Super Bock Super Rock 2015 | Sting traz nostalgia e mostra como se faz

 

Agora já não é Meco, sol e Rock n’Roll. O rock voltou à cidade neste “novo” Super Bock Super Rock. Pode até dizer-se que Festival acabou por perder a mística – ou imagem de marca, se preferirem – com esta mudança, mas quem foi ontem ao Parque das Nações, terá sido obrigado a engolido em seco algumas reservas que eventualmente ainda poderiam ter. 

A tarde solarenga convidava a banhos, mas a praia não estava lá. Quem também não marcou presença foi o saudoso pó do Meco e aquele espírito desleixado de quem combinava uns calções de banho, uns chinelos e uma t-shirt aleatória para ir assistir a um rol de concertos imperdíveis – o verdadeiro espírito de festivaleiro. Em vez disso temos o Tejo e a aura citadina lisboeta. E ainda que seja cedo para avaliar se a troca terá valido realmente a pena, podemos dizer que o novo espaço do Super Bock Super Rock acaba por surpreender pela sua beleza, organização e amplitude.

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Com dois palcos indoor e outros dois outdoor, mas com acessos fluídos e espaços amplos – mesmo nas zonas mais críticas como as da restauração ou casas de banho -, o Super Bock Super Rock acaba por encontrar um enorme espaço para alicerçar as suas edições futuras, ainda que haja melhorias a fazer no futuro.

Depois de uma visita a cada canto e recanto – onde não nos escapou a nostálgica exposição relativa aos 20 anos do Festival – lá fomos nós até ao Palco EDP que se ergue junto à pala do Pavilhão de Portugal. Ao fundo, o Tejo aguarda ansiosamente pelo pôr do sol. Nós esperamos também pela luz de Perfume Genius.

Ainda antes de vermos Mike Hadreas subir ao Palco, ficamos a descobrir o rock psicadélico dos King Gizzard & The Lizard Wizard. A energia de uma banda de garagem está aqui bem patente e é transmissível. Com instrumentos diversos e energia que sai da alma, o grupo Melbourne acabou por ganhar um lugar na nossa lista de ‘bandas a investigar com maior detalhe no futuro’.

Seguiu-se então Mike Hadreas com o seu projeto Perfume Genius que aqui apresentava o aclamado álbum “Too Bright”, editado em 2014 e unanimemente considerado um dos melhores trabalhos daquele ano. E o início não foi realmente brilhante. Um ligeiro atraso seguido de uma falha técnica acabaram por conduzir Mike até à plateia para abraçar os fãs, em género de manobra de diversão enquanto tudo ficava solucionado. O improviso resultou e Mike tornou-se logo ali uma das figuras mais simpáticas e comunicativas de todas as que ainda iríamos conhecer no resto do dia.

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Na sessão live lounge para a KEXP, Mike Hadreas confessou que as novas sonoridades do seu terceiro álbum de estúdio estavam debruçadas em instrumentos – “máquinas”, como lhe chamou – que ele não dominava, apesar de ter a perfeita noção dos resultados que pretendia obter. Em consequência disso, assistimos no Palco EDP a uma mistura de temas dos dois primeiros álbuns onde é sobretudo Mike, munido de um piano, que lidera toda a manobra em palco, mas também temas mais recentes onde ele tem de encarnar o papel de performer, dançando como um alien em transe. Apesar de algumas falhas recorrentes no arranque de versos, Mike redime-se sempre. Seja com um falsete de revirar os olhos em “Fool” ou com mensagens para a alma em “Lookout, Lookout”, há sempre coisas a extrair de Perfume Genius. Agora só pedimos um concerto noturno e em nome próprio porque aqui soube a pouco.

Já atrasados, corremos até ao Palco Super Bock, instalado numa MEO Arena com via aberta para o recinto e bancadas, para ver o que restava do concerto dos The Vaccines. Ainda fomos a tempo dos hits “All in White“, “If I Wanna” e “Norgaard”, e dos novos temas contagiantes como “20/20” ou “Give Me a Sign”. O indie rock ali entranha-se no pop eletrónico e a energia é descomunal. Com Justin Young já a transpirar o Tejo – uma pena a MEO Arena não ser descapotável – o concerto acaba com a promessa de que nos voltamos a ver. Quanto mais não seja para nos redimirmos de não termos assistido a “Wetsuit” ou “Post Brake-Up Sex”.

A preguiça de nos deslocarmos até ao Palco EDP aliada à esperança de que Noel Gallagher resgatasse temas dos Oasis, fez-nos desistir de Little Dragon. E ainda bem, apesar das primeiras impressões não serem totalmente favoráveis. Os High Flying Birds de Noel Gallagher apresentavam o seu segundo álbum “Chasing Yesterday”, editado em 2015, e os temas, apesar de enraizados em sons bem nossos conhecidos, não contagiavam da forma que deveriam (facto exacerbado pela fraca interação inicial de Noel com o público e pelo som com deficiências acústicas). Foi aí que entrou a terapia de choque de nome “Champagne Supernova” que se estendeu à loucura em “Don’t Look Back in Anger”. Efetivamente, só quando Noel repescou temas que tinham sido ali mesmo tocados em 2009 pelos Oasis é que o público reagiu mais efusivamente. E, pelo meio, até as canções de Noel Gallagher a solo ganharam nova vida.

Foto @ Super Bock Super Rock
Foto @ Super Bock Super Rock

 

Ao cair a noite, e em modo hipster (“Parece o Chet Faker“, diziam ao nosso lado), aparece o ex-Police, Sting, para um concerto memorável que é uma autêntica masterclass para os mais novos de como se deve lidar com multidões sedentas de um bom espetáculo. Em cerca de hora e meia (e com direito a dois regressos ao palco a pedido do público), Sting percorreu a sua vasta carreira com uma energia inconfundível e irreproduzível.

À nossa frente está uma jovem de cabelos brancos que balança o tronco com “Englishman in New York”. Mais ao lado, um pai com a sua filha – que nem idade deveria ter para pagar bilhete – entoam “Message in a Bottle”. Mais à direita, está um casal adolescente que ergue os braços quando Sting resgata o tema “Roxanne” dos Police. E assim se compunha a MEO Arena: quase lotada e de público diverso. Cenário impensável no Meco.

O concerto de Sting, ainda que previsível e formatado, é especial pela química inexcedível que ele tem com o público. Seja através dos diálogos em português audível ou pelos solos que proporciona aos membros da banda que o acompanha, seja pelo improviso descarado ou pelo apelo ao canto em coro. Tudo funciona, tantos anos depois.

DR

 

Foto de destaque: ABC.es

 

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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