Stranger Things | 1ª Temporada em análise

Se esta não foi a obsessão do teu verão, prevemos que poderá vir a ser o vício do teu outono.

Stranger Things foi o grande lançamento da Netflix para a estação do calor, praia e ondas e a aposta revelou-se uma vitória redonda, tornando-se instantaneamente um dos grandes hits do verão de 2016.

Criada pelos irmãos Duffer, a série apresenta um mistério sobrenatural embrulhado em incontáveis referências e homenagens aos titãs culturais dos anos 80.

Quando um rapaz desaparece, uma pequena vila descobre um mistério relacionado com experiências secretas, assustadoras forças sobrenaturais e uma estranha rapariga – a sinopse é tão enigmática como o próprio produto final, que está preparado para sugar quem se aventure nos seus enigmas e deixar qualquer um desesperado por mais. Composta por oito episódios de cerca de 50 minutos que vão estabelecendo cada vez mais momentum, Stranger Things é uma daquelas séries televisivas em que é perigoso pegar num fim-de-semana, por corremos o sério risco de chegar a segunda-feira com um post deprimido no Facebook a desejar imediatamente a 2ª temporada.

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Narrativamente, poderíamos até começar por dizer que a melhor parte de Stranger Things não é exatamente a história, mas a forma como Matt e Ross Duffer a contam. É certo que a ambiência podia ser outra – inclusive a nossa, pejada de tecnologias imediatas e relações cibernéticas na aldeia global dos iPhones, iPads e wifi democrático – mas assistir a Dustin, Mike e Lucas a comunicar através de walkie-talkies “tijolescos” e jogar Dungeons and Dragons com um entusiasmo que nenhuma criança consegue hoje em dia emprestar a um jogo de tabuleiro parece, de alguma forma, muito mais autêntico e relacionável.

Como faroleiro nostálgico, é uma carta de amor aos anos 80 e às manifestações artísticas que marcaram era – desde o cinema (E.T., A Coisa, Os Goonies, Poltergeist, Conta Comigo, O Poder do Fogo), à música (que navega entre as sonoridades eletrónicas do synthpop e a expressão punk rock de The Clash e Joy Division). Desde referências diretas a aparentes reencenações assumidas, tudo é feito com genuíno afeto pela era, assumindo tanta alma e coração que é virtualmente impossível categorizá-lo como pouco original.

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Todavia, vale a pena sublinhar que Stranger Things não se limita a aparecer como um festival de nostalgia e homenagem aos anos 80, mas algo que existe por si mesmo e que poderia muito bem encaixar-se no tempo em que se passa. Desta forma, emerge não apenas como uma homenagem mas como uma peça de entretenimento que parece diretamente retalhada da grelha televisiva de 1983, onde cada um destes nostálgicos Easter Eggs são elementos insubstituíveis que ajudam a contar a história – e ainda que possamos não ser capazes de apanhar todas as referências culturais, a série da Netflix mantém-se como uma obra notável, com uma história viciante criada de forma muito inteligente e transportada por personagens complexas a quem nos apegamos com grande facilidade.

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Desde o primeiro ato do primeiro episódio, Stranger Things alicerça-se num poderoso e cativante mistério que nos transporta verdadeiramente para o seu mitológico universo ao longo de oito episódios.

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O problema de uma série que se alimenta continuamente de um mistério é, muitas vezes, o final – se o investimento da audiência foi conseguido e se o caminho que a série tomou é genuinamente bom e o fecho é desapontante, a série fica inequivocamente manchada para a eternidade. No passado recente a história viu-o acontecer com o surrealismo de Perdidos, ou até com o mais simples enigma da comédia Foi Assim que Aconteceu.

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Ainda que Stranger Things deixe uma série de questões sem resposta (lá iremos), podemos dizer que, de um modo geral, aterra em território seguro para o fecho da temporada, atando as pontas do desaparecimento de Will e da chegada de Eleven de uma forma que parece digna e satisfatória de uma série que nos ocupou cerca de 7 horas de vida.

Não sendo, por definição ou objetivo, uma série de terror, encapsula ainda uma boa dose de sustos, arrepios na espinha e doses de adrenalina que deverão apelar aos fãs do género e deixar uns quantos espectadores com um renovado pavor de cantos escuros.

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Num contexto menos positivo, há um conjunto de pormenores que impedem, ainda assim, a série da Netflix de sair da mesa com um imponente Royal Flush.

