filmarmos. Depois foi a boa vontade dos outros espaços públicos como o Jamaica, os Amigos do Minho, que me deixaram filmar sem cobrarem.

MHD: O Pedro Cabeleira falou em métodos de representação novos….

PC: A ideia era fazer um filme de ficção. Para mim a ficção é sempre um falso documentário. ‘Verão Danado’ é um filme de ficção mas sempre muito próximo da realidade, feito a partir de métodos de representação naturalistas, tratando ao mesmo tempo a actualidade. Não queria fazer um filme estilizado, mas com os pés na terra. Havia um proposta de argumento, quase como um diário do Chico, o personagem principal, que ia-mos mais ou menos seguindo, sofrendo mudanças conforme as vibrações e as energias daquilo que ia filmando, até nos ensaios. Eu queria que os personagens fossem pouco a pouco adquirindo autonomia, ao ponto de eu sentir que não tinha controlo sobre eles, e que eles próprios começassem a ter controlo sobre o filme. E aí entra o papel dos actores, a personalidade que os actores foram criando para os personagens, foi afectando a continuidade e percurso da história. ‘Verão Danado’ é fruto desse misto de controlo como na ficção, de um argumento definido a seguir e igualmente da imponderabilidade dos momentos e situações, como no documentário. No entanto, apesar desse lado documental todas as situação foram construidas previamente.

MHD: ‘Verão Danado’, é uma história de uma juventude e que marca um tempo em Portugal: o período da crise, desemprego, falta de esperança no futuro. Ainda estamos nesse tempo de uma certa apatia dos jovens, ainda vivemos essa realidade?

PC: Há sempre esperança. A verdade é que esse grupo de pessoas, esse jovens acabaram por fazer um filme. ‘Verão Danado’ passa-se naquele contexto porque era aquele que estávamos a viver na altura. Na verdade, não quiz fazer um ensaio sobre a crise, mas antes um filme coral, uma história de ficção sobre uma série de pessoas, daquela idade,  a terminarem os seus cursos, que eram meus amigos, amigos de amigos, ou outros com quem me poderia cruzar na rua. A minha ideia não era fazer um retrato geracional, mas antes fazer um filme sobre pessoas, passado na actualidade, sobre coisas que estavam próximas de mim. O contexto foi meramente circunstancial. Queria experimentar esse desafio de filmar individuo a individuo e a forma como as pessoas se relacionam umas com as outras. Sobretudo filmar relacionamentos que de alguma forma reflectem a forma como as pessoas respondem ao exterior, como por exemplo revelam as suas inseguranças naturais de quem está de partida para a vida adulta e à procura de qualquer coisa. Os personagens estavam a viver num contexto de crise, eram todos da mesma idade e por esse ponto de vista acaba por ser um filme geracional, mas não foi intencional. É impossível passar ao lado desse tempo. De facto as pessoas estavam licenciadas e não conseguiam arranjar trabalho. Seria isso só um reflexo da crise ou antes as pessoas andarem a tirar licenciaturas um pouco à toa?

Pedro Cabeleira

MHD: Verão Danado é um filme sobre uma certa Lisboa alternativa, nocturna, ‘da pesada’, contrasta com um olhar luminoso e turístico que a cidade tem agora…

PC: É um retrato de Lisboa, muito semelhante à de muitas cidade europeias. Quando estive  em Locarno conheci pessoas que se identificaram muito com o filme, pois pareciam as noites deles. Lisboa está limpa para aquilo que se quer mostrar lá fora, embora continue a ser uma cidade de contrastes. Lisboa é uma cidade multirracial, aberta, ‘open mind’, tolerante e que tem um meio underground, com este tipo de diversão, esta corrente musical super rica e colorida, com festas que vão de quinta até domingo, que acabam às 6h da manhã que é único e faz parte do espírito da cidade.

MHD: Fica-se também com a ideia de que no meio artístico e alternativo, a malta quer é só sexo, copos e drogas. A  tua ideia era mostrar isso?

PC: Tentei distanciar-me ao máximo do meio artístico, queria que estes personagens estivesse fora. Por exemplo não há nenhum relacionado com o cinema. Queria evitar o mais possível a retórica, que fosse um filme moralista, de referências, de meta-discursos. Interessava-me mesmo era explorar o dia a dia de um grupo de jovens à procura de alguma coisa, durante um verão.

