“Snu” e Sá Carneiro

“Snu” e Sá Carneiro | O Filme

A realizadora Patrícia Sequeira está a rodar um filme sobre a história de amor entre a editora dinamarquesa Snu Abecassis e o antigo primeiro-ministro Sá Carneiro, que terminou de uma forma trágica em 1980, na queda do Cessna em Camarate. Estreia a 27 de setembro nos cinemas nacionais.

Snu Abecassis

Snu Abecassis, a enigmática dinamarquesa fundadora da editora Dom Quixote, que chegou a desafiar o Estado Novo em nome da cultura e da iliteracia nacional, era elegante, discreta, destemida, sonhadora, e muito diferente das mulheres portuguesas daquela época dos primeiros passos da democracia depois do 25 de Abril. Snu parecia uma daquelas personagens femininas, saídas de um filme do realizador sueco Ingmar Bergman, muito admirado pela intelectualidade dessa altura e ainda hoje um dos maiores da História do Cinema. A relação amorosa de Snu — separada do empresário Vasco Abecassis —  com o primeiro-­ministro, Francisco Sá Carneiro, — casado ainda com Isabel Sá Carneiro — foi um escândalo, que abalou a conservadora sociedade portuguesa nos anos quentes de 1975/76. Foi a poetisa Natália Correia que os juntou num das suas famosas tertúlias. Depois desse jantar, nunca mais se separaram, tudo por causa de uma edição de um livro sobre as ideias políticas de Sá Carneiro. Durante 5 anos, os dois viveram uma paixão arrebatadora, pecaminosa aos olhos da Igreja, da sociedade e da elite portuguesa de então. O Papa recusou-se a recebê-los e os adversários políticos chegaram mesmo à baixeza de usarem esse relacionamento amoroso, para fazer oposição. Francisco Sá Carneiro, teimoso e temerário, resistiu. Os ataques à paixão do casal tornaram-se até contraproducentes, pois Sá Carneiro seria eleito primeiro-ministro, com a AD a ter maioria absoluta. Tal como muitas das grandes paixões da História, a de Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis acabaria em tragédia. Como tudo o que é belo e intenso, enquanto dura, a história de amor de Snu e Sá Carneiro só poderia ser um bom argumento para um filme.

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Snu

Produzido pela Sky Dreams, do advogado escalabitano José Gandarez em co-produção com a Santa Rita Filmes, “Snu” é um filme inspirado em fatos verídicos, que acompanha essa ‘história de amor e coragem’, vivida entre Ebba Merete Seidenfaden, o seu nome de solteira, e Francisco Sá Carneiro, até ao trágico e polémico acidente que custou a vida a ambos, em Camarate, na fatídica noite de 4 de dezembro de 1980. É dirigido pela realizadora Patrícia Sequeira (“Jogo de Damas”, 2016), protagonizado por Inês Castel Branco e Pedro Almendra, que trabalham juntos pela primeira vez — ontem no set as semelhanças com os personagens eram evidentes — e que tem pela frente, como aliás reconheceram, um desafio muito difícil, de interpretar personagens reais. O filme conta ainda no elenco com participação de Inês Rosado, Simon Frankel, Ana Nave — a fazer da poetisa Natália Correia, grande amiga do casal —, Patrícia Tavares, Pedro Saavedra, entre outros.

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“Snu” é uma história de ficção a partir de factos reais em que o foco é uma história de amor, por isso não recriará o acidente fatal. A narrativa terminará quando entram no avião, afirmou a realizadora Patricia Sequeira, ontem numa conferência de imprensa, realizada no Hotel Ritz em Lisboa, onde decorrem ainda filmagens. “O filme está carregado de coisas reais. Às vezes a realidade não é tão interessante, por isso vamos por outros caminhos e, quando entramos na porta de intimidade, ninguém sabe”, disse ainda Patricia Sequeira. O argumento foi escrito por Cláudia Clemente, com consultoria da historiadora e jornalista Helena Matos, e baseia-se nas biografias de Snu Abecassis, Sá Carneiro e em documentação da época. Helena Matos descreveu-o como “um filme arriscadíssimo” pelo seu contexto político, pela própria particularidade da relação entre a editora e o político, pela polémica em torno do acidente em que ambos morreram, e porque é ainda uma memória recente da História de Portugal. “Os portugueses não estão habituados a ver ficção com as suas personagens vivas. Passam a vida a dizer que não é ainda o tempo de falar dessas coisas, quanto mais fazer ficção sobre elas, concluiu Helena Matos.

snu
Snu

Inês Castel Branco, no papel de Snu Abecassis, recordou ainda que, na sua preparação, leu e viu tudo o que havia disponível sobre Snu Abecassis e complementou essa pesquisa com uma viagem a Estocolmo, para perceber melhor a cultura e a educação que a editora viveu antes de vir para Portugal. Por sua vez Pedro Almendra disse que tentou “chegar à pele de alguém que ainda está muito presente na memória dos portugueses”.

Snu
Snu

Seis anos depois da morte de Snu Abecassis, a sua mãe, a jornalista Jytte Bonnier, escreveu a sua biografia, intitulada “Snu”,  publicada em 2003, pela quetzal de Zita Seabra, curiosamente com prefácio do actual Presidente da República,  Marcelo Rebelo de Sousa, líder do PSD entre 1996 e 1999. Em 1983, Agustina Bessa-Luís escreveu “Os Meninos de Ouro”, supostamente um retrato da vida de Francisco Sá Carneiro com a mulher legítima, Isabel, mãe dos seus cinco filhos, a sua paixão por Snu e por fim a chegada ao poder. Em 2007, Miguel Real publicou a novela “O Último Minuto na Vida de S.”, já adaptada para teatro com Sylvie Rocha como protagonista, e, em 2011, Luís Filipe Rocha fez o excelente filme “Camarate”, em que questiona muitos dos factos e da investigação do chamado ‘Caso Camarate’. Este filme “Snu”, decididamente não vai por aí, pelo inquérito. A jornalista Cândida Pinto debruçou-se profundamente também sobre esta história, realizando em 2005 um documentário e depois a biografia em livros intitulada “Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro”, publicada pela Dom Quixote, em que contou com a colaboração de Francisco, o filho mais velho do ex-primeiro-ministro e da colega da SIC, a jornalista Rebecca Abecassis, a filha mais nova do casamento de Snu com Vasco. Recorde-se ainda que a história da relação entre Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro já esteve para ser transformada num telefilme, por Vicente Alves do Ó (“Al Berto”), mas “foi cancelado por razões misteriosas” em 2014, segundo uma publicação do realizador no seu Facebook.

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Este filme “Snu”, de Patricia Sequeira, conta com um orçamento de cerca de um milhão de euros e tem apoio do Instituto do Cinema e Audiovisual, NOS, RTP e da Câmara Municipal de Lisboa.

José Vieira Mendes

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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