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Queer Lisboa ’22 | Fogo-Fátuo, em análise

“Fogo-Fátuo” é a história de um príncipe no quartel, um sonho molhado de cinema queer sem vergonha ou limites. Em suma, o novo filme de João Pedro Rodrigues, originalmente estreado na Quinzena dos Realizadores em Cannes, foi a forma perfeita de dar início às festividades de mais um Queer Lisboa. No seu 26º ano, o festival continua a ser um dos melhores eventos do género em Portugal.

Nos tempos que correm, quando o governo declara luto nacional em honra de rainha estrangeira, o novo filme de João Pedro Rodrigues aparece como um tónico, uma piada trocista que age sobre a nostalgia monárquica como a agulha que perfura um balão. Não que o autor português sublinhe essa qualidade quando apresenta a fita. Fogo-Fátuo” autodeclara-se uma fantasia musical, mas também se poderia caracterizar enquanto conto-de-fadas entesado ou quiçá uma piada marota com interlúdios dançantes pelo meio. Tantos nomes e descrições consegue esta obra suportar, um testamento à sua ambição e um milagre curioso quando se considera a curta duração.

fogo fatuo critica queer lisboa
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O filme dura só 67 minutos, número frustrante que fica um par de suspiros aquém dos 69 minutos. Não seria esse número mais apropriado? Afinal, a ação começa em 2069, num Portugal não muito diferente dos paradigmas atuais, onde cada rua mostrada é um piscar de olho com prenúncios de imagética fogosa. Nesse futuro incerto, deparamo-nos com uma cena de luto eminente. Qual Cristo pintado por Caravaggio, Joel Branco faz de Alfredo, jazendo em jeito de corpo autopsiado. Ele dorme e espera a morte. Lá fora, na periferia do quarto, fala-se de um rei moribundo, o pretendente ao trono português que chega assim ao fim sem deixar descendência, morrendo sem fundos num reino virado República.

Dito isso, a cena dentro dos aposentos do quase-rei não é necessariamente pesada ou de algum jeito solene. Uma pintura de traços racistas remete para o passado colonial, enquanto um descendente miúdo brinca com um camião dos bombeiros por cima da carcaça real e lá vai cantando cantiga antiga. A banda-sonora lá se interrompe de vez em quando por uns traques bem altos, o moribundo soltando gases gritantes neste prelúdio do fim. Dois dos alvos principais dos cineastas aqui se afiguram – o monarquismo que ainda vinga em alguns círculos lusitanos e o modo como muita da História portuguesa se edifica com base numa estrutura racista, heranças de um império perdido.

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É claro que, temos de esclarecer, “Fogo-Fátuo” não se trata de uma tese ou de um ataque febril. Pelo contrário, é mais próximo do sonho, do conto-de-fadas anteriormente referido. É um filme muito doce e pateta, inebriado de prazer, cheio de erotismo e uma veia surreal que casa cinema com teatro. Veja-se como começa o flashback que dá início à ação principal. Induzido pelas brincadeiras do menino travesso, Alfredo lá nos leva numa viagem pelos jardins da memória, recuando até a sua juventude nas primeiras décadas do século XXI. Aí o encontramos com o pai, seu rei, discutindo a superioridade aparente da mata real em termos tão vigorosos que inspiram a ereção do príncipe.

O primeiro número musical tem então lugar, com crianças em uniforme de escolinha privada cantando essa melodia sobre as árvores que ecoa pelo filme, desde 2011 a 2069. Prelúdios musicais dão aso a prólogos na casa real, onde a paródia monárquica forma um circo afetado que inclui cadelas chamadas Maria Pia e uma rainha decorosa que, de vez em quando, mira o espetador em gesto de decoroso pudor. Há uma dimensão Buñuelana nestas cenas, um jogo de afetações que se estendem às vocalizações do elenco. O Alfredo jovem, agora interpretado por Mauro Costa, é uma clarividente paródia de certos aristocratas obsoletos, pelo menos no que se refere à forma de falar.

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Enfim, tanta palavra e ainda nem chegámos à ação principal de “Fogo-Fátuo.” Apressando o paço, fica a ideia de que o príncipe que não é príncipe se deixa comover pelas imagens dos fogos que assolam Portugal todos os verões. Decidido a marcar a diferença além do seu estatuto enquanto símbolo inerte de ordens velhas, ele lá decide tornar-se num soldado da paz – não num sargento – e alista-se como bombeiro voluntário. Em cenário de quartel, o filme chega ao seu apogeu de provocação e brincadeira, trazendo a euforia do bailado sexual e um novo herói erotizado para levar o príncipe e o espetador até ao píncaro do prazer. Ele é Afonso, interpretado por André Cabral e uma história de contrastes abismais quando comparado com Alfredo.

Um jovem é alvo pretendente a uma coroa que nunca lhe pertencerá, filho do privilégio cuja impotência política é tão intensa como a carga simbólica que ele mesmo representa para as elites conservadoras da nação. O outo bombeiro, por seu lado, é preto descendente de imigrantes, estudante de sociologia e futuro líder republicano, o progresso em forma esbelta. Como não podia deixar de ser, os incêndios lá fora são reflexo das chamas de desejo que se estabelecem entre as personagens, um amor proibido expresso com desavergonhado erotismo. Fazem-se danças onde a coreografia é o orgasmo – como era nos musicais clássicos de Arthur Freed – e no mato se deixam levar os homens pelo 69 e esperma na cara.

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É um êxtase puro por onde o abuso e o preconceito são reapropriados enquanto dirty talk e a cantiga infantil vira provocação. Não queremos estragar a surpresa para o leitor curioso em experienciar o filme sem saber todos os seus segredos e surpresas, por isso não revelaremos muito mais sobre a narrativa. Fica o apontamento de que só se protege com afinco aquilo que se deseja loucamente, uma ideia expressa em slideshow de pilas viradas arvoredos lusitanos. “Fogo-Fátuo” é explícito e falso também, um jogo de estilizações manientas que jamais procura o realismo. De facto, essa palavra é tabu no edifício fílmico aqui construído.

Melhor seria definir a obra como pós-realismo ou um artifício paradoxal na mesma linha do “Technoboss” de João Nicolau. Tudo é coreografado até aos extremos da curadoria gestual – veja-se um calendário de bombeiros reencenado enquanto trocadilhos de pornografia gay com nome de pintura clássica. Tudo é uma mentira que fala verdade mal-educada, um fado do falo que deleita e faz pensar, que entretém e espicaça. Ver “Fogo-Fátuo” é sentir-se parte de um circo filmado onde a vertente onírica serve como um espelho distorcido para o Portugal dos nossos dias. Respondamos então aos apelos que o filme expressa no jogo e na folia.

Vamos abolir as tradições imperialistas de outrora e fazer união carnal com o progressismo, abrindo as portas ao futuro um orgasmo de cada vez. Neste paradigma da tumescência excitada, o corpo é político e o sexo é revolução, a piada serve de manifesto e a invetiva pode ser tanto um mero gozo ou algo maior. Fica a cada espetador decidir o que tira de “Fogo-Fátuo,” mas algo é certo – soltar-se-ão gargalhadas e ninguém ao filme ficará indiferente, quer o detestem ou amem. Nós amamos, como é óbvio.

Fogo-Fátuo, em análise

Movie title: Fogo-Fátuo

Date published: 17 de September de 2022

Director(s): João Pedro Rodrigues

Actor(s): Mauro Costa, André Cabral, Joel Branco, Oceano Cruz, Miguel Loureiro, Margarida Vila-Nova, Teresa Madruga, Ana Bustorff, Anabela Moreira, Raquel Rocha Vieira, Cláudia Jardim, João Villas-Boas, Joana Barrios

Genre: Comédia, Musical, Romance, 2022, 67 min

  • Cláudio Alves - 88
  • Maggie Silva - 85
87

CONCLUSÃO:

“Fogo-Fátuo” foi maneira estrondosa de dar início a mais uma edição do Queer Lisboa. Trata-se de um dos grandes filmes portugueses de 2022, um sonho e um circo, uma piada e uma provocação que excita e deleita em iguais proporções. João Pedro Rodrigues continua a solidificar o seu estatuto enquanto mestre do cinema contemporâneo, mas os seus filmes continuam livres de seriedades inusitadas – um feito que merece aplausos, um brinde, um orgasmo!

O MELHOR: O sentido brincalhão que permeia todo o exercício, desde o trabalho de ator nas antípodas do artificialismo até ao bailado de quartel, o erotismo de bombeiros despidos e as ereções de borracha reluzente.

O PIOR: Que aflição o filme não ter 69 minutos. Uns créditos mais compridos e resolvia-se o problema!

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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