MHD: A Leonor Teles — a realizadora de ‘A Balada de Um Batráquio’, Urso de Ouro 2016 — foi a responsável por uma fotografia muito interessante e de alguma forma diferente da maioria dos filmes portugueses, com uma câmera sempre muito activa e em movimento…

PC: Sim a Leonor Teles fez praticamente todo o trabalho de câmera e fotografia do filme, embora houvessem outras duas pessoas: o Afonso Mota e o Leandro. Mas os créditos são dela obviamente. Mas procurou-se que houvesse uma uniformidade e uma coerência na fotografia e na iluminação, nos dias que a Leonor não pode trabalhar e no fundo naquilo que queríamos para o filme. Cada cena tenta ter a sua própria atmosfera entre o mais intimista e uma câmera mais fixa e outras mais movimentadas de andarmos a seguir ou a viajar com os personagens. E depois há a luz, os tons que diferem e o filme também é um bocado isso.

MHD: As interpretações dos actores são todas muito boas, mas destacava a do Pedro Marujo, que é excelente no Chico, a personagem principal. Que é feito dele?

PC: Depois do filme o Pedro Marujo afastou-se um bocado do mundo da representação. Foi viver para a Moita, esteve lá uns tempos depois voltou para Torres Novas, para trabalhar na reposição de produtos de um supermercado. Graças ao filme, e ainda bem  acho que vai voltar. Já arranjou uma agência para o representar, vai começar com uns pequenos papéis numa telenovela. Acho que tem igualmente com um grupo de pessoas de Torres Novas uns projectos artísticos. E com a estreia do filme vai começar decerto a ser mais visto.

Pedro Cabeleira
Pedro Marujo é Chico em ‘Verão Danado’.

MHD: A banda sonora é óptima há temas conhecidos como ‘Canção do Engate’, do António Variações. Há também inéditos?

JC: Já estavam disponíveis. São músicas do Éme, das Pega Monstro, ou DJ Nigga Fox por exemplo. São temas e músicos que encaixam perfeitamente no espírito e nos caminhos das personagens do filme.

MHD: O filme chama-se ‘Verão Danado’, isto significa um tempo ou um modo?

JC: Acho que é as duas coisas é aquele tempo especifico de um verão que leva aquele modo de estar das personagens. Não é um modo de estar que dure para sempre, faz parte daquele tempo. As pessoas seguiram a sua vida, o filme apanha-os naquele tempo específico, num momento com aquela energia do nada, num certo verão recente. Há também outra razão: já não vou de férias há muito tempo e não saio de Lisboa, porque vivo no Entroncamento. No verão ando entre Lisboa e o Entroncamento o tempo todo. Há cinco anos que não vou a lado nenhum. Fui ao Festival de Locarno, quatro dias e agora talvez viaje um pouco mais pois o filme para além da estreia nas salas aqui em Portugal, vai circular por outros festivais. Mas verdade é que se anda à procura de trabalho é mais fácil encontrá-lo em Lisboa no verão, arranja-se uns ‘empregozitos’ nuns cafés…e acabam por ficarem cá muitas pessoas. Conhecemos todos uns aos outros e há muitas actividades. Lisboa é muito quente no verão, os dias são grandes e as noites quentes e por isso torna-se difícil focarmos em alguma coisa, porque Lisboa é um mar de distrações e de coisas para fazer. Lisboa no verão é mesmo um mar de tentações e o filme é sobre isso.

‘Verão Danado’, na noite underground de Lisboa.

MHD: Conseguiu fazer um filme sem orçamento, ganhou uma Menção Honrosa em Locarno. Já ganhou dinheiro com o filme?

PC: Não ainda não (risos). Aquilo em Locarno foi só uma Menção não deu dinheiro. Se fosse um dos prémios principais não tinha ficado nada mal (risos) eram 40.000€, o de Melhor Filme.

MHD: E agora que está o Pedro Cabeleira a preparar?

PC: Tenho estado a escrever uma ideia para filmar no Entroncamento. Ando à procura de financiamento. Na altura não consegui pagar às pessoas e elas sabiam disso, mas como foi um feito no final da ESTC, ninguém tinha trabalho, foi uma forma de nos afirmarmos todos em conjunto. Mas agora as pessoas têm a vida delas, já não têm disponibilidade para andar a filmar mais de 40 dias sem receber. Agora tenho de ter outras condições para trabalhar, porque isto até correu melhor do que esperávamos. A natureza do filme e aquilo que eles estão a viver é o caos. O meu próximo filme não é isso tem uma estrutura, um argumento e tenho de filmar com outras condições.

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *