Suspiros por Sting no último dia do MEO Marés Vivas 2017

A calma de Joe Sumner, o romantismo de Miguel Araújo, a nostalgia de Sting e o samba de Seu Jorge tomaram o palco do último dia do MEO Marés Vivas 2017.

O terceiro dia do festival gaiense viu-se de novo preenchido por bastantes caras, umas novas, outras que já estariam a percorrer o recinto pela terceira vez seguida. Desta vez à hora habitual, o palco Santa Casa preencheu-se como de costume com música portuguesa, primeiro com o Space Rock de Caelum, e depois com uma das boy-bands jovens do momento, ÁTOA.

No palco principal, os ânimos já aqueciam e a multidão compunha-se na espera pelo ex-Police, cabeça de cartaz do dia. Mas iriam ter primeiro oportunidade de ouvir o seu filho mais velho, Joe Sumner, que fez as honras de abertura do dia em modo quase acústico, apenas na companhia da sua guitarra e da sua voz – e rapidamente fez perceber o quão parecida é com a do seu progenitor. Joe Sumner, que começou a sua carreira a solo há 5 anos, apresentou-se tímido para um público com expectativas elevadas e que só cantarolou um pouco com a chegada de “Jellybean“, o single de estreia do artista. Agradável, mas pedia-se mais para um palco daquela magnitude.

meo marés vivas
Fotografia: MEO Marés Vivas

Seguiu-se Miguel Araújo, já bem conhecido pelo povo português. Iniciou com “Fado Dançante” e logo recordamos porquê que o músico é naturalmente acarinhado pelo público, sendo que algo acerca da combinação da sua sonoridade romântica e do pôr-do-sol no Cabedelo fizeram o recinto ficar mais composto, de modo a conseguirem acompanhar os êxitos cuja letra já sabem de cor. E a primeira vez que se ouviu um coro foi com “Pica do 7“, tema de António Zambujo mas escrita por Araújo e que os dois amigos habitualmente partilham entre si; “Recantiga” aqueceu os ânimos, e “Anda Comigo Ver os Aviões” foi quase toda entregue ao público, sendo o único tema d’Os Azeitonas que acrescentou.

Apresentou “Axl Rose” como a novidade, e trouxe ainda uns convidados muito especiais: os seus tios, que tinham uma banda de covers chamada Kappas nos anos 60 e 70 e muito animados o acompanharam em palco. Terminou em alta, com “Dona Laura” seguida de “Os Maridos das Outras“, cuja margem do Estuário do Douro já preenchida acompanhou com prazer. O músico combina com Portugal, e, pelo boca do próprio, “a seguir… Sting”.

O momento mais esperado pela maioria dos presentes havia chegado, e foi mesmo o britânico a cantar e encantar. Sem apresentações, faixas nem meias-palavras, Sting entra em palco às 23 em ponto e mostra-se através da música, bem representativa da sua carreira: êxitos de The Police não faltaram, “Synchronicity II” e “Spirits in the Material World“, e o público corresponde; mas delira quando, logo à quarta música do alinhamento, recebe “Englishman in New York“, claramente mais adorada pelos presentes e que, para quem ainda não estava familiarizado com os alinhamentos da tour ’57th and 9th’, assim de surpresa soube tão bem. Pelo meio houve tempo para mais uma recordação de The Police, “Every Little Thing She Does is Magic“, e a partir do momento em que se ouviram os primeiros acordes de “Fields of Gold“, silêncio no MMV. As pessoas queriam ouvir o êxito de 1993 totalmente pela voz do seu criador, que se entregou totalmente ao manto infindável de pessoas e os presenteou com “Shape of my Heart” logo de seguida, sendo que nesta já todos se juntariam em uníssono, até o filho Joe Sumner, que até então tinha estado sempre em palco mas apenas no coro.


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Message in a Bottle” surge logo após, trazendo a palco de novo o legado de The Police, precedendo o momento em que o ex-vocalista passa a tocha ao filho quase de forma simbólica, declarando que “o pai está cansado” e deixando-lhe o microfone para um tributo a David Bowie, que terminaram juntos. Os êxitos pareciam infinitos, com “Walking on the Moon“, “So Lonely” e “Desert Rose” como antecedentes de outro dos momentos soberbos da noite: a tão conhecida “Roxanne” numa amálgama com “Ain’t no Sunshine“, que puxou pelas vozes afinadas e precedeu o primeiro momento em que Sting deixa o palco sob um manto de aplausos que pareciam não terminar.

No retorno para encore, as escolhidas são “Next to You” e “Every Breath You Take“, mostrando mais uma vez que, por mais anos que passem, a herança de The Police está presente no vocalista. E como o Douro queria (muito) mais, houve ainda tempo para um segundo encore e um final de concerto com “Fragile“, num registo mais melodioso e que permitiu a todos os presentes aproveitar os últimos momentos da oportunidade quiçá única de estar presente num espetáculo como este, num momento tornado perfeito até pelo orvalho que já se sentia a cair. A idade parece não passar pelo sexagenário, num espetáculo recheado de êxitos que não deu tempo para ninguém tirar os ouvidos da atuação nem um pouco.

MEO Marés Vivas
Fotografia: MEO Marés Vivas

Seu Jorge foi o escolhido para fechar a edição de 2017 do MEO Marés Vivas, possivelmente a última na paisagem da Praia do Cabedelo. Apesar do cansaço acumulado e do orvalho cada vez mais forte, o brasileiro chegou e venceu com um espetáculo algo diferente do presenciado no dia anterior no festival Super Bock Super Rock. De um concerto intimista para uma mini-orquestra a acompanhar, o bem resistente público pode assistir logo de início a “Burguesinha“, e os ritmos quentes da MPB aqueceram o que se estava a tornar numa noite fria. Mas foi com “Chega de Saudade” que ganhou finalmente a atenção do público, e uma interpretação sentida de “É Isso Aí” completa o crescendo.

Após um momento instrumental de solos dos vários instrumentos que compunham o palco, o samba chegou ao recinto e apesar da chuva poucos foram os que conseguiram ficar parados ao som de “Mas Que Nada“, numa ode ao que de melhor nos chega do outro lado do oceano. “Amiga da Minha Mulher“, levanta de novo os presentes dos seus lugares para dançar, e “Mina do Codomínio” termina o concerto, de forma tão energética como só no Brasil se consegue. Mais um dia para recordar.

A edição do próximo ano do MEO Marés Vivas decorrerá em 3 dias entre 19 e 22 de julho, em local ainda a determinar.


Texto: Ana Rodrigues 
Fotografia: Catarina Fernandes e MEO Marés Vivas

Ana Rodrigues

Seriófila, e amante das artes cinematográficas.

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