Super Bock Super Rock 2016 | O Rei Kendrick Lamar encerra festival com nota máxima

Quem se deslocou no sábado até ao Super Bock Super Rock, pode ter testemunhado um dos melhores concertos das suas vidas. Autoria do Rei Kendrick Lamar. 

Ninguém queria ver mais nada a não ser K-Dot. Não se ouvia outra coisa nas conversas de cerveja na mão, nos passeios junto ao Tejo, nas filas de espera para isto e para aquilo, nos concertos no palco EDP, mas sobretudo entre aqueles que, desde bem cedo, se sentavam em frente ao palco da MEO Arena à espera de Kendrick, Kendrick Lamar. Mas o furacão que se dirigia a vertiginosamente para o Parque das Nações tinha hora de chegada marcada bem lá para o fim da noite, e havia que fazer horas. Quem vai ao Super Bock Super Bock sabe, especialmente neste tremendo line-up de 2016, que ‘fazer horas’ não é problema.

O dia começava então com a bela Kelela no palco EDP. A sobreposição de sonoridades pop e R&B, com o soul e ritmos mais dançáveis, só nos fazem lembrar o concerto de FKA Twigs no ano passado no NOS Primavera Sound. A norte-americana, que já recebeu elogios de Solange Knowles e Björk, trouxe temas do EP “Hallucinogen” (“Rewind”  parece continuar a ser o mais conhecido), e certificou-se de refrescar aquele quente fim de tarde do último dia de Super Bock Super Rock.

Seguimos diretamente para a MEO Arena, de onde contávamos já só sair de madrugada de sorriso nos lábios e com o coração cheio. Os Orelha Negra abriam as hostes já a noite se começava a pôr lá fora. Aperitivos do terceiro e novo álbum, com lançamento previsto para este ano, foram lançados ao público como se fossem rebuçados ali mesmo concebidos naquele laboratório musical do qual fazem parte Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e João Gomes. O funk e o soul misturam-se num banho de eletrónica, mas até é o hip hop que lhes está nas raízes. O espetáculo visual é só um pequeno assessório que torna aquele concerto dos Orelha Negra numa jornada etérea para quem assiste.

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De La Soul @ Foto de Super Bock Super Rock

 

O hip hip puro e duro começava de seguida com De La Soul. E aqui tem de ser reconhecida a triunfal mas arriscada aposta da organização do Super Bock Super Rock em desdobrar este renovado festival em estilos musicais diferenciadores, desatados do estigma de que um festival como o SBSR deve apenas prestar vassalagem ao rock que lhe dá nome. Os monumentais concertos de De La Soul e, especialmente, Kendrick Lamar vêm provar que há espaço para o género em Portugal e, mais do que isso, que a música tem caminhar a passos largos para viver em harmonia com toda a sua diversidade.

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Os De La Soul aproveitaram da melhor forma as vicissitudes do momento. Primeiro, criando desde os primeiros minutos do espetáculo uma relação cúmplice com a audiência que, mesmo não sabendo de cor todos os seus trabalhos, foi capaz de vibrar de forma colossal com cada uma das músicas. Depois, ultrapassando as dificuldades sonoras do MEO Arena (o eco transformava o instrumental em barulho de fundo), e até do aparente vazio do palco em termos de acessórios visuais, criam uma batalha pacífica entre o público que duraria o concerto por inteiro. É certo que do ponto de vista musical, os De La Soul já fizeram melhor, mas quem debita um “Me, Myself and I” daquela forma e ainda consegue levar ao rubro uma plateia inquieta por Kendrick Lamar, merece pelo menos o nosso desejo de os voltar a ver por cá.

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Kendrick Lamar @ Foto de Super Bock Super Rock

 

Quanto a Kendrick Lamar, ainda hoje faltam palavras para descrever o que ali se passou. Se as paredes falassem, diriam que, durante aquela quase hora e meia, um furacão se abateu sob Lisboa. Diriam que os sopros ininterruptos dos ventos, entraram pelas portas da MEO Arena e fizeram toda a gente rodopiar num frenesim constante; diriam que a chuva que ali caiu, encharcou 20 mil pessoas com a água benta da felicidade – o suor; diriam que os raios que ali foram projetados atingiram cada uma dessas pessoas e as fizeram cantar de cor e salteado cada uma daquelas canções que têm o dom de aglomerar 20 palavras em 2 segundos; diriam que na origem daquele furacão estava um homem de um talento inigualável, dotado de uma energia nunca antes vista, um homem que emociona e se emociona (ainda suspeitamos que naquela merecida vénia do público que durou quase 10 minutos, Kendrick Lamar soltou umas lágrimas), um homem que tem o dom da palavra e que sabe arrastar multidões (quem o viu no NOS Primavera Sound e quem o vê agora!). Se as paredes falassem, como diz Kendrick em “These Walls”, diriam que aquilo que ali se viu, se dançou, se sentiu, se transpirou, se cantou, constitui-se, provavelmente, como um dos mais vibrantes, emocionantes e – por fim, e porque tem de ser dito – melhores concertos das nossas vidas.

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Desde o concurso de saltos em altura para ver quem levitava mais alto em “untitled 07”, passando pelos mergulhos em “Swimming Pools”, o hino que personificava cada um dos presentes, “Bitch, Don’t Kill My Vibe”, culminando com um pedido de uma fã em “For Free?” e um encore de uma das melhores canções de 2015, “Alright”… Kendrick fartou-se de distribuir felicidade. No fim, quando se foi embora e deixou pelo meio as sementes de algumas canções que gostaríamos de ter ouvido por inteiro, apercebemo-nos do quão bom aquilo tinha sido. É que foi tão bom, mas tão curto. O que só corrobora o ditado que nos diz que o que é bom acaba depressa.

 

Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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