O primeiro dos quais, e que pode ser questionável pelo gosto maior ou menor em manter mistérios, é a ligeira falta de explicações no enredo. Apesar de sair com uma conclusão completa e mais ou menos satisfatória, há uma série de elementos da mitologia criada que os criadores da série decidem não explicar – particularmente sobre o Upside Down, a sua natureza e propósitos ou que tipo de experiências estão realmente a ser levadas a cabo e o que implicam verdadeiramente –  quer porque são deixados em aberto para a segunda temporada, quer por falta de tempo, quer por falta de interesse na abordagem. Há muitas coisas estranhas e loucas a acontecer e que se manifestam de diferentes formas, mas muitas delas, apesar de funcionarem exemplarmente por si mesmas, têm alguma dificuldade em encaixar-se pacificamente no todo, gerando um foco menos concentrado na mitologia.

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O segundo é digno de infindáveis memes e brincadeiras online – afinal, por que raio ninguém quer saber de Barb? É verdade que o epicentro da série diz respeito ao desaparecimento de Will, mas também é verdade que sabemos muito mais de Barb quando esta desaparece do que do amigo de Mike, Dustin e Lucas. Mais problemático é o tratamento deste desaparecimento retratado numa preocupação muito superficial por parte das personagens – ninguém além de Nancy parece particularmente incomodado pelo desaparecimento instantâneo de mais uma jovem em Hawkins e mesmo esta apenas se demonstra ligeiramente perturbada quando descobre o destino daquela que era, até ao momento, a sua melhor amiga. E enquanto é certo que Barb não era, de longe, um ponto de foco da série, fazia algum sentido reconhecer-lhe relevância na história ou, pelo menos, assumir-lhe abertamente o destino.

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A terceira e última particularidade vem encaixar-se numa tendência contemporânea que contempla a necessidade recorrente de explorar um triângulo amoroso numa narrativa que não é, em rigor ou tema, romântica. Grosso modo, não há qualquer problema ou preconceito em fazê-lo, mesmo considerando a falta de originalidade do dispositivo, mas de um modo geral o que acaba por acontecer é que a dinâmica amorosa não consegue acompanhar o interesse da história central, algo que acontece também em Stranger Things, revelando-se assim uma incursão de subenredo pouco estimulante, frustrante e aborrecida.

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Entrando nos domínios do elenco, vale a pena recordar que Winona Ryder se catapultou para a fama na segunda metade dos anos 80, pelo que é curioso e deliciosamente fatídico que a sua ressurgência no séc. XXI esteja alicerçada numa série com raízes nessa mesma década. Como uma mãe assoberbada por luto e raiva, Ryder é particularmente soberba no retrato de uma mulher que todos julgam estar louca. No catálogo adulto, não podemos esquecer ainda o seu comparsa de várias lutas, David Harbour, que como o Chefe da Polícia Hopper equilibra na perfeição a inteligência e firmeza de um verdadeiro agente de autoridade com uma certa exaustão da civilização humana.

Mas se falamos em elencos estelares, não podemos deixar de reservar alguns (ou todos!) os parágrafos ao lote de jovens atores que constroem a alma e coração da série.

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Surgindo como (quase) estreantes, Finn Wolfhard, Caleb McLaughlin e Gaten Matarazzo incorporam o espírito dos Goonies, divertidos, emocionantes e emocionais, mas de uma forma que se sente intrinsecamente verosímil e verdadeira – em particular, Matarazzo, que se tem revelado um dos grandes favoritos dos entusiastas da série como o espírito-livre e comilão de Dustin. A juntar-se ao grupo temos ainda a já icónica Eleven interpretada com incrível alcance emocional por Millie Bobby Brown.

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No passado recente, Super 8 de J.J. Abrams surgiu como uma homenagem assumida à realidade artística e cultural dos ano, particularmente ao olhar de Spielberg no género, mas em Stranger Things a mistura de conteúdo e inspirações é tão mais rica e variada que ajuda a série a destacar-se, criando adicionalmente um universo convincente para si mesmo, com uma identidade vincada e povoada por grupo de personagens com os quais facilmente nos identificamos.

Negro, arrepiante e intrigante, este throwback aos anos 80 de Spielberg, Carpenter e King é uma mescla de maravilha e terror que não se deixa amedrontar pelas humildes fraquezas que se lhe reconhecem, mergulhando num microcosmo atmosférico e absolutamente cativante do início ao fim.

No fundo, Stranger Things relembra-nos de uma era mais simples, onde o escapismo não parecia uma desculpa para explosivos mecanismos de ação ou efeitos visuais de encher a barriga, tornando-se, por isso, muito fácil de recomendar, muito difícil de ignorar e impossível de resistir.


Título Original: Stranger Things
Realizador: Matt & Ross Duffer
Elenco: Winona Ryder, Millie Bobby Brown, David Harbour
Netflix| Drama, Mistério, Thriller, Sci-fi | 2016 |

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Catarina d’Oliveira

Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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