"O Pequeno Vampiro" | © Cinemundo

MOTELx ’19 | O Pequeno Vampiro, em análise

O Pequeno Vampiro” é uma aventura animada feita na Europa que tenta tornar histórias de vampiros diversão inocente e descomplicada para toda a família. O filme integra a secção Lobo Mau, dedicada aos mais novos, do MOTELx deste ano.

Perante o produto final isto pode parecer estranho, mas foram precisos os esforços conjuntos das indústrias cinematográficas da Alemanha, Dinamarca, Reino Unido e Holanda para trazer “O Pequeno Vampiro” para o grande ecrã. O filme representa a quarta dramatização dos livros e personagens de Angela Sommer-Bodenburg, que até já deram azo a uma versão televisiva. Trata-se, contudo, da sua primeira representação animada. E não é uma animação qualquer. “O Pequeno Vampiro” é uma clara tentativa de copiar as estéticas digitais que têm feito de estúdios como a Pixar, exemplos de enorme sucesso popular.

A história aqui contada é de enorme simplicidade, mesmo que o guião tente retorcer o enredo de modo a ocupar hora e meia. Algures nas estepes da Europa de Leste, os vampiros não são um mito, mas uma realidade. De facto, são uma realidade corriqueira do quotidiano e os poucos sugadores de sangue que conhecemos parecem mais o elenco de uma sitcom que criaturas da noite e da escuridão. O foco do conto incide sobre um clã cujo membro mais jovem, Rudolph Sackville-Bagg, está prestes a celebrar o seu aniversário. Como seria de esperar, os anos físicos do miúdo imortal não se alteram, sendo ele perpetuamente um rapaz de treze anos.

pequeno vampiro critica motelx
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Além de umas queixas petulantes e muito familiares a qualquer pessoa que tenha visto algum filme com protagonistas juvenis, Rudolph não tem muita personalidade e a questão da imortalidade não lhe parece causar muito transtorno. O que realmente o perturba é o estilo de vida enclausurada que a sua família é obrigada a tomar devido à ameaça dos mortais. Desde cedo, Rudolph foi ensinado a temer os seres humanos que o rodeiam, pois são perigosos e sempre predispostos a caçar a sua espécie. Considerando a presença de dois caçadores de vampiros em perseguição dele e seus familiares, estas precauções não parecem completamente infundadas, há que se dizer.

Depois de uma perseguição aérea que, por momentos, torna o filme numa peculiar proposta de ação, “O Pequeno Vampiro” finalmente testemunha o encontro dos seus protagonistas. Rudolph, separado da família, esconde-se num quarto de hotel onde se depara com Tony, um miúdo americano que está de férias com os pais e que, ao contrário de tudo o que o pequeno vampiro aprendeu, não mostra hostilidade para com o rapaz pálido que consegue voar e tem caninos aguçados. Pelo contrário, Tony adora vampiros e, como também não tem muita sorte a fazer amigos, depressa faz tudo para ajudar e agradar a Rudolph. É uma clássica e muito formulaica história de dois miúdos a aprenderem a olhar além de preconceitos sociais, só que com muita magia e até uma vaca voadora à mistura.

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Infelizmente, apesar da modéstia do conto, temos aqui um exemplo de ambições que vão muito além das capacidades técnicas dos cineastas. É também uma questão de orçamento. Como é evidente. Uma produção europeia, não obstante a quantidade parceiros internacionais que consegue reunir, terá, quase sempre, menos fundos que um cartoon de Hollywood. Com uns parcos 10 milhões de dólares orçamentados, “O Pequeno Vampiro” foi feito com menos de um décimo do dinheiro que a Pixar investe nas suas longas-metragens mais modestas. Não querendo reduzir toda esta crítica a questões logísticas, tais fatores têm influência na qualidade final da obra.

Por outras palavras, a animação e o design de “O Pequeno Vampiro” são horrendos e não no bom sentido. Os espaços são genéricos ao ponto de serem anónimos e o desenho das personagens é ainda pior. Elas têm faces plásticas que se mexem pouco, parecem máscaras mal articuladas e sem um esqueleto, mesmo que estilizado, a lhes dar fisicalidade credível. Talvez para compensar isso, os animadores tentaram que os seus fantoches digitais se expressassem mais pelo movimento do que pela expressão facial, resultando numa pantomima absurda de poses e gestos exagerados. É um tipo de ridículo que nem nas mais excessivas comédias mudas conseguiria passar despercebido.

pequeno vampiro critica motelx
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Não só a animação é má de um ponto de vista interpretativo como é má de um ponto de vista técnico. Os cabelos nunca se movem, parecendo, na sua maioria, capacetes rígidos e demasiado lustrosos. Os tecidos são irreais e quase tão rígidos como as cabeleiras, recusando-se a se mexer com credibilidade até quando as personagens voam pelos céus em mirabolantes acrobacias. Pelo menos quando a vaca voa, há um certo apelo na natureza kitsch da imagem. Quando são os vampiros o efeito tem muito menos charme. Só mesmo a rara textura é que consegue chegar a nível necessário de um filme deste tipo, nomeadamente um breve truque de embrulho humano com papel de alumínio.

Falta de fundos não é, de todo, uma causa necessária de mau cinema, nem mesmo quando se trata de cinema de animação. No entanto, falta de fundos aliada a falta de criatividade e engenho é meio caminho andado para um poço sem fundo de mediocridade cinematográfica. “O Pequeno Vampiro” não é assim tão desprovido de valor, mas certamente tem o sabor de um filme feito por comité em oposição a um trabalho de artistas apaixonados pela aventura animada que estão a fazer. O resultado final não tem vida e muito menos apelo visual. Trata-se do tipo de divertimento pueril que se oferece ao público mais novo por se achar que, para miúdos, tudo vale. A história pode ter o seu charme, mas precisava de ter sido executada de um modo radicalmente diferente. Enfim, sempre temos alumínio convincente e vacas voadoras.

O Pequeno Vampiro, em análise
O Pequeno Vampiro

Movie title: The Little Vampire 3D

Date published: 2019-09-11

Director(s): Richard Claus, Karsten Kiilerich

Genre: Animação, Aventura, Comédia, 2017, 83 min

  • Cláudio Alves - 30
  • Luís Telles do Amaral - 60
45

CONCLUSÃO:

Em termos de animação, “O Pequeno Vampiro” é um fracasso infeliz. Ao nível de narrativa, o filme não é necessariamente melhor. Alguns elementos têm o seu charme e certamente não há nenhuma objeção moral ou ideológica a apontar. A não ser que considerem aborrecimento e animação feia como crimes morais, é claro.

O MELHOR: O gado com proclividades aeronáuticas.

O PIOR: A animação de personagens, especialmente os cabelos e as caras.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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